(BLACKOUT)

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Provavelmente cometi um erro ao aparecer aqui sem mais nem menos, mas que podia eu fazer? Tu nunca saíste da minha cabeça, Cloe. Nunca abandonaste os meus sonhos, os meus pensamentos, os meus devaneios, as minhas preces, as minhas esperanças, as minhas ilusões e os meus apagões. Achava que ao regressar para junto de ti pudesse ver alguma luz do passado. Podia voltar a apaixonar-me por ti, começar do zero, fingir que nada aconteceu, mas no entanto aconteceu exatamente o oposto. Assim que te vi, sentada naquele banco com a minha carta nas tuas mãos, uma fúria apoderou-se do meu corpo. Senti inveja da tua descontração e do teu conforto, porque eu nunca, jamais, me consegui sentir assim. No momento em que olhaste nos meus olhos, senti que tinhas passado bem sem mim, e por um segundo lembrei-me de todos os momentos de rejeição que passei por tua causa. Já me trataste tão mal, Cloe...

O que me doeu mais ainda foi ver-te tão descontraída hoje, na companhia dos teus primos. Esqueceste-te de mim? Esqueceste-te dos teus amigos? Esqueceste-te de tudo o que vivemos? É que eu não. Todos os dias relembro a mim próprio a fúria da natureza que tu és e todos os beijos, risos e conversas que tivemos os dois. Crescemos juntos e isso faz de nós uma rocha. Uma rocha que devido a tantos murros, tantas pancas, rachou.

Vi que arranjaste um namoradinho novo. Foste rápida a livrar-te de mim. Será que ele conhece os teus medos, será que ele te dá festinhas no nariz como eu costumava fazer enquanto dormias? Será que ao menos reparavas que o fazia? Será que ele sabe o quanto odeias postais, será que ele sabe que a tua cor favorita é o azul do céu? Será que ele te faz chá e canta para ti? Será que ele faz todas as coisas que eu costumava fazer para ti?

Eu ainda te amo. Provavelmente nunca deixarei de amar, mas é tão doloroso... tu nem sequer me perguntaste como me sentia. Se tu o tivesses feito, eu responder-te-ia. Ter-te-ia dito que me sinto partido por dentro, como se um planeta se tivesse despenhado do espaço e caído precisamente em cima do meu corpo. Sinto-me destroçado, mas sobretudo, sinto saudades tuas. Saudades do teu cheiro, do teu cabelo, da tua voz. Já nem sequer és a mesma Cloe; mudaste tudo. Mudaste o cheiro do teu perfume, cortaste o cabelo e deixaste de te rir. Porquê? Por minha causa? Não precisavas de te ter dado ao trabalho...

Talvez amanhã, ao acordar e ao perceber que não estou em casa, o meu coração amoleça finalmente. Talvez encontre uma razão lógica para ter vindo, mas acima de tudo, talvez consiga falar contigo. A verdade é que não paro de pensar quando o vou poder fazer, apesar de saber que agora não queres saber de mim. Tens aquele rapaz, não é? Talvez eu próprio deva arranjar uma rapariga para mim... pode ser que assim percebas de uma vez por todas que eu não sou um exclusivo teu. 

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora