04| Rock'n'Roll

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Era suposto sair à rua e inalar ar puro. Também era suposto fazer uma vida normal e parar de me agarrar às memórias antigas. O que não era suposto era estar sentada numa cadeira de plástico, no meio da garagem, a assistir a um pseudo-ensaio de uma banda de quadragenários aspirantes a estrelas rock. Pelos vistos, ainda não tinham chegado todos, pois ainda faltava alguém para ocupar o lugar atrás da bateria e no baixo; e pelos vistos, Richard tocava guitarra e fazia coros, mas eu não tinha certeza se ele cantava assim tão bem, portanto decidi jogar pelo seguro e trazer duas bolas de algodão, não fosse necessário enfiá-las pelos ouvidos adentro. Havia um homem de rabo-de-cavalo parado à frente do microfone, que parecia tentar ajustá-lo à sua altura consideravelmente grande. O seu rosto coberto de barba rala contorcia-se numa careta de frustração sempre que o objeto metálico descia, indo parar até meio do seu peito. O que ele não sabia é que havia um encaixe que prendia o suporte, mas não queria ser eu dizer-lhe. Eles deviam ser suficientemente profissionais para saberem estas coisas.

Richard apareceu vindo de nenhures após alguns minutos, erguendo no ar uma guitarra imaculadamente brilhante e vermelha, com pormenores pretos. Era uma daquelas guitarras que se veem nos concertos à séria, e eu questionei-me onde teria ele ido buscar o dinheiro para comprar aquela relíquia. O homem do rabo-de-cavalo levantou a cabeça quando o viu, e, depois de um suspiro profundo, afastou-se do microfone e gesticulou na direção do palco, como se estivesse muito furioso por este se encontrar vazio. Chegava a ser ridículo ver aqueles dois homens adultos discutirem.

"Onde é que o Atticus e o Leonard se enfiaram!?"

"Devem estar a chegar.", Richard olhou para o relógio, franzindo o sobrolho. Ele parecia querer-se convencer daquilo, mas ambos sabiam que tudo estava perdido. Eu ri-me, observando-os à distância. "Tem calma. O que aconteceu da última vez não tem nada a ver com o atraso deles."

"Pois. Olha Richard, isto não está a resultar.", o outro suspirou. Ele esfregou as mãos às suas calças ridiculamente justas e saltou para fora do palco, enquanto o meu pai colocava a guitarra no seu suporte. "Há quanto tempo temos esta banda!?"

"Quinze anos.", o meu pai suspirou.

"E há quanto tempo andamos a tocar na tua garagem!?"

"Quinze anos..."

"Ora aí está uma boa estatística! Eles não vão aparecer, Richard.", o do rabo-de-cavalo cruzou os braços ao peito e caminhou até à entrada da garagem, parecendo decidido a ir-se embora. Vi os seus olhos ameaçadores incidirem em mim, e por momentos assustei-me com a possibilidade de ele me querer espancar ou assim por estar ali tão quieta e silenciosa a gozar com eles. Contudo, depois de voltar a suspirar, virou-se de novo e voltou a caminhar, desta vez até ao seu carro. Richard seguiu-o em silêncio, num passo apressado, e esticou-se para lhe tocar. O homem virou-se logo num ápice, parecendo realmente zangado.

"VEM AÍ UM CARRO!", anunciei eu, levantando-me da cadeira. Os dois olharam para mim como se eu estivesse a alucinar, no entanto, quando o veículo estacionou ao lado deles, ambos viraram a cabeça com expressões horrorizadas e sorriram. Eu, por sua vez, voltei a sentar-me, continuando satisfeita a assistir ao espetáculo gratuito que me proporcionavam.

Dois homens magrinhos e vestidos de preto saíram do carro. Um deles tinha o cabelo azul, espetado por todas as direções, e o outro parecia uma versão mais velha de Luke, com um piercing no lábio e olhos azuis cristalinos. Eles caminharam arrogantemente até aos seus colegas de banda, sem descolarem os olhos uns dos outros. Vista de longe, aquela parecia uma cena de filme, só que sem a música de fundo e os efeitos visuais.

"Richard. Trevor.", o sósia do Luke acenou. A sua voz era grave e assustadora, o que de certo modo combinava com o seu porte e com as suas vestimentas. O homem ao seu lado também lhes acenou, parecendo querer manter a sua postura dura, o que se tornava difícil, pois o seu cabelo azul espetado tinha um aspeto ridículo que só me dava vontade de rir.

Social Casualty II ಌ m.cOnde histórias criam vida. Descubra agora