Capítulo 6

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    A sra. Violeta Valência é nossa vizinha de porta. Violetas são roxas. Valência é um tipo de laranja, que é... bom, cor de laranja! Não se encontram muitas laranjas roxas por aí. Nem pessoas como ela. A sra. V. é uma mulher alta - tem quase 1,80 m e as maiores mãos que já vi. As mãos dela são gigantes! Aposto que dá pra colocar uma bola de basquete oficial em cada uma e ainda sobra espaço. Digamos que ela seja uma árvore. A minha mãe fica parecendo um graveto perto dela.

    Eu tinha mais ou menos dois anos quando comecei a ficar na casa da sra. V. No começo, o papai e a mamãe raramente me deixavam ficar com estranhos, mas às vezes os horários de trabalho deles se sobrepunham, e os dois precisavam de uma terceira pessoa para ajudar. Minha mãe disse que a sra. Valência foi a primeira visita que apareceu em casa quando eu nasci, a primeira que me pegou no colo como se eu fosse um bebê normal. Muitos amigos dos meus pais tinham medo até de encostar em mim, mas a sra. V. não!

    Ela usa uns vestidos enormes e esvoaçantes - deve ter quilômetros de tecido neles - nas mais loucas combinações de cores. Rosa chiclete com vermelho carro de bombeiros, cor de sorvete de pêssego com canela vivo. E todos os tons de roxo e laranja,
claro. A sra. V. me contou que ela mesma é quem faz os vestidos. Acho que não daria pra ser de outro jeito. Nunca vi nada parecido nas lojas do shopping. Nem num hospital.

    A minha mãe trabalhava com ela no hospital, as duas são enfermeiras. A mamãe me contou que as crianças de lá eram loucas pela sra. V. Que usava as mesmas roupas chamativas na ala neonatal, de crianças com câncer e na unidade de crianças queimadas.

    — As cores dão vida e esperança a essas crianças! — anunciava, com ousadia, desafiando qualquer um a discordar dela. Acho que ninguém fazia isso.

    Lembro da primeira vez que eu fiquei sentada no alpendre da sra. V. Meus pais pareciam preocupados, mas ela me segurava firme e me balançava nos joelhos. Devia ter um microfone escondido naqueles vestidos esvoaçantes: ela tinha uma voz que fazia qualquer um calar a boca, se virar e escutar o que ela estava dizendo.

    — É claro que eu cuido da Melody — disse ela, transmitindo segurança.

    — É que a Melody é... sabe... muito especial — falou o papai, hesitante.

    — Todas as crianças são especiais — retrucou a sra. V., cheia de autoridade. — Mas esta aqui tem superpoderes escondidos. Eu adoraria ajudar vocês a encontrá-los.

    — Isso vale tanto pra gente. Não temos como pagar à altura.

    A sra. V. encolheu os ombros e disse, sorrindo:

    — Aceito o que vocês puderem me dar.

    Meu pai ficou encabulado.

    — Tá bom, obrigado. Viu terminar de fazer aquela rampa este fim de semana. Só preciso ir mais uma vez à madeireira.

    — Isso sim ajudaria muito — falou ela, balançando a cabeça.

    — A Melody pode dar muito trabalho — avisou a mamãe.

    A sra. Valência me levantou no ar e respondeu:

    — Eu adoro trabalhar.

    — Queremos que ela desenvolva todo o seu potencial — completou o papai.

    — Ah, para com isso — disse ela, pra surpresa dele. — Não se afunde nessas palavras e expressões sentimentaloides que você lê nos livros sobre crianças com deficiência. A Melody é uma criança que tem capacidade de aprender, e ela vai aprender se ficar comigo.

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