Nessa manhã tudo parecia cinzento. A minha mãe gritava para eu me despachar e a única coisa que ainda me conseguia dar energia era a ideia de, dentro de um ou dois dias, já estar num país diferente, longe desta vida australiana miserável. Londres nunca foi de facto um país que eu adorasse, mas servia. Sempre achei os londrinos pessoas muito severas e inexpressivas e isso não podia combinar menos com a minha descontração e sentido de humor. No entanto, e depois de todas as coisas pelas quais passei, sabia que estava preparada para a mudança.
"Está alguém à porta!", ouvi a minha mãe gritar. "Podes ir ver quem é?"
Com um suspiro e um revirar de olhos, larguei o rolo de fita adesiva que utilizava para selar todos os objetos que levaríamos na viagem e caminhei até ao corredor estreito, que levava por conseguinte à porta de entrada. Cerrei os olhos ao notar que o vidro opaco não mostrava a silhueta de ninguém, mas ainda assim rodei a maçaneta.
"Estranho...", murmurei ao comprovar que ninguém se encontrava atrás da porta. Ao invés, um envelope jazia no tapete de boas-vindas.
Agachei-me com desconfiança e apanhei o papel, lançando um olhar inquiridor ao espaço em volta. Não havia ninguém na rua, só o cheiro a erva fresca e uma bicicleta abandonada junto ao poste da eletricidade.
Com um suspirou, fechei a porta e voltei a dirigir-me à sala. A minha mãe permanecia sabe-se-lá-onde e eu sentia-me demasiado curiosa para a avisar sobre o envelope suspeito, por isso, em silêncio, sentei-me no sofá e abri o envelope, retirando lá de dentro um bilhete amachucado. Antes de o ler, examinei atentamente os pormenores, reparando numa mancha de tinta azul na borda do papel e na caligrafia imperfeita. Eu reconhecia aquela letra, e nem precisava de ler o bilhete para afirmar ser do Michael.
«HÁ UMA COISA QUE TU PRECISAS DE SABER. ESTA É UMA COISA IMPORTANTE E QUE PODE MUDAR TUDO! O MICHAEL ESTÁ APAIXONADO POR TI, E ELE NÃO QUER QUE TU VÁS...
FICA, CLOE.»
Os meus olhos humedeceram e o meu primeiro impulso foi soltar uma gargalhada seca. O meu coração doía mas eu não me podia esquecer do ódio forçado que nutria àquele rapaz. Rasguei o papel e voltei a rir-me, desta vez sem impedir as lágrimas de caírem pelo meu rosto.
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Social Casualty II ಌ m.c
Юмор❝Eu odeio ter de fazer isto, e desejava somente ficar perto de ti, mas talvez tu tenhas razão. Talvez eu seja realmente errada. Tinha medo que to dissessem, mas ainda mal que não o fizeram. Tu devias tê-lo ouvido, pois talvez assim parasses de me qu...