11| Tu a carta, eu a recomendação

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Não sei o que está a acontecer comigo, mas, pouco a pouco, vou-me acostumando à ideia da vida nova que se está formar em meu redor. Não é como se eu tivesse subitamente esquecido tudo, mas sinto-me melhor em relação a mim mesma. Eu não podia ter evitado que Michael ficasse infeliz sem mim, pois de uma forma ou de outra, ele iria ficar, quer eu me fosse embora ou acabasse por me casar com ele. Quer dizer, quem é que são os idiotas que casam com dezassete e dezoito anos? Provavelmente acabaríamos tal e qual como os meus pais, de costas voltadas e com um bebé nos braços, e, já que nenhum de nós sabe sequer olhar por si, como raio iríamos olhar por uma criança? Além disso, viver juntos? Meu Deus, isso seria a terceira guerra mundial. Nós nunca resultaríamos, pelo menos não agora, no auge da imaturidade. Portanto, sim, eu começava a sentir-me feliz pela decisão que tinha tomado. Começava a conhecer pessoas novas, começava a envolver-me ativamente no meio social, e começava a tomar noção da realidade que me rodeava, que, para que conste, nem era assim tão má quanto isso. Todas as manhãs ia com os primos para a escola, ouvindo as suas baboseiras matinais, depois ficava na escola até à tarde, normalmente sozinha, acompanhada de livros (objetos pelos quais eu me vim a afeiçoar de novo, ao longo das semanas que passei sozinha enclausurada no quarto), e por fim regressava a casa, para ouvir as piadas e os nomes foleiros de Richard, que às vezes até me surpreendia pela positiva. Às quartas-feiras haviam os ensaios da banda dele, que se alongavam pela noite fora e se transformavam numa verdadeira festa, e aos fim-de-semanas eu tirava um pouco do meu tempo para conversar com Elsa, Karen, Rena e Luke, que me mantinham a par das novidades dos últimos tempos. No entanto, num destes fim-de-semanas, o tom de conversa foi diferente, e por momentos eu receei o pior.

"Preciso de conversar contigo.", Luke suspirou. De há uns tempos para cá que comunicávamos sempre através de video chamada, para assim matarmos as saudades de forma mais verdadeira. Quando ele viu o meu novo corte de cabelo quase desmaiava, mas depois de se recompor, fez-me um elogio sincero e disse-me que eu parecia uma estrela de cinema dos anos cinquenta, o que levantou muito a minha moral.

"Jesus, Luke, essa frase é pólvora para as minhas hormonas nervosas!", resmunguei, tapando metade do rosto com a mão. Estava sentada em cima da minha cama, com as cortinas escuras a tapar as janelas e apenas a luz do candeeiro acesa, para me dar a quantidade de luminosidade necessária. O loirinho atraente baixou a cara, deixando-me com uma perspetiva diferente do cocuruto da sua cabeça. Ainda não tinha percebido bem onde raio estava ele, mas parecia encontrar-se num jardim ou algo parecido, tendo em conta a quantidade de vegetação atrás da sua cabeça. "Aconteceu alguma coisa!?"

"Não... mas eu preciso da tua ajuda." Ele parecia abatido, o tipo de abatimento que só poderia ser causado por duas coisas: ou um desgosto amoroso ou Michael. Já tínhamos conversado muito acerca dele nos últimos dias e Luke estava constantemente a relatar o estado decadente em que este se encontrava, apesar de agora já estar a conseguir melhorar significativamente. Já não saía tanto à noite e já não faltava às aulas, apesar de ainda discutir muito com a sua mãe (e desconfio que com Elsa também, já que a mulher é combustível para guerra).

"Sim, diz lá. Eu ajudo no que puder!", levantei as mãos. "É alguma coisa com o Michael?"

"O Michael?", Luke franziu as sobrancelhas. "O Michael está nas nuvens! Quem precisa de ajuda sou eu!"

"Pronto, pronto...", ri-me. "Diz lá, girassol."

"Isso foi um golpe baixo, Cloe? Chamaste-me girassol porque sabes que eu já não te posso chamar beringela, é?", vi um beicinho sincero atravessar o seu rosto. Ele parecia diferente, mais maduro talvez. Já não tinha a tão famosa argola negra no lábio e as suas faces haviam adquirido uma quantidade brutal de barba, levando para trás aquela imagem afeminada de Luke num tutu cor-de-rosa ou Luke num avental, a limpar. Ele estava cada vez mais bonito, sobretudo naquela noite, debaixo da luz da lua e das estrelas, que em Sydney pareciam quase quadros pintados. Às vezes perguntava-me se a minha ida para longe os teria feito amadurecer, se lhes tinha provocado muitas mudanças, e quando olhava para Luke, conseguia muitas vezes prever essa resposta. No entanto, também ficava com muita vontade de ver Michael, o que me entristecia sempre que Luke pedia para conversarmos, pois no fundo, uma esperança apoderava-se de mim. Eles poderiam estar juntos ou algo do género, mas até ao momento, nunca pudera colocar os meus olhos nessa maravilha das trevas chamada Michael Clifford, que me assombrava os sonhos.

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora