Capítulo 38

307 27 70
                                        

Acordei com a luz do sol permeando as cortinas. Há tempos a minha janela não ficava aberta e eu sabia que aquilo devia ser obra de Carmen. Me levantei para fecha-la e vi Josh dormindo, o observei em seu estado mais sereno; seu peito subia e descia calmamente.

Meu celular apitou em cima do criado mudo e eu o peguei e chequei as mensagens. Havia uma de Carmen, dizendo que ela iria ao cinema com umas amigas do trabalho.

Eu já sabia daquilo, ela não queria ir para poder ficar comigo, mas eu insisti e disse que me sentiria horrível se ela deixasse de viver a própria vida por mim. Então a mulher marcou com suas amigas de terem um dia de spa e depois assistir alguma comédia romântica.

Esbocei um sorrisinho ao ver que ela realmente havia ido, isso significava que eu estava sozinha.

Eu não via isso como um problema, então tomei um banho, comi alguma coisa e aproveitei que o sol havia enfim aparecido para me sentar no gramado de minha casa e ler algum livro.

Passei um bom tempo ali, tranquila, observando todos que passavam correndo ou passeando com seus cachorros. Depois de um tempo mergulhei no livro que eu havia levado e deixei a história me roubar de meus pensamentos, mas não durou muito. Um trovão repentino me trouxe para a realidade novamente e só então percebi que a chuva, na verdade, já havia me encharcada dos pés a cabeça e eu não havia passado da segunda página do livro.

Essa percepção me paralisou. Quis levantar dali e me abrir da chuva, mas minhas pernas permaneceram cruzadas contra a grama empapada e eu quis gritar de raiva e desespero mas minha voz era apenas um zumbido no fundo da minha mente.

E, assim como a chuva despencava, meus pensamentos me afogavam cruelmente, enquanto meu corpo catatônico tremia - de frio, de medo e por causa do meu choro desesperado.

Tentei controlar ao menos a minha respiração. Com muita concentração consegui largar o livro ensopado e reuni toda a força que eu tinha para me levantar sobre os joelhos, embora doesse como se eu estivesse com todos os ossos do corpo quebrados.

Então, ouvi meu nome ser chamado e foi como acordar de um pesadelo.

Josh.

Ele me chamou novamente e, quando percebeu que eu não sairia dali, correu até mim e abaixou ao meu lado.

- Você consegue se levantar? - tive forças apenas para negar e ele passou meu braço por cima dos ombros e me ergueu, vacilando um pouco. Também deveria estar morrendo de frio.

Josh me carregou até sua casa e me ajudou a subir as escadas até o seu quarto. Tinha uma expressão séria, que tinha a intenção de me passar segurança, mas o azul de seus olhos tremiam de preocupação.

Me senti um lixo.

- Você precisa de um banho quente - ele prescreveu, enquanto tirava do armário uma troca de roupas para mim. Abri a boca para retrucar, mas ele colocou as roupas e uma tolha em minhas mãos e deu as costas, dizendo que iria até a cozinha para preparar um chá.

Me dirigi ao banheiro com o kit anti-hipotermia de Josh e, assim que fechei a porta, desabei em um choro raivoso enquanto encarava a mim mesma no espelho. Eu me sentia tão incoveniente, inútil e asquerosa que me daria uma surra se pudesse.

Talvez eu fosse a pior versão que já fui. Estava tão despedaçada que não reconhecia minha própria imagem no espelho, ou, pelo menos, não aceitava que aquela garota tão moribunda fosse eu.

Naquele momento, lembrei da minha terapeuta dizendo que um dia minhas feridas seriam cicatrizes de guerra e soltei uma risada pelo nariz em meio as lágrimas. Então me senti uma covarde por ter tanta raiva de alguém tão machucado quanto eu.

Dona da Bola [Revisado]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora