O quinto ano, provavelmente, é complicado pra muitas crianças. Lição de casa. Não ter certeza se você é descolado o suficiente. Roupas. Pais. Querer brincar e ser adulto ao mesmo tempo. Odores nas axilas.
Acho que tenho todos esses problemas, mais um milhão de camadas de coisas que tenho que encarar. Fazer as pessoas entenderem o que eu quero. Me preocupar com a minha aparência. Me encaixar. Será que algum dia um menino vai gostar de mim? Talvez eu não seja tão diferente dos outros, no fim das contas.
Parece que alguém me deu um quebra-cabeças sem a caixa, e eu não sei como é a figura completa. Não sei como é que o negócio tem que ficar. Não sei nem se eu tenho todas as peças. Talvez essa não seja uma boa comparação, porque eu não ia conseguir montar um quebra-cabeça nem se eu quisesse. Apesar de normalmente saber a resposta para a maioria das perguntas que fazem na escola, ainda tenho que quebrar a cabeça pra entender muita coisa.
A Penny chegou do hospital com galos e machucados, de gesso e chapéu vermelho novo. O Peludo voltou pros braços dela. Tão mimando a minha irmã até dizer chega. Por mim, tudo bem. Até a Toffee tá tratando a Penny como se ela fosse um filhotinho machucado. Trouxe todos os brinquedos favoritos dela pro quarto da Penny, tipo querendo dar um presente.
Hoje, eu tô fazendo o trabalho de autobiografia da srta. Gordon. A sra. V plugou a Elvira no computador. Tá tocando música clássica, bem baixinho, no MP3 novo dela. Eu ouço um roxo suave.
Vai levar um tempo pra eu terminar o trabalho. Tenho tanta coisa dentro da minha cabeça. Tenho muita coisa pra dizer e só um dedão pra transformar isso em palavras.
Acho que vou começar bem do comecinho...
Palavras
Milhares de palavras me cercam. Talvez milhões.
Catedral. Maionese. Romã.
Mississipi. Napolitano. Hipopótamo.
Sedoso. Assustador. Iridescente
Cócegas. Espirro. Desejo. Preocupação.
As palavras sempre rodopiaram à minha volta como flocos de neve. Cada palavra é delicada e diferente, e todas se derretem, uma por uma, intocadas, nas minhas mãos.
No fundo, bem lá no fundo, as palavras vão se acumulando aos montes dentro de mim. Montanhas de expressões, frases e ideias conectadas. Tiradas. Piadas. Canções de amor.
Desde que eu era bem pequena — acho que com uns poucos meses de vida — encaro as palavras como presentes doces e líquidos, e eu as bebo como limonada. Dava quase para sentir o gosto. Elas dão substância aos meus pensamentos e sentimentos emaranhados. Meus pais sempre me cobriram de comunicação, como se isso fosse um cobertor. Tagarelavam e balbuciavam. Verbalizavam e vocalizavam. Meu pai cantava para mim. Minha mãe sussurrava sua força no meu ouvido.
Eu guardei cada palavra que meus pais me disseram ou falaram sobre mim. Eu as absorvi e memorizei. Todas, sem exceção.
Não faço ideia de como consegui desenroscar o complicado processo das palavras e do pensamento, mas isso aconteceu de forma rápida e natural. Quando eu tinha dois anos, todas as minhas memórias já tinham palavras, e todas as minhas palavras tinham significado.
Mas só dentro da minha cabeça.
Eu nunca disse uma palavra sequer. E tenho quase onze anos...
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Fora De Mim
OverigImagine-se cercado por palavras, palavras que descrevem emoções, sensações e pensamentos. Palavras que precisam de sua voz para ganharem vida, para dar contornos ao mundo exterior. Agora imagine-se sem voz. Esta é a história de Melody, uma garota...
