Capítulo 4

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Minha primeira semana de aula na Marshall havia se encerrado e com um saldo melhor do que eu esperava. As amizades que eu havia feito e reencontrado naqueles cinco dias estavam tornando meu retorno à Atlanta uma boa experiência.

Na sexta-feira à noite fui dormir na casa de Laís e passamos a madrugada inteira maratonando comédias dos anos 2000 e confidenciando inseguranças.

Ela me contou sobre Jeremy e como sentia que ele era o primeiro cara com quem ela poderia construir um futuro. Eles já estavam saindo há alguns meses e um pedido de namoro era quase certo, mas ela ainda tinha receio de estar sendo enrolada. Garanti a ela que se Jeremy partisse seu coração, seria a última coisa que faria na vida.

Depois disso, Laís me cutucou até eu contar a ela sobre o eminente casamento de meu pai com Carmen e como aquilo me trazia sentimentos mistos. O relacionamento deles já tinha uns bons oito anos e meu pai não era a pessoa mais carinhosa do mundo, mas Carmen nos tratava com tanto amor e sempre estava tão feliz ao lado dele que eu só podia assumir que ela possuía a exclusividade do bom humor e atenção dele.

Eu não sabia dizer quanto ao Max, mas aquilo me deixava tão aliviada quanto enciumada.

- Não consigo dizer com certeza em que ponto Carmen entrou em nossas vidas, mas lembro que antes dela, éramos eu, Max e meu pai - contei - A gente não tinha muitos programas em família e meu pai fazia questão de encher nossas rotinas de atividades para que não tivéssemos tempo de sentir falta dele ou da nossa mãe.

- Ah, eu me lembro. Eu vivia te chamando para vir pra cá depois de escola, mas você tinha aula de taekwondo, curso de não sei o que, sessão de não sei que lá.

Eu ri.

- Meu pai se empenhou muito para que minhas amizades não vingassem. Sinceramente, não sei como a gente manteve contato por tanto tempo.

- Acho que minha mãe obrigou ele. Você lembra como ela sempre conseguia fazer ele deixar você ficar mais tempo?

- É mesmo! Poxa, sua mãe é uma das poucas pessoas que já conseguiram dobrar meu pai.

Me esparramei na cama de Laís e ela fez o mesmo.

- Mas e a Carmen? Ela não manda no seu pai? - Laís me perguntou e eu concordei - Seu pai sempre foi tão sério e a Carmen é um raio de sol em forma de gente. Como isso funciona? Você acha que eles se amam?

- Acho que sim... - virei para ela - Carmen é bem mais acessível que o meu pai, mas eles dois são muito ocupados com suas carreiras. Não acho que perderiam tempo com um relacionamento se não fosse por amor. Além do mais, Carmen é uma mulher bonita e instruída, ela, com certeza, conseguiria coisa melhor se quisesse... Se está com ele, é porque escolhe estar. Ela é ótima...

- Quero ser igual a Carmen quando eu crescer - Laís disse - Uma carreira consolidada, um noivo que largou tudo para casar com ela na cidade em que eles se conheceram... Tá vendo amiga, seu pai até que é românico.

Ela olhou para mim e acho que minha expressão não era das melhores, porque suas sobrancelhas franziram em preocupação.

- O que eu disse?

- Nada demais. Você tem razão... deve ser legal ter a vida dela - talvez houvesse um tiquinho de deboche na minha voz. 

O olhar de Laís me disse que ela não deixaria aquilo passar.

- É que... sei lá, todo mundo parece ter um plano claro do que quer para o futuro, menos eu. Você vai ser a psicóloga organizacional mais requisitada de Atlanta, Sarah vai ser veterinária, Max vai ser desenvolvedor de jogos, Carmen é editora chefe de uma das maiores revistas de ciência do país... - me senti tão sufocada e aliviada ao mesmo tempo de colocar aquilo para fora - Sabe, toda vez que meu pai dizia que a gente iria se mudar, eu ficava pensando que não via a hora de ser adulta, para não ter que ir a lugar algum. Para fazer o que eu quisesse. Agora que a vida adulta está tão próxima, já não sei mais o que eu quero...

Dona da Bola [Revisado]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora