Eu acertei a previsão do tempo pra hoje. Espero que os brotos das íris tenham cobertorzinhos de lã, porque a temperatura caiu abaixo de zero. A nossa sala de aula estava gelada quando a gente entrou, de manhã.
Como toda segunda-feira, os alto-falantes da sala comunicaram os anúncios de sempre: venda de bolos pra arrecadar fundos e treino de futebol. É difícil alguém da sala H-5 prestar atenção neles. Nem a sra. Shannon para pra escutar, porque a nossa manhã é uma loucura.
A sra. Shannon conseguiu descolar um videogame com o sensor de movimento pra gente — não sei como. O Willy ama o joguinho de beisebol. Já aprendi a não ficar por perto quando ele finge jogar a bola olhando pra tela. Às vezes as rebatidas dele são meio amplas.
— Acertei a bola! — grita ele, triunfante, correndo pela sala de aula, como se ela fosse um campo e ele tivesse que percorrer todas as bases. Nem o Freddy consegue acompanhar o ritmo dele.
Eu costumo ficar sentada no canto com os meus fones de ouvido, tentando me isolar do barulho.
Mas hoje escutei o boletim com toda atenção. Meu coração acelerou, e sacudi os braços de anima quando ouvi a diretora dizer:
— Todos os alunos que quiserem participar da se para a equipe que vai disputar o campeonato Gênios do Quiz devem comparecer à sala do sr. Dimming depois da aula.
Passei o dia inteiro nervosa. Não contei pra Rose o que eu pretendia fazer. Pensei em contar, mas resolvi não fazer isso. E se ela dissesse que era uma ideia ridícula? Acho que eu não ia aguentar.
Derramei sopa de tomate por toda a blusa na hora do almoço. A Catherine até tentou limpar, mas não tem como tirar aquela mancha vermelha de uma blusa branca. Fiquei me sentindo uma porcalhona. Eu devia ter pensado nisso de manhã. Podia ter pedido pra mamãe colocar mais uma muda de roupa na minha mochila. Ainda é difícil de lembrar que agora tenho como dizer esse tipo de coisa.
Não fui pra nenhuma das aulas inclusivas. Eu queria estudar até o último minuto. Mas, assim que o último sinal tocou, agarrei o braço da Catherine.
— Rápido! — digitei. — Pra sala do sr. D.
Apesar de eu estar na cadeira de rodas elétrica, colocamos no modo manual pra ela poder me empurrar. Tô nervosa demais pra dirigir.
Quando a gente chegou na sala do sr. Dimming, um pessoal da minha aula de História já tava lá, sussurrando e repassando as anotações. Eles fizeram cara de surpresa quando a Catherine empurrou minha cadeira pela porta.
— Oi, Melody — disse a Rose. — O que você tá fazendo aqui? — a voz dela não tinha aquele tom simpático de sempre.
— Equipe de quiz — digitei.
— Ela não pode fazer parte da equipe — ouvi a Claire sussurrar pra Jéssica, torcendo o nariz. — Ela é da sala dos retardados!
A Molly achou muito engraçado. Ela grunhe que nem um porco quando ri.
Decidi ignorar apesar de sentir a raiva crescendo dentro de mim. Preciso de foco. Um monte de alunos se apresenta na sala, do quinto e sexto do ano. Não conheço os do sexto muito bem: o intervalo deles é em outro horário. Será que eles são mais inteligentes? Afinal, tiveram mais tempo pra aprender.
Meia dúzia de alunos aponta pra mim e cochicha. O sr. Dimming entra, apressado, carregando uma pilha de papéis lacrados num plástico. Passa os olhos pela sala pra ver quem tinha comparecido e enruga a testa quando me vê. Mas coloca os papéis na mesa e nos cumprimenta.
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Fora De Mim
AcakImagine-se cercado por palavras, palavras que descrevem emoções, sensações e pensamentos. Palavras que precisam de sua voz para ganharem vida, para dar contornos ao mundo exterior. Agora imagine-se sem voz. Esta é a história de Melody, uma garota...
