Capítulo 8

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    Durante muito tempo, minha família era só eu, a mamãe, o papai e o Ollie, meu peixinho dourado. Eu tinha cinco anos quando ganhei, e fiquei com ele por quase dois anos, até ele morrer. Essa deve ser uma idade avançada para um peixinho dourado. Ninguém sabia que ele se chamava Ollie, só eu. Mas tudo bem. O papai ganhou o peixe de prêmio quando a gente foi numa quermesse. Acho que a vida do Ollie era bem pior do que a minha.

    Ele morava num aquário pequeno, daqueles redondos, que ficava em cima da mesa do meu quarto. Dentro, tinha umas pedrinhas cor-de-rosa e um tronco de mentira feito de plástico. Acho que era pra ficar parecendo o fundo do mar, mas não deve ter muitos lagos e oceanos de verdade com pedras dessa cor.

    O Ollie passava o dia inteiro dando voltas naquele aquariozinho. Atravessava o tronco de mentira e voltava a nadar em círculos. Nadava sempre na mesma direção. Só mudava de rumo quando a mamãe jogava uns grãos de comida pra peixe, de manhã e à noite. Eu ficava olhando ele engolir, depois fazer cocô e em seguida dar voltas e mais voltas. Eu sentia pena dele.

    Pelo menos eu podia sair de casa, ir ao mercado e na escola. O Ollie só podia ficar nadando em círculos o dia todo. Eu ficava me perguntando se os peixes dormem. Mas, quando eu acordava no meio da noite, não importa a hora, o Ollie tava ali nadando. A boquinha dele abria e fechava. Parecia que ele queria dizer alguma coisa.

    Um dia, quando eu tinha mais ou menos sete anos, o Ollie pulou do aquário. Eu tava escutando música no rádio - minha mãe finamente tinha percebido que eu gostava da estação de country - e de bom humor. O som da música era meio laranja, meio amarelo, e eu sentia um leve aroma de limão ao meu redor. Estava bem relaxada, só olhando o peixinho dar as voltas dele pelo aquário.

    Mas, de repente - não consigo nem imaginar o motivo -, o Ollie mergulhou até o fundo, deu um impulso pra cima e se jogou pra fora. Ele aterrisou na mesa e se debatia, tentando recuperar o fôlego. Tenho certeza que o peixe ficou surpreso quando percebeu que não conseguia respirar. Os olhos dele estavam salgados, e as guelras laterais pulsação com dificuldade.

    Eu não sabia o que fazer. Ele ia morrer sem água - muito rápido. Então gritei. A mamãe estava no andar de baixo, ou lá fora pegando a correspondência, e não veio logo. Gritei de novo. Mais alto. Berrei. Esperneei. O Ollie continuava se debatendo, sem fôlego e parecia ainda mais desesperado. Precisava de água.

    Urrei mais um vez, mas a minha mãe não veio ver o que era. Onde será que ela tava? Eu sabia que precisava fazer alguma coisa. Tentei alcançar a mesa esticando o braço. Mal deu pra encostar no aquário do Ollie. Pensei que, se eu conseguisse molhar o peixe, pelo menos um pouquinho, daria pra salvá-lo. Prendo os dedos na borda do aquário e puxei. Caiu água por todos os lados: pela mesa, pelo tapete, em mim e no Ollie. Acho que, por alguns segundos, ele se debateu um pouco menos.

    E eu continuei berrando. Finalmente, ouvi os passos pesados da minha mãe subindo a escada. Quando ela entrou pela porta, deu uma olhada naquela bagunça, no peixe que morria e gritou:

    — O que foi que você fez, Melody? Por que você derrubou o aquário? Você não sabe que os peixes não podem viver sem água?

    É claro que eu sabia disso. Não sou burro. Por que ela acha que eu tava berrando e chamando ela?

    A mamãe correu, fez uma colcha com a mão, pegou o Ollie e colocou o peixe de volta no aquário com todo cuidado. Depois foi até o banheiro, e eu ouvi o som da água correndo. Mas eu sabia que era tarde demais.

    Não sei se foi por ele ter ficado muito tempo fora do aquário ou porque a água do banheiro não estava na temperatura certa, mas o Ollie não sobreviveu.

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