28| Acabamos sempre por voltar

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Despertei para a vida quando reconheci de longe o carro do meu pai. Ele deu a volta à rotunda e enquanto virava para ficar do meu lado da estrada, respirei fundo e peguei nos meus sapatos, levantando-me do chão fresco que me havia acolhido durante os últimos minutos. Quando parou não perdi tempo a levar a minha mão ao puxador da porta, abrindo-a para entrar. Senti um alívio descomunal quando pude tocar com os meus pés descalços no tapete fofo e encostar a minha cabeça no apoio macio.

"Ele fez-te mal?", assustei-me quando ouvi a sua voz grave e autoritária, apercebendo-me de que aquele não era Luke, mas sim a pessoa que eu jamais esperava ver resgatar-me. Virei o meu rosto na sua direção, com os olhos muito arregalados, e prendi a respiração, sem saber o que dizer. "Ele fez-te mal, Cloe?"

"Nã... não.", gaguejei. "Ele não me fez nada, Michael."

Os seus olhos acinzentados, visivelmente cansados e analisadores, mantiveram-se fixos nos meus durante aquilo que me pareceu uma eternidade, até acabar por soltar um suspiro e virar-se para o volante. Entranhou os dedos no seu cabelo platinado e remexeu-o com fúria, como se o nervosismo fosse tanto que ele não soubesse como livrar-se dele.

"Onde é que está o Luke?", questionei, quebrando o silêncio pesado que se havia instalado. Michael não se mexia e eu só queria sair dali antes que Matty acordasse e desse pela minha falta. O sol começava a nascer e o céu a clarear, pelo que já não devia tardar muito para o choque de realidade a que ambos estávamos irremediavelmente expostos.

"O Luke não estava em condições de conduzir. Ninguém estava, na verdade.", respondeu, mantendo a voz baixa e incisiva.

"Tu estás?", arrisquei-me a perguntar, sabendo que seria melhor jogar pelo seguro e manter a conversa o mais reduzida possível.

"Não bebi, não fumei...", esclareceu, cantarolando. Sorriu ligeiramente e olhou através da janela, escondendo metade do rosto. "Ao contrário do que tu pensas, eu não virei um arruaceiro descontrolado."

"Eu não penso isso acerca de ti...", murmurei, tão baixo que mal me ouvi a mim própria. "Não esperava que fosses tu aqui... a vir buscar-me."

"Pois. Aparentemente nunca nada é garantido, por isso nunca esperes nada.", respirou fundo, ligando finalmente o motor. Colocou as mudanças e arrancou pela estrada fora, conduzindo a uma velocidade moderada. Por instantes, tive um dejá vú que me conduziu à manhã em que incendiei a minha casa e Michael me salvou, conduzindo exatamente desta forma. Lembro-me do sol a bater-lhe no rosto e dos seus olhos verdes vivos a sorrirem para mim, enquanto ele me tentava explicar que tudo havia de se resolver. Agora, os seus olhos estavam cinzentos e contidos, e nos seus lábios havia apenas uma linha reta sem expressão.

As minhas mãos irrequietas viajaram até ao fundo das minhas costas, enquanto observava a paisagem que ia desaparecendo à medida que o carro acelerava. Sentia-me suja, peganhenta, dorida, como se tivesse sido exposta demasiado tempo a uma tortura masoquista, e necessitava urgentemente de um banho. Precisava de me limpar e de enxaguar os vestígios que Matty deixara na minha pele, sobretudo agora que tinha Michael ao meu lado. O facto de ter sido ele a aparecer deixou-me bastante mais arrependida, com o remorso de o ter enganado desta forma. Claro que ambos éramos livres de fazer o que bem entendíamos, até porque entre nós já não existia qualquer tipo de relação, mas sentia-me mal com isto. Sentia-me como se o tivesse traído.

"Deves ter fome...", o rapaz murmurou, parando à frente de um sinal de stop. "Queres que eu te compre alguma coisa?", questionou, voltando a trazer à minha mente flashes daquela manhã solarenga em que ele fez exatamente o mesmo que está a fazer agora. Limitei-me a fitá-lo, refletindo acerca do que queria.

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora