CINCO ANOS ATRÁS

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O medo havia se tornado um morador permanente da minha casa.

Desde a primeira vez que Jonathan me agrediu de verdade, meu apartamento deixou de ser um lugar seguro. Cada barulho do lado de fora fazia meu coração acelerar. Cada som de chave na porta fazia meu corpo inteiro enrijecer.

Eu já não encontrava paz nem dentro da minha própria casa.

Passei a evitar minha família, minhas amigas e qualquer pessoa que pudesse perceber que havia algo errado. Inventava desculpas, cancelava visitas e recusava convites. Não queria perguntas. Muito menos olhares de pena.

Enquanto me escondia do mundo, minha mente nunca descansava.

O tempo todo eu pensava em uma saída.

Planejava fugir.

Recomeçar.

Mas, quando chegava a hora de agir, o medo sempre falava mais alto.

Jonathan havia mudado.

E, aos poucos, eu também.

Já não me reconhecia.

Certa tarde, Genny e Cecília apareceram de surpresa em casa.

Bastou me olharem para perceberem que havia algo errado.

Por mais que eu tentasse disfarçar, um dos hematomas escapava por baixo da manga da blusa.

A discussão foi inevitável.

Genny perdeu a paciência.

Perguntou, entre lágrimas e indignação, o que ainda faltava para que eu denunciasse Jonathan.

A resposta morreu na minha garganta.

Eu sabia que deveria procurar a polícia. Sabia que precisava protegê-la mim mesma.

Mas, toda vez que imaginava Jonathan sendo preso, lembrava que ele também era o pai da minha filha.

E hesitava. Sempre hesitava.

E eu também sabia que não havia saída. Já havia tentado isso antes e não derá certo.

Cecília ficou tão preocupada que resolveu conversar com os meus pais.

No dia seguinte, eles apareceram no meu apartamento.

Ouvi a campainha tocar uma...

duas...

várias vezes.

Permaneci imóvel.

Sentada no chão da sala, prendendo até a respiração para que pensassem que não havia ninguém em casa.

Os hematomas ainda marcavam meu corpo.

Eu não conseguiria olhar nos olhos deles e mentir.

Muito menos contar a verdade.

Quando foram embora, liguei para os dois fingindo naturalidade.

Perguntei o que queriam.

Eles disseram que tinham passado na minha casa, mas ninguém atendera.

Menti.

Disse que havia saído e prometi que faria uma visita em breve.

A visita nunca aconteceu.

Os dias se transformaram em semanas.

As semanas, em meses.

E, sem perceber, fui me afastando de todos que me amavam.

Quanto mais sozinha eu ficava, mais Jonathan parecia crescer.

Seu controle sobre mim aumentava na mesma proporção em que minha liberdade diminuía.

O ciúme dele deixou de ter explicação.

Não precisava mais de álcool para explodir.

Qualquer coisa era suficiente.

Um homem esbarrando em mim sem querer.

Um vizinho me desejando bom dia.

Um garçom sorrindo por educação.

Até uma conversa rápida com um colega de trabalho podia desencadear horas de acusações, ameaças e humilhações.

Passei a vigiar meus próprios gestos.

Pensava antes de sorrir.

Antes de responder.

Antes mesmo de levantar os olhos.

Se, por acaso, eu olhasse para o lado no exato instante em que algum homem passasse por perto, bastava isso para Jonathan perder completamente o controle.

Era como viver em um campo minado.

Eu nunca sabia qual seria o próximo passo capaz de provocar uma explosão.

Enquanto minha autoestima desaparecia pouco a pouco, o poder que ele exercia sobre mim só aumentava.

Comecei a me perguntar se aquilo era algum tipo de doença.

Pesquisei durante horas na internet, tentando entender como alguém podia mudar tanto em tão pouco tempo.

Será que uma pessoa podia enlouquecer de repente?

Será que existia alguma explicação para tanta agressividade?

Mas, no fundo, eu já conhecia a resposta.

Os artigos apenas confirmaram aquilo que eu me recusava a aceitar.

Jonathan não havia se transformado naquele homem.

Ele sempre foi assim.

A diferença é que, agora, já não precisava esconder quem realmente era.

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