06| Aparência triste em estado alegre

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As luzes da cidade tornavam a noite mais fácil de suportar, talvez até um pouco mais agradável. Caminhei durante alguns minutos por rumo incerto, observando apenas a beleza da simplicidade com que era recebida nesta terra perdida em pleno oceano. O silêncio penetrante e a calma conferiam-me estabilidade emocional, como uma paz inexplicável e prazerosa, que me fazia esquecer todos os problemas e deixava vaguear alegremente pelo alcatrão desprovido de automóveis. Era só eu e as minhas pernas, que sozinhas decidiam por onde seguir. Não conhecia nem metade daquelas ruas, e sabia que estava a enveredar por caminhos perigosos, pois ainda acabava perdida e aí seria um caso sério, mas o meu subconsciente atolado de pensamentos deprimentes ignorava esses avisos racionais. Continuava a desejar ali a presença de Michael, mas começava a apreender a ideia de ser só eu. Só eu. Só eu e os meus delírios.

Imaginava agora como estaria a correr o encontro de Richard, e se ele conseguira arranjar o jantar a tempo da avestruz chegar e lhe desviar as atenções desses pormenores significantes. No fundo, só queria que as coisas corressem bem e que ele se pudesse divertir por um pouco, mas noventa porcento de mim (o diabinho ao ombro, digamos) rezava para que se tornasse numa grande e terrível desgraça. Richard merecia que assim fosse. Merecia que a avestruz fosse uma assassina e/ou ladra em série que o depenasse até às orelhas, merecia que alguém morresse intoxicado com a sua comida e merecia levar um par de estalos no fim da noite quando tentasse a sua sorte na garagem. Só de imaginar, chegavam-me as lágrimas aos olhos de tanto rir.

Mas depois havia a minha situação. Richard regalava-se no seu encontro, enquanto eu, uma inocente e débil rapariguita, se deambulava pelas ruas escuras de Wellington, à mercê dos assassinos, dos violadores, dos pedófilos, dos ladrões e dos monstros papões escondidos nas vielas. Não tinha medo, pelo contrário, mas sentia uma estranha sensação de abandono. Outra vez. Todos me deixavam e eu deixava todos. Ultimamente a minha filosofia de vida tem sido esta, pois é a que mais se adequa à realidade que eu vivo. Constantemente, no meu dia-a-dia, sou abandonada pelas únicas pessoas que ainda me conseguem ajudar, e gradualmente, também eu fui abandonando essas pessoas, até já ser tarde demais e definitivo, tal como agora. Eu não tenho um local nem uma hora certa, apenas uma imprecisão de tempo e de espaço, que variam consoante a direção para onde o vento me levar; umas vezes posso estar perdida entre os chuviscos e a vida agitada da cidade de Londres, noutras posso estar aninhada nos braços de Michael, deitada na sua cama em Sydney, e agora aqui me encontro eu, pensativa e perdida em Nova Zelândia, arrastada numa infindável maré de azar.

Um suspiro abandonou os meus lábios quando avistei uma rua recheada de bares e lojinhas noturnas. Aquele parecia um lugar duvidoso, cheio de armadilhas ocultas de satanás e ameaças à castidade humana. Vários jovens saltavam, cantavam, gritavam, conversavam, bebiam, fumavam e dançavam, tornando aquela na rua da carnificina total. Não, ninguém matava ninguém, mas a forma como aquelas pessoas agiam, como se não houvesse um amanhã, levava a querer que estariam mortas logo após o raiar do sol. Tentei passar despercebida quando avancei naquela direção, mantendo-me cabisbaixa e de mãos enfiadas nos bolsos, como uma vagabunda ou um cão vadio. A música tornava-se cada vez mais alta e eu percebi que aquela seria provavelmente a zona de lazer da cidade, para onde todos os jovens da minha idade iam para se divertir. As caras que passavam por mim tornavam-se num borrão e eu quis tornar-me invisível quando me fitaram de forma contínua, parecendo ler-me os pensamentos. Eles sabiam que eu não pertencia ali, mas eu pensei que se não me metesse com ninguém, então ninguém se meteria comigo. E depois lembrei-me de Michael. Se ele ali estivesse, sobretudo se ele ali estivesse acompanhado de Luke, Nia, Miranda, Rena e Calum, ele insistiria para que nos divertíssemos. Ele agiria como um perfeito maluco, cantaria, gritaria, conversaria, beberia, talvez não fumasse mas dançaria, tudo como se não houvesse amanhã. E eu imitar-lhe-ia os passos, pois eu nunca consigo resistir a uma boa aventura. E ele dir-me-ia que aquela teria sido a melhor noite da sua vida e então encostar-me-ia contra um muro qualquer e beijar-me-ia com força. Seria memorável.

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