O ar estava espesso e úmido, como o silêncio que veio depois dos gritos, do choro e das sirenes. A chuva tinha diminuído e virado uma garoa.
Depois que o papai e a mamãe saíram com ambulância, a sra. V. me tirou do carro e me colocou na cadeira. E pôs o Peludo, todo sujo e ensopado, em cima da minha bandeja.
— Encontrei debaixo do carro — disse, com a voz trêmula.
Eu me encostei no bicho de pelúcia e caí no choro.
A sra. V. foi empurrando a minha cadeira pra dentro da casa dela e falou:
— A gente vai deixar o Peludo bem limpinho, pra ele ficar esperando a Penny voltar pra casa. Ouviu?
Não deu pra saber se ela estava falando isso pra me convencer ou pra convencer a si mesma.
Eu me sentia tonta e enjoada. Não conseguia parar de tremer.
Ela trocou minha roupa por um conjunto de moletom seco e quente, ligou o rádio numa estação de músicas calminhas e abaixou o volume. A única cor que eu ouvia era cinza.
A sra. Valência ficou de pé atrás de mim, esfregando meus ombros suavemente.
— Tá com fome?
Sacudi a cabeça.
Ela continuou fazendo massagem nas minhas costas e nos meus ombros até a gente sentir que a tensão estava diminuindo.
— Vou ali pegar o seu Medi-Talker e a cachorra. Quer mais alguma coisa?
Sacudi a cabeça de novo e continuei ia ouvir os esfumaçados tons de cinza.
Quando ela voltou, a Toffee parecia nervosa. Ficava andando pra lá e pra cá e cheirando tudo, como se estivesse procurando alguma coisa.
— Acho que ela tá procurando a Penny — disse a sra. V. — Os cachorros sabem dessas coisas.
Ela ligou a Elvira na minha cadeira e ligou, mas não tinha nada que eu ou ela pudéssemos dizer. Mas, enfim, ela falou:
— Não é culpa sua, sabia?
Eu sacudi a cabeça com toda a força. A sra. V. não devia dizer dizendo essas coisas só pra eu me sentir melhor.
— Tô falando sério, Melody. Não é culpa sua!
— É sim — respondi, usando o meu dispositivo.
Aumentei o volume no máximo.
A sra. Valência chegou mais perto, pra eu conseguir vê-la, e se abaixou até o rosto dela ficar a poucos centímetros de distância do meu.
— Você fez o que pôde pra avisar a sua mãe. Deveria estar orgulhosa.
— Orgulhosa, não. Não consegui — digitei.
— Às vezes acontecem coisas que fogem do nosso controle, Melody. Você fez tudo certo.
Aí a culpa começou a fervilhar dentro de mim.
— Eu tava com raiva da Penny — digitei, mais devagar do que de costume.
— A Penny sabe que você a ama.
Lágrimas escorreram pelas minhas bochechas.
— Fiz a mamãe me levar pra escola.
— E daí? O fato de você ter insistido em ir pra aula, apesar de tudo o que te aconteceu ontem, mostra que você é uma pessoa forte, uma pessoa melhor do que muitas outras que andam por aí. Fico muito orgulhosa.
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Fora De Mim
AcakImagine-se cercado por palavras, palavras que descrevem emoções, sensações e pensamentos. Palavras que precisam de sua voz para ganharem vida, para dar contornos ao mundo exterior. Agora imagine-se sem voz. Esta é a história de Melody, uma garota...
