Capítulo 11

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Faz algumas semanas que o quinto ano começou, e umas coisas bem legais aconteceram. Bom, eu não ganhei um aparelhinho que faz balões em cima da minha cabeça iguais aos do Garfield, mas ganhei uma cadeira de rodas elétrica. E a escola começou a fazer um negócio chamado "aulas inclusivas". Achei engraçado. Nunca fui incluída em nada. Mas essas aulas são, supostamente, uma oportunidade para crianças como eu interagirem com o que todo mundo chama de alunos "normais". O que é normal? Dãr!

Comparar a minha cadeira nova com a antiga é como comparar um carrão esportivo com um skate. As rodas são tipo pneus de carro e fazem a cadeira deslizar facilmente. Parece que eu tô andando em cima de travesseiros. Não posso ir muito rápido, mas eu consigo passear sozinha pelo corredor só controlando uma alavanca que fica no apoio de braço. E se eu mudar para o modo manual, ainda posso ser empurrada, se for necessário.

Quando o Freddy me viu nela pela primeira vez, gritou:

- U-hu! - parecia que eu tinha vencido um campeonato de Fórmula Indy. - A Melly vai fazer zuum zuum agora! Quer correr?

Aí ele ficou dando voltas com a cadeira dele ao meu redor, todo animado.

Tenho certeza que ele ganharia de mim, mesmo nas velocidades subatômicas que as nossas cadeiras alcançam.

A minha cadeira elétrica é bem mais pesada do que a manual, e o papai e a mamãe quase não conseguem levantá-la.

- Quando você decidir trocar por um foguete, vai ter que contratar o Super-Homem para te colocar dentro do carro! - disse o papai, de brincadeira, na primeira vez que tentou levantar a cadeira. E ficou massageando as costas.

Eu só dei um sorriso. Mas sei que ele viu nos meus olhos que eu estava agradecida.

O papai acabou comprando um conjunto de rampas portáteis que dobram e cabem na nossa caminhonete. Assim dá pra pôr a minha cadeira no porta-malas sem acabar com as costas dele.

Pra mim, é uma questão de liberdade. Agora não preciso esperar alguém me empurrar pela sala. Eu simplesmente posso ir sozinha. Legal. Quando a escola decidiu começar a colocar a gente nas turmas normais, a cadeira elétrica foi muito útil.

Nossa professora do quinto ano da sala H-5 me lembra aquelas avós que a gente vê nas novelas. A sra. Shannon é rechonchuda e usa hidratante de lavanda todos os dias. Acho que deve ser do interior, porque ela tem um sotaque bem arrastado e usa umas expressões engraçadas. E isso, por algum motivo, torna tudo o que ela diz mais interessante.

No primeiro dia, ela falou:

- Vou fazer das tripas coração pra vocês conseguirem ir para o sexto ano, ouviram? Vamos ler, aprender e crescer. Acredito que todos vocês têm um potencial escondido aí dentro. A gente tem que pôr esse trem pra fora!

Gostei dela. A sra. Shannon trouxe pilhas de livros novos pra gente, mais um monte de jogos, músicas e vídeos. Ao contrário da sra. Billups, ela deve ter lido o histórico de todo mundo, porque ela tirou o pó dos fones de ouvido e até trouxe mais audiolivros pra mim.

- Estão prontos pra aula de Música? - perguntou ela uma manhã. - Vamos começar já esse trem de inclusão!

Eu me sacudi toda de tanta animação. Enquanto os cuidadores nos ajudavam a ir até a sala de Música, fiquei pensando se eu ia conseguir sentar ao lado de uma criança normal. E se eu fizesse alguma bobagem? E se o Willy começasse a cantar que nem um tirolês ou o Carl peidasse? Era bem provável que a Maria soltasse uma daquelas tiradas muito loucas. Será que esta ia ser a nossa única oportunidade? E se a gente estragasse tudo? Eu mal conseguia me controlar. A gente ia ficar numa sala de aula normal!

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