(BLACKOUT)

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Senti-me como merda quando os meus amigos, todos eles, me disseram que iam até aí, passar as férias contigo. Sentia-me a ser traído pelas únicas pessoas que até ao momento me inspiraram confiança e conforto, mas depois percebi uma coisa: tomar como certas as coisas, é o mesmo que tomar como certa a incerteza que é a vida. Eu não queria que eles me trocassem por ti, e muito menos que me abandonassem. Ficar sozinho, pela primeira vez desde que não te tenho, podia ser catastrófico. Provavelmente acabaria por morrer numa vala qualquer, só e com um peso no coração, completamente destroçado por me ter calhado na rifa um desgosto tão intenso e impossível de ultrapassar. Eu ainda te amo, Cloe, e esse meu amor é como um veneno que todos os dias ingiro, e que me mata lentamente. É este o efeito que tens em mim, mesmo que no fim de contas nada seja tão inigualável quanto a saudade que eu sinto por ti e por essa tua essência selvagem e inebriante. Amo-te com todas as minhas forças, mas seria impossivel para mim voltar a rever os teus olhos singelos e carinhosos, que me fariam relembrar todas as terríveis noites sem dormir que tu me provocaste.

No entanto, fui estúpido e cedi.

"Tens a certeza? Ainda vais a tempo...", Luke sorriu com tristeza, parando à frente da porta com várias malas nas mãos. Atrás dele, seguiam Calum, Rena e Nia, que hesitaram em abandonar aquela casa. Aproximei-me com os olhos baixos. No fundo, queria muito acompanhá-los até ao aeroporto, embarcar no avião e voltar para junto de ti, mas o mais certo era arrepender-me no momento em que aterrasse no chão.

"É um talvez.", olhei-o nos olhos, confuso comigo mesmo. O meu bilhete amarrotado, que eu tinha comprado às escondidas dos meus amigos, ainda permanecia intocável dentro do bolso de trás das minhas calças, e apesar de serem uma desorganização, as minhas malas estavam prontas a seguir viagem.

"TEMOS DE NOS DESPACHAR!" , Rena gritou, já do carro. Humedeci os lábios e corri na direção de Luke, abraçando-o com todas as minhas forças. Podia ser lamechas e pouco masculino da minha parte, mas era difícil deixar o meu melhor amigo ir sabendo que dentro de horas ele estaria na tua presença, com todas as possibilidades na mão.

"Podes dar-lhe isto?", perguntei, passando-lhe para a mão o envelope meio amachucado que eu passara a noite a observar, na tentativa de perceber se o entregava ou não. Luke olhou para o pedaço de papel, confuso, e depois olhou para trás, confirmando que estávamos sozinhos.

"À Cloe? Ela pediu para não lhe escreveres.", murmurou, deixando-me frustrado.

"Eu sei, ok! Eu sei que ela é teimosa, mas entrega-lhe isso! Pode ser!?"

"Ok, pronto. Eu entrego.", mordiscou o lábio. "Ficas bem?"

"Sim.", abanei a cabeça, retirando as minhas mãos dos seus braços. "Não lhe contes que comprámos esta casa.", pedi, olhando à minha volta. "Nem acerca dos meus planos."

"Ela vai fazer perguntas."

"Eu sei, mas as perguntas que ela vai fazer nada terão a ver com a minha vida.", sorri-lhe, "Diz-lhe que estou bem."

"Mas ela..."

"Ela abandou-me, Luke.", suspirei. "Por isso também a posso abandonar. Faz isto por mim, está bem? És o meu melhor amigo."

"Está bem.", Luke sorriu, recuando alguns passos para trás. Desejei-lhe uma boa viagem e acabei por ser eu a fechar a porta do nosso recente lar, terminando sozinho e melancólico, dividido entre ir e ficar. E foi assim que aconteceu, Cloe. Foi assim que me traí a mim próprio e decidi, uma vez mais, arriscar.


Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora