SETE ANOS ATRÁS

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Entrávamos em casa depois da festa de um ano da Lívia.

Eu havia preparado tudo com tanto carinho no quintal dos meus pais que ainda conseguia sentir o cheiro do bolo e ouvir as risadas dos convidados.

Lívia adormeceu no meu colo antes mesmo de nos despedirmos de todos.

Enquanto minha mãe organizava os últimos pratos, meu pai permaneceu parado diante de mim.

Em silêncio.

Observando.

Ele sempre fazia isso.

Não olhava apenas para meu rosto.

Parecia enxergar além dele.

Reparava no brilho dos meus olhos, na maneira como eu respirava, no jeito inquieto com que segurava Lívia.

Eu conseguia esconder muita coisa da minha mãe.

Do meu pai, nunca.

Ele se aproximou, beijou a testa da neta adormecida e depois segurou meu rosto entre as mãos.

— Se precisar de qualquer coisa... qualquer coisa, filha... nunca deixe de me procurar.

Forcei um sorriso.

— Está tudo bem, pai.

Ele balançou a cabeça devagar.

— É isso que você quer que eu acredite.

Seus olhos se encheram de tristeza.

— Mas eu conheço você.

Minha garganta apertou.

— Eu sei que alguma coisa não está certa.

Respirei fundo, sem coragem de encará-lo.

Ele continuou:

— E eu juro... se descobrir que aquele homem está fazendo qualquer coisa contra você...

Sua voz endureceu.

— Eu não vou pensar duas vezes.

Meu coração disparou.

Era exatamente isso que eu temia.

Se meu pai descobrisse a verdade...

Alguém sairia morto.

Ele beijou minha testa, entrou no carro e foi embora.

Fiquei olhando as lanternas desaparecerem na rua, desejando, pela milésima vez, ter coragem de contar tudo.

Mas eu não podia.

Não ainda.

Assim que coloquei Lívia no tapete infantil na sala brincando com seus novos brinquedos, permaneci alguns segundos observando seu rostinho tranquilo.

Queria que ela nunca conhecesse o mundo que eu vivia.

Fui até o quarto com a babá eletrônica sonhando apenas com um banho quente e algumas horas de sono.

Não consegui dar dois passos.

Jonathan entrou no quarto e segurou meu braço.

Com força.

— Passei a noite inteira tentando me controlar para não fazer um escândalo na frente da sua família.

Meu estômago afundou.

O cheiro de bebida denunciava que ele havia bebido.

Não estava completamente bêbado.

Pior.

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