CAPÍTULO III

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Orgulho e humildade

Naquela tardem elas estavam ocupadas na ornamentação do maravilhoso leito
que haviam idealizado. Sobre uma escada redonda de mármore rosa, colocaram
uma cama de jade, simétrica e lisa, como uma mesa de pernas curtas,
ligeiramente côncava no centro. Sobre ela descansava um macio colchão de
penas de ganso, que agora estavam cobrindo de púrpura. Haviam encomendado
no mercado os alvos lençóis de puro linho e outras miudezas. Estavam tão
entretidas que não ouviram o ruído de passos, abafados pelos grossos tapetes.
– Vê, Solimar, que tecido maravilhoso!
Os olhos de Nalim brilhavam como pérolas ardentes, de volúpia e ambição. Não
podendo resistir à tentação, enrolou o tecido que era uma preciosidade importada
do Oriente, em seu corpo de linhas perfeitas e provocantes.
– Mesmo em minha terra, jamais possuí um igual!
Estava realmente bela!
De repente, reparou que Solimar, surpresa, olhava para a porta. Voltandose,
Nalim estremeceu ao reconhecer a figura de seu senhor. Como se dominava
com certa rapidez, permaneceu imóvel a contemplá-lo. Sua atitude era
respeitosa, mas em seus olhos havia o mesmo brilho insolente.
Tal atitude espicaçou-o. Dirigindo-se a ela, com certo desdém na voz, disse:
– Estas fazendas finas não te assentam bem. Aliás, nem poderia ser de outra
forma, porque elas foram tecidas para as senhoras e não para as escravas.
Compenetra-te desta verdade e procura não cobiçar o que não foi feito para ti.
Nalim sentiu a garganta ressequida e as mãos gélidas. Aquilo era demais. Suas
narinas arfavam nervosamente falando da perturbação de seus nervos. Suas
palavras doeram mais do que um castigo físico, porque atingiram o que ela
possuía de maior: a vaidade.
Ele, calmamente, sem parecer notar nada, deu alguns passos negligentemente
pelo aposento, observando as alterações sofridas.
– Senhor, – objetou serenamente Solimar – infelizmente nós, mulheres, somos
muitas vezes dominadas pelos adereços que nos tornam mais belas. Desculpai o
nosso entusiasmo. Como escravas, temos a possibilidade de vestir nossas almas com uma roupagem mais linda, que nem o tempo, nem ninguém poderá nos
arrebatar. Creio mesmo, senhor, que algumas das senhoras que usam com prazer
um vestido como este, um dia sentirão também a necessidade de vestir a própria
alma de escrava dentro da vida para servirem às exigências de sua consciência!
Pecos olhou surpreendido. Nalim, com sua beleza e arrogância, tinha o dom de
irritá-lo e fasciná-lo ao mesmo tempo, mas Solimar era como um bálsamo para
seus olhos. O imprevisto da resposta desarmou-o. Aproximando-se dela, disse:
– Talvez tenhas razão, mas precisamos reconhecer que nem todas são escravas
humildes e dedicadas. A maioria ainda alimenta grandes pretensões conservando
ilusões do passado. Mas, falando sobre o que aqui me trouxe, onde está Cortiah?
– Saiu, senhor. Foi aviar algumas encomendas para o andamento do serviço. Ela
quis ir pessoalmente, para melhor efetuá-las – respondeu Solimar serenamente.
– Bem, então ouve tu: precisamos terminar tudo no máximo dentro de dez dias.
Se preciso, requisite mais escravas, contanto que terminem dentro deste prazo.
Isto parece-me muito bom. Espero que façam tudo para bem servir à minha
prima, como se fora a dona e senhora desta casa.
Nalim conservara-se muda, mas seus olhos negros ocultavam ameaças. Aquele
homem que tudo lhe roubara covardemente, ainda julgava-se no direito de
escarnecer a sua beleza e fidalguia! Nem sequer parecia olhá-la como mulher.
Havia guardado a peça de tecido e simulava continuar o trabalho interrompido,
porém, não tinha a consciência do que suas mãos teciam. Apenas seu
pensamento trabalhava à sombra de sua vaidade ferida de mulher. Depois de
lançar mais alguns olhares sobre o aposento, Pecos retirou-se sem dizer palavra.
As duas mulheres entreolharam-se. Nalim, sem poder conter-se por mais tempo,
arremessando longe de si a peça que simulava coser, acercou-se da amiga,
dizendo:
– Vês tu que tenho razões de sobra para odiá-lo! Parece que implica comigo
sentindo enorme prazer em torturar-me. Ele conheceu minha casa, meus
escravos, minha linhagem, sabe que mereço respeito e consideração. Ainda não
satisfeito em haver-me reduzido e transformado no que sou hoje, possui requintes
de perversidade, me diminuindo dessa forma. Eu não tolero mais este estado de
coisas! Preciso arranjar um jeito de avisar os meus. Com certeza não me
deixarão permanecer aqui por mais tempo. Tudo farão para libertar-me. Nalim
calou-se angustiada. Suas mãos nervosas estavam banhadas de suor. A fronte
queimava pela afronta recebida.

Solimar, achegando-se mais à amiga, abraçou-a, dizendo-lhe docemente:
– Acalma-te, Nalim. Não teças loucos projetos para o futuro. Estamos em terra
estranha e seria difícil por agora conseguirmos alguém de confiança para nos
prestar tal serviço. Esperemos, pois, com calma, porque se alguém descobrir tuas
intenções, certamente perderemos até a pouca liberdade e condescendência que
desfrutamos. A ofensa que recebeste foi do tamanho do teu orgulho. Se fosses
menos vaidosa, o que chamas de insulto não te atingiria. Sempre estamos
inclinadas a julgar muito grande a ofensa que sofremos, mas nunca nos
perguntamos por que atraímos isso para nós. Se não procurares te resignar à
nova situação, teu sofrimento será muito maior.
– Não sei como podes falar assim, não te compreendo! Pareces destituída de
carne e sangue como eu. Aceitas a situação com tal passividade que eu não posso
admitir. Dize: se nos surgisse uma oportunidade para fugir, irias comigo?
– Não sei, dependeria das circunstâncias, mas não creio que conseguíssemos ir
para muito longe sem que nos encontrassem. Depois, como atravessar o deserto?
Quantas vezes, Nalim, iludidos por uma miragem, nos precipitamos a uma fuga
inconseqüente e ao invés da alegria, nos surpreende a dor. Perdidas no deserto
árido e causticante, fatalmente nos lembraríamos de que estávamos protegidas
aqui, sendo preferível termos sido tratadas até agora, do que encontrarmos a
morte sob o sol ardente do deserto. A liberdade, creia, é
relativa. ninguém no mundo a possui inteiramente. O que chamamos liberdade é
justamente o poder de fazer tudo o que nos agrada e muitas vezes em seu nome
nos escravizamos. A verdadeira liberdade é a do nosso espírito que pode,
conhecendo as leis que regem a vida, tornar-se livre. Esta liberdade, Nalim, é a
única que ambiciono e embora me escravizem o corpo, ninguém poderá
arrebatála de mim. Solimar falava pausadamente. Era tal a convicção que havia
em sua voz, que Nalim sentiu-se mais calma. Desejaria possuir a serenidade da
amiga, aquela forma de ver as coisas tão diferente de todos os que havia
conhecido. Mais sossegada, ela disse:
– Está bem, Solimar. Farei o possível para resignar-me, por ora não pensarei
mais na fuga, mas somente por hora. Assim que surgir uma nova oportunidade,
eu não a perderei. Então, a minha vingança será realizada. Solimar, pensativa,
não respondeu, voltando ao trabalho interrompido. Nalim, maquinalmente,
também reiniciou sua tarefa, mas não conseguiu recuperar o entusiasmo de
antes. O dia para ela estava estragado.

Pecos, ao sair da sala onde as duas moças escravas trabalhavam, ia apreensivo.
As palavras de Solimar o haviam impressionado mais do que gostaria de
confessar.
Dirigiu-se ao seu gabinete e sentou-se em um macio coxim perfumado,
reclinando-se para repousar. Mas aquela tristeza vaga, aquela sensação de
insegurança lhe voltara. Não sabia explicar o que sentia.
Solimar parecia-lhe a figura de alguém que tinha conhecido... mas, onde?
Solimar... Sua pele clara como o sol, e seus olhos verdes como o mar, cujas
ondas mariscavam em seus lindos cabelos... Belo nome para tal criatura!
Interessante como sendo tão jovem, já possuía tão profundo conhecimento das
coisas! Seria mesmo conhecimento ou seriam algumas frases decoradas no
sentido de bem impressionar? De repente sentiu uma vontade imensa de
conversar com ela para verificar até que ponto iam seus conhecimentos sobre a
vida. Sorriu contrafeito! Que prazer ele poderia encontrar na palestra com uma
de suas escravas? Evidentemente nenhum.
Inesperadamente, o rosto belo de Nalim surgiu em sua memória. Ele
estremeceu. Ela era realmente bela. Talvez uma das mulheres mais belas que já
conhecera. Seu corpo perfeito, seu rosto, sua fileira de dentes alvos e bem
distribuídos, seu porte de princesa casava-se bem com o orgulho que transparecia
no lampejar de seus olhos negros.
Pecos sentiu a boca seca. Levantou-se servindo-se de um pouco de vinho, que
ingeriu de um trago.
“Não sei o que se passa comigo”, – pensou – “com certeza é essa maldita
calmaria que nos envolve, fustigando os meus nervos. Se ao menos houvesse
algumas lutas para distrair-me... Creio que estou doente por deixar-me assim a
fascinar por minhas próprias escravas, como se me faltassem belas mulheres em
toda a corte do Egito. O que eu preciso é sair um pouco. Esta inatividade me
consome.”
Levantou-se, dirigindo-se aos seus aposentos ligados à alcova, preparandose para
sair. Nestes preparativos gastou meia hora, depois, insatisfeito consigo mesmo,
com a vida e com todos, saiu finalmente, dirigindo-se ao palácio do Faraó.

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