As minhas mãos caíram sobre o lavatório de forma bruta, o que me custou um grunhido de dor. O espelho à minha frente mostrava a figura magra e desleixada de uma rapariga sonolenta e apática, que devido às poucas horas de sono experienciadas, havia adquirido umas terríveis olheiras. Podia dizer que já não tomava banho há muitos dias, mas isso seria mentira, pois acabara agora mesmo de o fazer. O meu aspeto não o demonstrava. Com um suspiro pesado, esfreguei a minha testa e amarrei o meu cabelo atrás dos ombros. Ele estava tão comprido que me chegava até ao fundo das costas, e não podia combinar mais com a palidez do meu rosto. O outrora roxo berrante era agora um pálido e desbotado lilás adormecido, que combinava na perfeição com o meu aspeto moribundo. Era deprimente a vários níveis, e eu juro que só não comecei a chorar naquele instante porque não queria correr o risco de ser ouvida por Richard. Ele iria fazer um milhão de perguntas e iria sobretudo tentar consolar-me com propostas e palavrinhas inúteis.
Os meus ombros caíram quando expirei profundamente. Sentia o ar dentro de mim esvair-se lentamente, como se houvesse um furo no meu corpo que sugasse par a a atmosfera todo o oxigénio que eu ainda possuía. Era uma morte lenta, mas não assim tão dolorosa.
Peguei na tesoura jazida à minha frente e ergui-a à frente dos meus olhos, observando o seu reflexo no espelho quebrado. Ela refletiu a luz proveniente da janela, e eu estremeci com o medo de aquela coisa pontiaguda e afiada poder eventualmente cravar-se na minha pele e provocar dor. Felizmente não era na minha pela que ela iria cravar. Peguei no meu desmaiado rabo-de-cavalo e apertei o cabelo entre os meus dedos trémulos, tentando dirigir a tesoura até eles. Fechei os olhos com força e fiz força para cortar o cabelo, usando o elástico que os suportava como barreira. Quando o senti deslizar foi quando ergui no ar uma porção de cabelos, atirando-os de seguida para o chão imundo. Os meus olhos lacrimejantes abriram quando senti um arrepio nas costas e o peso que estas carregavam desapareceu milagrosamente. Virei-me de novo para o espelho e suspirei com o novo reflexo avistado. Continuava a ser eu, e continuavam a ser os meus cabelos pálidos e lilás, mas estava diferente. As pontas ficavam uns milímetros acima dos meus ombros, e, apesar de ligeiramente irregular, eu não ficava assim tão mal quanto isso. Na verdade fazia-me lembrar uma menina pequena, só que essa menina já não era eu. Essa menina já não tinha cabelo comprido nem trancinhas para exibir. Essa menina tinha agora uma pele pálida, uns olhos verdes brilhantes, um cabelo curto e um sorriso nos lábios.
Larguei a tesoura e recuei, ouvindo o seu tilintar ao cair no chão. Ao baixar o rosto, avistei-a junto dos meus cabelos velhos, reparando no quão irónica é a vida. Foi preciso tudo isto para eu finalmente tomar uma medida em relação a mim própria e ao meu bem estar. Foi preciso sofrer para voltar a erguer a cabeça e dizer Não, eu sou forte. E eu sou mesmo forte, caso contrário já estaria enterrada num cemitério qualquer por suicídio; mas não, aqui estou eu, a cortar o cabelo à tesourada e a viver com o meu pai.
Deitei os meus cabelos no caixote do lixo e arrumei a tesoura, abrindo depois a porta da casa de banho. Ainda não tinha falado com Richard desde que acordara da pequena sesta, e ainda nem tinha sequer visto se ele me limpara o quarto como prometera fazer. A única coisa que fiz foi levantar-me do sofá, procurar uma muda de roupa, tomar um banho fresco e cortar o cabelo. Sentia-me melhor, o que constituía um grande progresso.
De braços cruzados, caminhei até ao outro lado do corredor e empurrei a porta entreaberta, deparando-me com um quarto arejado e perfumado. Richard parecia ter-se esmerado, pois até já haviam tapetes no chão e a cama estava pronta a ser usada, revestida por lençóis brancos e um edredom preto. Mais uma vez, aquilo lembrava-me Michael e o seu quarto, decorado nos mesmos tons. Tinha de afastar estes pensamentos do meu cérebro antes que voltasse a cometer uma loucura, mas naquele momento apenas suspirei, abrindo as gavetas da cómoda de modo a comprovar as minhas suspeitas de estarem vazias. Para meu espanto, também encontrei as minhas malas de viagem do outro lado do quarto junto ao tal cadeirão de que Richard me falara anteriormente. Ele tinha realmente um aspeto velho, mas via-se que tinha sido limpo recentemente e possivelmente até remendado nalguns sítios menos visíveis. Apesar de tudo, tinha um aspeto confortável e realmente convidativo. Era todo preto, à exceção dos acabamentos em madeira, esses pintados de branco acinzentado. Sentei-me nele para o testar, e logo um sorriso apareceu nos meus lábios.
"Princesa...", levantei a cabeça quando reconheci a voz grave de Richard, e logo o vi atrás da porta, de olhos postos em mim. "O teu cabelo... que aconteceu?"
"Estava farta dele e ofereci-o a um caixote do lixo necessitado.", respondi sarcasticamente, mantendo-me sentada no seu cadeirão. "O quê? Não gostas do meu novo visual?"
"Bem, não, é que... não estava à espera disto.", encolheu os ombros, adentrando pelo quarto. "Mas bem, estás satisfeita com o quarto?", sorriu.
"Hm...", encolhi os ombros, "É-me indiferente."
"Mas pelos vistos gostas do cadeirão que eu trouxe.", balançou as sobrancelhas de forma pretensiosa, e eu vi-me obrigada a levantar-me, não querendo quebrar o meu ar duro. Eu ainda estava zangada, e muito menos tinha esquecido tudo aquilo que ele me fez sofrer. Richard era apenas um mau pai, e eu tinha de começar a mostrar-lhe o que era uma má filha.
"Ouve...", rosnei, "Lá por eu ter vindo viver contigo de livre vontade não significa que eu esqueci todas as coisas que me fizeste ao longo da vida e que perdoei as tuas merdas. Eu sei que és meu pai e isso tudo, mas eu não tenho de ser obrigada a fingir simpatia e agradecimento, sobretudo quando não é do meu interesse ficar aqui enterrada neste fim do mundo contigo. Ainda bem que finalmente te estás a esforçar, mas isso não muda aquilo que eu sinto e aquilo por que passei. Aprecio o esforço, mas por enquanto não esperes nada de mim.", afirmei, olhando-o diretamente nos olhos. "Se aqui estou é porque reconheço a merda que fiz, e não porque quis vir passar umas férias com o papá. A mãe mandou-me para aqui, portanto eu só tenho é de engolir e esperar que acabe."
Richard riu-se como se eu tivesse acabado de contar uma anedota, deixando-me confusa. Não era aquele o efeito que eu esperava receber da sua parte, no entanto não podia negar que era engraçado vê-lo rir-se feito doido. Quando parou, olhou-me de forma séria e abanou a cabeça, deixando-me ligeiramente intimidada.
"Como se eu não soubesse já isso tudo.", retrucou, "Mas teremos tempo para limar as arestas."
"Da última vez que confirmei nenhum de nós era uma figura geométrica.", resmunguei.
"Sim, Cloe. Eu sei.", revirou os olhos, recuando de novo até à porta. "Jantamos daqui a quinze minutos, mas entretanto vai ao armário da casa de banho e vê se gostas da cor."
"Da cor?"
"Como é que achas que eu mantenho o meu cabelo belo e sem brancos?", Richard vangloriou-se, tocando gentilmente no seu cabelo preto. "Esse lilás não te favorece, amor. Precisas de uma cor sólida e destemida!", fechou o punho e ergueu-o de forma vitoriosa. "Mas se pensares em mudar, tem cuidado para não sujar nada.", cantarolou, deixando-me novamente sozinha e à mercê de pensamentos perigosos. Não podia ignorar o facto de me estar a apetecer cometer outra loucura, sobretudo uma que envolvesse eliminar uma cor que durante tanto tempo me deu vida.
»»»
como eu disse... isto é uma loucura.
Pelo andar da coisa podem esquecer aquilo que eu disse acerca de só publicar no verão, porque pelos vistos eu não consigo cumprir essa meta e existem sempre coisas que me puxam a publicar como:::::
HOJE estou a celebrar o aniversário de ter conhecido a prxcrastinatus !!! FAZ HOJE UM ANO E EU NÃO PODIA ESTAR MAIS FELIZ POR TERES VINDO FALAR COMIGO NAQUELE DIA, PORQUE AGORA JÁ NEM SEI VIVER SEM TI.. OLHA OBRIGADA POR TUDO AMORZINHO. este capítulo é para ti :')
(eu avisei que esta história ia virar deprimente)
P.S. PASSEM PELA NOSSA COLAB ACC @sauciness E ADICIONEM PEACH ÀS VOSSAS BIBLIOTECAS. É COM O MICHAEL E É ADORÁVEL!!!
LOVE YOU GUYS
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Social Casualty II ಌ m.c
Humor❝Eu odeio ter de fazer isto, e desejava somente ficar perto de ti, mas talvez tu tenhas razão. Talvez eu seja realmente errada. Tinha medo que to dissessem, mas ainda mal que não o fizeram. Tu devias tê-lo ouvido, pois talvez assim parasses de me qu...