23| Quanto mais me bates, mais gosto de ti

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2.ºMÊS

Apeteceu-me odiar-me por ser tão burra, mas depois lembrei-me que esse era um mal antigo e que já não havia grande coisa a resolver, portanto conformei-me. O meu corpo parecia ter sido submerso em água gelada, talvez nuns glaciares longínquos, e a minha cabeça latejava devido à falta de descanso, que ultimamente era uma das minhas menores prioridades. Acordei com um grunhido, levantando ligeiramente a cabeça para observar o meu quarto. De alguma forma tinha ido ali parar, só não sei exatamente como. Lembro-me da viagem até casa, lembro-me do olhar desiludido de Matty, lembro-me vagamente de me lembrar de Michael, mas depois é como se os meus fusíveis se tivessem quebrado, dando aso a um apagão do quadro geral que é o meu cérebro. Ergui-me com moleza, ouvindo um ruído estranho vindo de longe, e acabei por bocejar alto, cansada de todo o drama que tem sido a minha vida.

"PAI!?", gritei, utilizando aquela palavra de modo inconsciente. Arregalei os olhos ao aperceber-me do erro e logo depois desejei enforcar-me, sabendo que aquele era um efeito secundário da minha habituação a esta nova realidade. Provavelmente, se ele não tivesse continuando a ser uma figura tão constante na minha vida, eu jamais ousaria tratá-lo pelo nome que lhe convém. "Estúpida... RICHARD!?", reformulei, chegando à conclusão que era inútil gritar.

O ruído que me continuava a importunar cessou, dando-me uma deixa aceitável para me levantar finalmente da cama e averiguar o que estava a acontecer e porque é que o homem cujo espermatozoide culminou neste desastre ambulante, também conhecido como Cloe (ou seja, eu), não dava sinais de vida. Comecei a imaginar vários cenários possíveis, a maioria dos quais incluía mortes e extraterrestres. Contudo, rapidamente percebi que nenhuma dessas possibilidades era plausível, pois não existiam vestígios de sangue ou membros mutilados espalhados pelo corredor, nem nenhuma nave espacial estacionada no jardim. Havia somente um bilhete rasgado colado ao frigorífico com um íman em forma de maçã sorridente, que avisava existir bolo para o pequeno-almoço. Aquilo intrigou-me. Bolo? De onde é que o bolo apareceu? Quem fez e anos e não me avisou?, as perguntas acumularam na minha mente, enquanto eu me dirigia à mesa da cozinha e procurava o tão famoso pedaço de tentação.

"Mas que raio...", murmurei, esfregando a cabeça enquanto lia as palavras escritas a creme azul no bolo redondo pousado em cima da superfície de madeira. Era um bolo branco, de dimensões pequenas, e continha um aroma delicioso, pelo que percebi ser fresco. No entanto, a letras grandes e carregadas, tinha escrito «Desculpa».

Enquanto analisava o bolo, passando o dedo indicador sobre algum do creme para o provar, três batidas soaram pela divisão e rapidamente percebi que alguém batia à porta, algo estranho àquela hora da manhã. O ruído que outrora preenchia a casa voltou a fazer-se ouvir, e ao escutar com atenção percebi que eram instrumentos e que vinham da garagem, portanto o mais provável era que Richard e a sua banda, os Ex-Slaves, estivessem a ensaiar, algo estranho para um domingo de manhã. A porta voltou a estremecer.

"JÁ VAI!", gritei, tentando ganhar coragem para lidar com quem fosse que me estivesse a importunar. Peguei no bolo, levando-o na palma da mão, e dirigi-me à porta, abrindo-a devagar. Matty foi quem me apareceu à frente, parecendo mais bem-disposto do que na noite anterior.

"Eu só queria dizer que...", impedi-o de terminar o que ia dizer, espetando-lhe com o bolo na cara. O creme azul das letras misturou-se com a cobertura branca, que lhe ficou espalhada por todo o rosto quando o bolo caiu e a minha mão ficou suspensa no ar, como se durante uma milésima de segundo o tempo tivesse parado e nós fôssemos estátuas. Os seus olhos cobertos pelo creme abriram num ápice, deixando duas esferas castanhas piscarem na minha direção de forma confusa, e as suas mãos foram rápidas a limpar o rosto, que sem sucesso permaneceu coberto de branco. "ESTÁS DOIDA?", gritou.

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora