09| Quebra-corações

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O pequeno-almoço com os primos foi agradável, talvez até demais. Quase parecíamos uma família perfeita, envolvidos em conversas desafiantes e momentos cúmplices, relembrando-me assim o facto de eu nunca ter tido isso na vida. Antes de irmos morar com Michael e Karen, tínhamos sido só eu e a minha mãe e, mesmo que ambas considerássemos ser uma boa família, estar agora reunida à volta de uma mesa com mais quatro pessoas do meu sangue era uma sensação muito melhor. Não que eu tivesse a necessidade de a sentir mais vezes, pois sabia ser muito improvável voltar a ter uma destas, mas pela primeira vez, foi como se pertencesse a um lugar, mesmo que tenha sido por uns minutos apenas. Richard demorou cerca de vinte minutos a aparecer em casa do tio Leonard, demorando outros trinta à conversa, enquanto Juli me devolvia as roupas e me obrigava a comer mais um bocadinho. Mas eu só queria ir embora. Não conseguia parar de pensar em Michael e Luke, encurralados naquele hospital. Queria tanto falar com eles e fazer um milhão de perguntas, acabando triunfalmente a dar-lhes um sermão ou a dizer-lhes das boas.

"Então fica assim. Ensaio sem falta na quarta-feira!", Richard avisou o meu tio, que entretanto se tinha desenvencilhado da conversa aborrecida que o meu progenitor insistira ter. Caminhámos ambos até à porta, depois de nos despedirmos convenientemente dos primos e de Juli, que até ao momento tinha ficado a pairar na minha consideração. Não sabia se gostava ou não dela, mas estava mais inclinada para o não. Ela parecia tão fútil e falsa. Felizmente não era mãe de Axl, Rose e Kurt, e muito menos a mulher fiel de Leonard, senão obviamente teria de me obrigar a adorá-la.

"Adeus, Cloe! Gostei de te ter por cá!", Leonard gritou, assim que saímos porta fora. Sorri-lhe em resposta, um pouco confusa com as suas palavras. Eu mal tinha estado com ele, passando a maior parte do tempo a dormir ou a comer, então como raio tinha ele gostado de me ter em sua casa, a fazer despesa e sujidade? Enfim, não podia negar que tinha sido bem recebida.

"Então, raio de sol, portaste-te bem?", Richard questionou, assim que entrámos no carro. Antes de colocar o cinto, cerrei as sobrancelhas e fitei-o seriamente. Ele só pode estar a gozar, não é?

"A sério, Rich? A sério?", tentei não me rir. "A sério que estás a fazer o papel de pai de uma miúda de oito anos? Essa janela já fechou há muito tempo."

"Nunca me deixas ser feliz...", baixou a cabeça, amuando tal como uma criança. Eu acabei a rir-me à gargalhada, como não podia deixar de ser, e prendi o cinto à volta da minha cintura, esperando que a birra acabasse e Richard decidisse arrancar finalmente dali para fora.

Passámos metade da viagem em silêncio, refletindo cada um acerca das noites miseráveis que tivemos, ou pelo menos era isso que eu estava a fazer, até voltar outra vez a lembrar-me do acidente dos rapazes e daquilo que lhes poderia ter acontecido caso a árvore não lhes amparasse o impacto. Quem me dera ser menos cobarde e ter o desplante de lhes telefonar. Eu nem precisava de falar, apenas de os ouvir ralhar comigo e atirar-me com panelas aos ouvidos, desde que escutasse as suas vozes e me voltasse a sentir de novo em casa, como aconteceu durante o pequeno-almoço. Tinha tantas saudades deles, mesmo que apenas tivesse passado uma semana, e imaginava como seria quando os meses começassem a passar mais devagar e a ser mais longos, como uma tortura antecipada. Talvez acabasse por desistir eventualmente e fugir até ao aeroporto, ou talvez nunca mais voltasse a regressar, com medo do confronto.

"Cloe...", Richard suspirou, parecendo tão melancólico quanto eu. "Falaste com a tua mãe ontem, não falaste?"

"Sim. Ela ligou-me."

"E ela falou-te da escola, não falou?"

"Sim.", anuí, confusa. "Porque..."

"Porque eu gosto de saber.", encolheu os ombros, passando a mão pelo cabelo. Richard parecia exausto, como se tivesse passado a noite em claro. Não sendo o facto de saber que a avestruz não lhe deu conversa no encontro, eu pensaria que ela e Rich passaram a noite a comer-se em cima dos móveis, como cães selvagens. "Então... desmaiaste..."

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora