Capítulo 32

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- Eu já deveria ter antecipado isso quando te aceitei no time.

Foram as palavras que ouvi saírem da boca do treinador quando fui consultá-lo sobre como poderíamos fundar um time feminino. Se eu dissesse que estava surpresa, seria mentira, mas a decepção foi maior do que eu imaginei que sentiria.

- O quê? - eu continuei andando ao seu lado pelo corredor, enquanto ele apertava o passo, claramente tentando encerrar aquela conversa - Me desculpa, sr. Marvin, mas foi você quem me implorou para entrar no time. Eu não estou fazendo isso por capricho, só acho que seria substancialmente mais justo e saudável se as garotas tivessem a chance de jogar basquete umas com as outras.

- Escuta, Maya, eu nunca escondi minhas intenções quando te tornei titular. Os campeonatos andam pacatos, faltava novidade. Claro que você é talentosa e joga melhor do que a maior parte daqueles cuecas meladas, mas fundar um time feminino sequer já foi uma questão nessa escola.

- Ter uma garota no time também não - eu segurei seu ombro - Sr. Marvin, eu nunca me iludi com as suas intenções, sei que foi uma forma de atrair patrocínio. Mas o basquete só é masculino porque as pessoas deixam ser. Acredito de verdade que as meninas que me param nos corredores e que me mandam mensagens sobre os jogos adorariam ser parte disso.

Ele colocou a prancheta sob o braço e me encarou com desdém. Isso me impressionou.

- Você está dizendo isso porque ficou assustada com o que os garotos dos outros times fizeram. Olha, Maya, essas coisas fazem parte do esporte. Se você não aguenta provocação, como quer fundar um time?

- Sr. Marvin, aquele cara teria quebrado a minha perna. Você não pode me culpar por ficar assustada.

- Mas nós conseguimos reverter a situação em uma vantagem para o time. Sem contar que o garoto já não vai mais ser um problema, foi expulso do time dele - eu abri a boca para contestar, mas ele continuou - Novamente, gostaria de ser bastante honesto com você, não acho que daria certo. Claro, não vou te impedir de tentar, fale com o diretor, mas espere a temporada acabar. Quando você tenta abraçar o mundo, para de enxergar o chão.

Assisti ele ir embora e controlei a vontade de chutar uma parede ou esmurrar um armário. Como ele podia me diminuir daquela forma, me olhando nos olhos?

Naquele mesmo dia, aluguei os ouvidos de Laís pelo resto da tarde. Chamei ela para a minha casa e nós conversamos sobre tudo, claro que depois de um tempo eu contei a ela sobre o que eu tinha em mente e como o treinador Marvin era um ridículo.

Tive vontade de contar a ela sobre a minha mãe, sobre o email que eu havia mandado e que ela não tinha respondido depois de duas semanas. Mas, de certa forma, eu não precisava que todo mundo soubesse que eu fui atrás da humilhação, não satisfeita com a rejeição.

Sabia o que ela iria dizer, sabia que teria pena de mim e não era o que eu precisava. No momento, eu estava revoltada e precisava de alguma cumplicidade. Uma cumplicidade específica. Josh.

Não tive coragem de ir até ele. Não quando o clima estava tenso entre nós, não quando eu tinha vontade de beijá-lo toda vez que o via. Não quando eu sabia que isso seria injusto com ele.

Depois que Laís foi embora, fiquei sozinha com meus pensamentos. Eu ainda estava irritada com as palavras do técnico, mas tinha um torneio para ganhar. Nossos time precisava ganhar agora, ou eu jamais teria a chance de seguir com a ideia do time feminino.

Resolvi treinar arremessos no quintal de casa. Fiquei ali até o sol se pôr e meu pai chegar do serviço e me implorar para ficar pronta para o jantar rápido, pois estava com fome. Só então eu percebi que também estava com fome  e exausta e precisando de um banho.

Foi o que fiz primeiro.

Saí do chuveiro com um pouco dos ânimos ajustados, a água quente sempre conseguia me colocar no lugar. Tivemos um jantar agradável em família depois disso e, com a barriga cheia, adormeci facilmente.

O torneio regional estava na reta final e estavamos entre os finalistas. Josh andava no nosso pé em relação ao compromisso com os treinos desde as quartas de final o treinador queria que aprimorassemos uma jogada ensaiada que era uma boa carta na manga.

Apesar que claramente haver alguma animosidade velada no tom de voz do treinador quando ele se dirigia a mim, eu havia decidido que faria como combinamos. Eu tinha dado aninha palavra, afinal, então estava me dedicando muito nos jogos e evitava ao máximo criar caso com os caras do time.

Andrew, por incrível que pareça, tentava se aproximar de mim novamente. Dessa vez, eu quase conseguia achar nossas interações naturais, apesar de perceber que Josh sempre ficava em alerta quando o outro garoto estava por perto.

Daquela forma eu levava os meus dias, numa espécie de contagem regressiva que pairava no ar.

Claro que eu tinha os plano de fundar o time feminino, mas eu sentia que, de alguma forma, quando o árbitro apitava o final da partida daquela final, seria o fim de um ciclo em mais sentidos do que minha mente conseguia processar, eu apenas tinha aquela sensação pesando no meu estômago.

Tive um vislumbre do que poderia ser bem no dia do jogo.

Eu estava no meu vestiário, me preparando para entrar em quadra. Verificava pela milésima vez se meu rabo de cavalo estava bem preso quando meu celular apitou sobre a penteadeira.

A notificação na tela de bloqueio me deixou paralisada por alguns segundos e eu precisei me sentar enquanto desbloqueava o celular. Assisti a tela atualizar e o email de minha mãe se abrir.

“Fico feliz, ao mesmo tempo que lamento, que você se importe comigo o bastante para me enviar um email depois de todos esses anos.

Não acho que você entenderia meus motivos, mas eu não tenho intenção de voltar para os Estados Unidos — também não quero que você ou Maximus me procurem.

Estou bem e feliz, me desculpe.”

Meu estômago embrulhou e minha visão ficou turva, corri até o banheiro mais próximo e despejei no vaso meu jantar, sentindo a minha cabeça latejar.

Eu não tinha tempo para aquilo, não deveria ter lido o email.

Dona da Bola [Revisado]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora