35| Memórias perdidas e saudades profundas

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6.ºMÊS

A vida começava a parecer-se com uma grande epifania, como se por milagre tudo tivesse regressado ao seu estado mais puro e natural. Talvez fossem as recordações do passado que agora se assemelhavam bastante ao presente, ou talvez o presente que se assemelhava bastante ao passado. De alguma forma, consegui sentir-me suficientemente em paz comigo mesma e deixar de lado os fantasmas que durante um longo período consumiram a minha vida, levando-me quase a um estado de loucura inacreditável e rebuscado. Mal me apercebera eu de que durante este tempo andei a preocupar-me demais com coisas que não importavam realmente, guardando para último plano os pormenores mais importantes de uma vida quase desperdiçada. O que iria fazer depois de completar dezoito anos? Que sonhos iria perseguir? Que carreira iria ter? Eu nunca me dei ao trabalho de pensar nestas coisas, pois na realidade nem me apercebi de que um dia todo o mundo como o conheci iria transformar-se numa experiência arrebatadora e cheia de questões. No fundo, eu apenas tinha de conseguir alcançar estabilidade suficiente para encontrar resposta à maioria das perguntas.

Fiquei parcialmente só durante quatro meses. A minha mãe regressou cerca de um mês a seguir ao meu acidente, tendo obrigatoriamente de regressar ao trabalho, e Michael, eventualmente, também foi obrigado a voltar para casa. Não me senti especialmente triste quando tive de me despedir deles, pelo contrário. Eu precisei de tempo meu. Precisei de uma pausa daquilo que durante anos acreditei ser apenas e somente a minha vida, o núcleo que me construiu, e aproveitei a oportunidade para me dedicar a mim mesma e às coisas que me faziam feliz, pois não eram apenas as pessoas que tinham esse poder. Encontrei felicidade em chávenas de chá, sentada num café a observar a chuva. Encontrei felicidade em livros, coisa que sempre adorei mas que acabei por esquecer no instante em que outras distrações se intrometeram pelo caminho. Encontrei felicidade em animais, em música, em letras, em filmes e em cada novo rosto que se cruzou comigo ao longo do tempo que passou. Foi como se, pela primeira vez, a velha Cloe tivesse aberto asas e voado de volta para casa, que jamais seria outra senão a de Richard. Este também conseguiu ajudar-me a ultrapassar coisas que eu achei nunca poderem resolver-se, como a mágoa intermitente que sentia por ele e pela relação mal resolvida com a minha mãe. Jamais achei que pudéssemos conversar tanto um com o outro, mas a realidade é que encontrei nele um verdadeiro pai.

Agora, em retrospetiva, sei que jamais me arrependeria do que tive de passar para chegar até ao dia de hoje. Talvez se nada do que me tivesse acontecido acontecesse efetivamente, eu não iria dar tanto valor às coisas mais singulares e aparentemente irrelevantes deste caos quotidiano. Provavelmente nem sequer pensaria duas vezes antes de cometer uma loucura ou saltar para o desconhecido, sabendo eu o quão cobarde era antes de descobrir em mim uma mulher aventureira e cheia de garra.

"Não vais voltar a pintar o cabelo?", Richard questionou, apanhando-me de surpresa enquanto se encostava à porta semiaberta do meu quarto, local onde eu agora me observava com atenção ao espelho da cómoda. Outrora castanho, outrora azul, outrora roxo, outrora lilás, o meu cabelo começava de novo a parecer-se mais consigo mesmo. Deixara de estar acima dos meus ombros, pois obriguei-me a deixá-lo crescer o suficiente para agora me cobrir o peito, e todas as cores deixaram de ser visíveis, voltando a ter nele a cor natural das minhas raízes: uma espécie de castanho amendoado.

"Não. Esses tempos de rebeldia acabaram para mim.", sorri-lhe divertidamente, vendo no seu rosto uma certa nostalgia incomum. Aproximou-se, parecendo querer desfrutar daquele momento, e pousou as mãos nos meus ombros. "Vais chorar, Rich?"

"Claro que não, ursinho.", ele fungou, desviando a cara para longe do meu campo visual. Riu-se suavemente, como se fosse ridículo demonstrar tanta emoção, e afagou-me o cabelo com gentileza. "Sinto-me muito orgulhoso de ti, sabes? E não só de ti... de mim também.", suspirou. "Não estive presente na maior parte da tua vida mas acabei por presenciar uma parte da tua vida que.... bem, mudou muito."

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora