Capítulo 31

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Quando enviei o email para a minha mãe, não fazia ideia do quanto aquilo iria me devastar.

Escrevi a ela algo simples, apesar de a minha vontade ter sido vomitar todos os sentimentos terríveis que a falta dela criou em mim. Para a minha sorte, minha rotina estava corrida demais para que eu tivesse tempo de ficar obcecada com a resposta que ela daria ou não ao meu email. Apenas não contei a ninguém que havia enviado, não precisa de nenhuma expectativa além das minhas.

Já estávamos no final do ano letivo e da temporada de jogos. Desde que eu havia voltado a falar com Josh, me sentia bem mais confortável em quadra, não tendo que evitar os passes que me obrigariam interagir com ele. Porém, minha felicidade durou pouco, já que com o avanço do nosso time no campeonato, percebi que eu não era tão bem vinda para as demais equipes.

Tivemos um dos jogos amistosos intermunicipais suspenso porque um garoto quase quebrou a minha perna numa falta claramente proposital, o que fez os rapazes do meu time iniciarem uma briga que só não chegou não finalmentes porque e mesma armei o maior barraco para cima do garoto que me agrediu.

Desde que eu havia entrado para o time da Marshall, sempre sofri com a hostilidade dos adversários, principalmente nas redes sociais, mas, agora que a violência estava ficando física, eu me perguntava se aquilo era mesmo para mim.

- Você não precisa se preocupar com isso. Fizemos o treinador se certificar de que aquele cara fosse suspenso do time. E a arbitragem vai levar isso em consideração para os próximos jogos, você não pode passar esse tipo de coisa nunca mais.

Josh estava fazendo o seu monólogo no meu vestiário, enquanto eu pintava as minhas unhas.

- E outra, não existe nenhuma especificação nos campeonatos e torneios de que os times não possam ser mistos, então não podemos sofrer penalizações ou ataques só por ter uma jogadora conosco - acenei com a cabeça, mas eu estava mais entretida pela indignação dele do que por suas palavras.

- Bem, eu já mostrei que não tomo falta calada. Espero que o nariz quebrado do Justin Prist seja uma lembrança contundente.

Ele riu.

- Com certeza - se sentou ao meu lado e me assistiu tirar o borrado do esmalte - Suas mãos são tão bonitas que ninguém imaginaria a potência de um soco seu.

Senti minhas orelhas queimarem. Eu não me incomodava com o flerte de Josh, ainda mais quando ele fazia sem perceber, mas desde a nossa briga, já não era algo que fluía - pelo menos da minha parte; me sentia travada, não sabia até que pondo dar corda ou se eu deveria, já que tinha dado um fora nele.

- Você acha que eu deveria continuar no time? - perguntei e ele me olhou como se eu o houvesse insultado.

- Maya... - ele tocou meu braço, um gesto tão casual, mas que bagunçou meu coração - É sério, não deixe esses idiotas entrarem na sua mente. Você é a melhor atacante do nosso time, de longe, se esforça demais e fez por merecer o seu lugar.

- Eu sei disso tudo - retruquei sentindo meu rosto queimar - Não é que eu me sinta incapaz, mas... Às vezes fico pensando que eu estou indo pelo caminho errado.

- Como assim? - Josh se encolheu um pouco, claramente relutante ao rumo daquela conversa.

- Você não acha bizarro que eu tenha que fazer parte do time masculino? - a expressão dele suavizou quando percebeu onde eu queria chegar - Nossa escola tem uma história gloriosa com o basquete. Muitos jogadores profissionais e reconhecidos passaram por aqui, têm carreira até hoje e, mesmo assim... Não temos um time de basquete feminino.

Larguei as coisas de fazer unha no chão, ao lado do puff que dividíamos e me virei agora Josh.

- É isso o que você quer? - ele se virou para mim também, só então percebi o quão próximos estávamos.

- Não é possível que eu seja a única garota interessada em basquete nessa escola. Em todos os jogos, as arquibancadas estão lotadas de meninas que gostam do esporte, é provável que muitas delas queiram jogar num time escolar ou até profissionalmente. Talvez essa possibilidade nunca tenha passado pela cabeça delas, já que a existência de um único time masculino seja uma clara evidência do que é normativo.

- É, pensando bem, você deveria mesmo usar a sua relevância para isso.

- Eu nunca contei isso a ninguém, mas, desde pequena, eu sempre quis ser treinadora - o rosto de Josh se iluminou - Tipo, treinadora profissional, da NBA ou mesmo escolar.

Ele abriu um sorriso.

- Não é para rir! Sei que é uma sonho infantil, mas...

- O quê? Eu não estou rindo, acho isso incrível. Eu sei que você gosta de basquete, mas não sabia que tinha aspirações desse tipo - ele tocou meu braço, afagou minha pele suavemente - Não é infantil, Maya. Se quer saber a verdade, acho que combina com você.

- Ah, dá um tempo! - eu ri de nervoso, e ele segurou o meu rosto.

- Você seria uma treinadora fantástica. Consigo até te imaginar ameaçando os jogadores estrelinhas da NBA com uma prancheta - gargalhei - Acho que deve levar isso a sério, e comece pelo começo... Você não está errada, a Marshall precisa de um time de basquete feminino urgentemente, e só você poderia fazer isso acontecer.

Abracei Josh.

Era verdade que ninguém mais sabia desse meu sonho porque sempre tive vergonha dele e sempre achei que seria desestimulada. Depois de toda a frustração que eu estava vivendo, era tão bom encontrar acolhimento naqueles braços que eram um lar para mim.

- Eu não disse da boca pra fora - ele sussurrou em meu ouvido e arrepiei - Confio cegamente na sua competência e acho que você não deveria privar o mundo de saber o que você é capaz de fazer.

Me afastei para encarar seus olhos. Ele pareceu surpreso com a pouca distância entre nós, mas suas pupilas dilataram e, se eu pudesse chutar, diria que as minhas também.

Josh tocou o meu rosto com as pontas dos dedos, seu olhar azul colorindo minha pele de vermelho. Senti um frio na barriga, como se fosse a primeira vez que ficávamos tão próximos, meus pulmões desorientados me fizeram respirar fundo demais e aquilo foi o bastante para fazer Josh hesitar.

Ele recolheu sua mão e se sentou no puff, murmurando um pedido de desculpas que eu achei desnecessário, mas não tive palavras para amenizar a tensão.

Levantei do puff num impulso só. Josh levantou logo após, caminhou até a porta e olhou para mim como se tivesse algo a dizer, mas apenas acenou com a cabeça e saiu.

Suspirei e reli o email que enviei para minha mãe:

"Meu pai disse que você está viva. Não vou te pedir para voltar, só gostaria de saber se teve um bom motivo para ir embora.

Sua filha, Maya (17 anos, caso não saiba)"

Me perguntei se eu responderia aquele email se fosse ela. Mas se eu fosse ela, nunca faria um filho meu ter que escrever algo assim.

Dona da Bola [Revisado]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora