07| Um sinal do universo

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Havia a possibilidade de tudo isto ser um sonho. Ou pelo menos havia até ao momento em que os meus olhos se abriram e eu vislumbrei a penumbra ruidosa que me cercava. Conseguia ouvir sussurros impacientes e descuidados, aliados ao movimento de braços e de mãos, que me tocavam excessivamente e sem qualquer tipo de cuidado. Era como se eu nem sequer existisse, ou fosse invisível, ou estivesse esquecida. Não sabia exatamente onde me encontrava ou com quem estava, mas sentia-me em contínuo movimento, e aí percebi que estava dentro de um carro, semideitada no banco de trás com um rapaz a brincar com a minha mão amolecida e uma rapariga a cantar desafinadamente e a entrelaçar os seus dedos no meu cabelo curto. Conseguia ainda ouvir uma voz masculina grossa e familiar, que parecia zumbir nos meus ouvidos e espalhar-se no meu cérebro como um borrão auditivo, e então ocorreu-me que poderia estar a ser raptada, e entrei em pânico.

O meu corpo não foi tão rápido a reagir quanto eu queria. Demorei alguns minutos a conseguir erguer o meu tronco e a endireitar-me no banco desconfortável. As minhas pernas encolhidas esticaram-se preguiçosamente, e os meus braços quase não se mexiam devido à dormência dos músculos. Não sabia quanto tempo tinha passado naquela posição, mas desconfiava que não tivesse sido pouco.

"Olha quem acordou." Demorei alguns segundos a entender que aquele comentário tinha sido feito para mim, mas então um foco de inteligência e racionalidade tomou conta de mim e eu pude descodificar quem era o condutor do veículo que me transportava. Também reconheci o rapaz sentado ao meu lado, só não sabia realmente se se tratava de Axl ou Kurt, mas sorri quando os seus olhos azuis se cruzaram com os meus. Leonard, por sua vez, sentindo-se ignorado por mim, voltou a abrir a boca, soltando uma gargalhada quase demoníaca. "Ah... o dejá vù que eu estou a ter agora! Na primeira vez em que esteve na Maloy Street, a tua mãe também desmaiou! Foi uma noite inesquecível, essa...", Leonard suspirou nostalgicamente, agarrando-se com força ao volante do automóvel. "E foi também a noite em que conheceu o teu pai. Claro que há vinte anos atrás as coisas eram diferentes, mas..."

"Pai.", o gémeo sentado no lugar do pendura resmungou. "Ninguém quer ou precisa de ouvir essas histórias pirosas que tu insistes contar sempre que apanhas a ponta solta de uma situação banal."

"Pessoalmente, não me importava de ouvir as histórias desavergonhadas da tia Elsa. Aposto que nessa noite eles foderam com tanta força que..."

"AXL!", todos naquele carro gritaram, à exceção de mim, claro. Felizmente só pensava no facto de saber finalmente quem era o rapaz que tinha sentado ao meu lado, e que esse era o empregado que me atendera no bar; não esperava que no fim da noite viesse a descobrir sermos primos, e sobretudo que ele fosse tão explícito nos seus devaneios, mas felizmente parecia inofensivo e um pouco mais divertido que Kurt, que até ao momento se mostrara demasiado sério e perplexo.

"O que foi!? Eu ao menos exponho aquilo que toda a gente pensa mas tem vergonha de dizer!", o rapaz barafustou, atingindo acidentalmente no meu olho esquerdo com a mão. Eu praguejei de dor quando ele o fez, levando imediatamente ambas as minhas mãos ao rosto de forma a proteger-me de novos possíveis ataques. "OH MEU DEUS, DESCULPA!", Axl gritou, assim que se apercebeu do sucedido. Ele virou-se na minha direção e tocou-me nos pulsos, como se me quisesse afastar as mãos da cara e olhar-me bem profundamente nos olhos, de forma a provar o quão arrependido estava. No entanto, eu não me comovi tão facilmente, e ao invés de aceitar as suas desculpas, lancei-lhe um rugido furioso.

"Bruto.", cruzei os braços ao peito, soltando um suspiro impaciente. Nesse momento senti uma mão delgada pousar em cima do meu ombro, e olhei para o lado, vislumbrando uma rapariga morenita e sorridente. Os seus olhos cor de avelã reluziam na escuridão, e os seus dentes brancos formavam um sorriso invejável; ela parecia bastante bonita vista daquela perspetiva, e então aí duvidei que ela partilhasse os mesmos genes que eu. É verdade que o seu nariz abatatado tinha algumas semelhanças com o de Elsa, mas ela parecia quase uma deusa, nada parecida com os meus ares desajeitados.

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora