Capítulo 31

9 0 0
                                        

    O ar estava espesso e úmido, como o silêncio que veio depois dos gritos, do choro e das sirenes. A chuva tinha diminuído e virado uma garoa.

    Depois que o papai e a mamãe saíram com ambulância, a sra. V. me tirou do carro e me colocou na cadeira. E pôs o Peludo, todo sujo e ensopado, em cima da minha bandeja.

    — Encontrei debaixo do carro — disse, com a voz trêmula.

    Eu me encostei no bicho de pelúcia e caí no choro.

    A sra. V. foi empurrando a minha cadeira pra dentro da casa dela e falou:

    — A gente vai deixar o Peludo bem limpinho, pra ele ficar esperando a Penny voltar pra casa. Ouviu?

    Não deu pra saber se ela estava falando isso pra me convencer ou pra convencer a si mesma.

    Eu me sentia tonta e enjoada. Não conseguia parar de tremer.

    Ela trocou minha roupa por um conjunto de moletom seco e quente, ligou o rádio numa estação de músicas calminhas e abaixou o volume. A única cor que eu ouvia era cinza.

    A sra. Valência ficou de pé atrás de mim, esfregando meus ombros suavemente.

    — Tá com fome?

    Sacudi a cabeça.

    Ela continuou fazendo massagem nas minhas costas e nos meus ombros até a gente sentir que a tensão estava diminuindo.

    — Vou ali pegar o seu Medi-Talker e a cachorra. Quer mais alguma coisa?

    Sacudi a cabeça de novo e continuei ia ouvir os esfumaçados tons de cinza.

    Quando ela voltou, a Toffee parecia nervosa. Ficava andando pra lá e pra cá e cheirando tudo, como se estivesse procurando alguma coisa.

    — Acho que ela tá procurando a Penny — disse a sra. V. — Os cachorros sabem dessas coisas.

    Ela ligou a Elvira na minha cadeira e ligou, mas não tinha nada que eu ou ela pudéssemos dizer. Mas, enfim, ela falou:

    — Não é culpa sua, sabia?

    Eu sacudi a cabeça com toda a força. A sra. V. não devia dizer dizendo essas coisas só pra eu me sentir melhor.

     — Tô falando sério, Melody. Não é culpa sua!

    — É sim — respondi, usando o meu dispositivo.

    Aumentei o volume no máximo.

    A sra. Valência chegou mais perto, pra eu conseguir vê-la, e se abaixou até o rosto dela ficar a poucos centímetros de distância do meu.

    — Você fez o que pôde pra avisar a sua mãe. Deveria estar orgulhosa.

    — Orgulhosa, não. Não consegui — digitei.

    — Às vezes acontecem coisas que fogem do nosso controle, Melody. Você fez tudo certo.

    Aí a culpa começou a fervilhar dentro de mim.

    — Eu tava com raiva da Penny — digitei, mais devagar do que de costume.

    — A Penny sabe que você a ama.

    Lágrimas escorreram pelas minhas bochechas.

    — Fiz a mamãe me levar pra escola.

    — E daí? O fato de você ter insistido em ir pra aula, apesar de tudo o que te aconteceu ontem, mostra que você é uma pessoa forte, uma pessoa melhor do que muitas outras que andam por aí. Fico muito orgulhosa.

Fora De Mim Onde histórias criam vida. Descubra agora