Quando o sol começou a nascer do outro lado da varanda, fiquei observando o céu mudar de cor. Às vezes, tenho a impressão de que aquela é a única paisagem verdadeiramente tranquila da minha vida.
Eu não havia conseguido dormir.
Passei a noite inteira tentando me convencer de que precisava desistir de Steven. Mas como desistir de alguém que, desde o primeiro momento, só me trouxe paz?
Agora já não sei se conseguiria me afastar, mesmo que quisesse.
Porque alguma coisa mudou dentro de mim.
Depois de Jonathan, jurei que jamais permitiria que outro homem ocupasse qualquer espaço na minha vida. Passei anos acreditando que meu coração havia aprendido a sobreviver sozinho.
Então Steven apareceu.
Sem pedir licença.
Sem fazer esforço.
E, quando percebi, ele já estava em todos os meus pensamentos.
Vale a pena ficar com ele?
A resposta era fácil.
Sim.
O problema nunca foi Steven.
O problema sempre foi Jonathan.
Se eu permitisse que Steven entrasse definitivamente na minha vida, quantos problemas arrastaria junto com ele? Quantas ameaças? Quantos confrontos? Quantos medos?
Como construir alguma coisa bonita enquanto meu ex-marido ainda insistia em destruir tudo o que tocava?
Talvez fosse mais fácil afastar Steven agora.
Fingir que nada aconteceu.
Guardar para mim tudo o que começava a sentir.
Mas até quando?
Hoje eu abriria mão de Steven.
Amanhã abriria mão de outra oportunidade.
Depois de outra.
E, quando percebesse, Jonathan teria vencido sem precisar fazer absolutamente nada. Bastaria continuar me obrigando a viver com medo.
Fechei os olhos.
Pensei em Steven.
Depois pensei em Jonathan.
E minha mente transformou os dois numa guerra impossível de evitar.
Não fazia ideia de como aqueles dois homens poderiam existir na mesma realidade sem que tudo explodisse.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram a varanda, desisti de procurar respostas.
Levantei do sofá com o corpo pesado e fui para o banheiro.
A água quente escorreu lentamente sobre minha pele, mas nem ela foi capaz de aliviar completamente a dor.
Só então comecei a perceber as marcas da noite anterior.
Nas aulas de defesa pessoal aprendi que a adrenalina é uma grande mentirosa. Durante uma luta, o corpo ignora a dor para sobreviver. Ela só aparece depois, quando o perigo passa.
E ela havia chegado.
Meus dois braços exibiam manchas arroxeadas, como pulseiras que eu jamais escolheria usar.
A cabeça ainda latejava.
Fechei os olhos por um instante.
Respirei fundo.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Medo
RomanceClara Brayner finalmente está livre. Após anos em um casamento abusivo, ela reconstrói sua vida ao lado da pequena Lívia, acreditando que a felicidade, mesmo simples, está ao seu alcance. Mas Clara sabe que sua liberdade tem limites: seu ex-marido p...
