5. DIAS ATUAIS

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Outro fim de semana sozinha.

Mesmo sendo meu fim de semana com Lívia, ela tinha ido passar a noite com os meus pais. Disse que queria dormir na casa dos avós, e eu não tive coragem de negar.

Resultado: silêncio.

E silêncio nunca foi meu amigo.

Balancei a cabeça enquanto colocava água na chaleira. Esse era o problema quando Lívia não estava em casa e o trabalho não exigia minha atenção. Sobrava tempo demais para pensar.

Sempre que ela passava o fim de semana com o pai, eu me ocupava de qualquer jeito. Respondia e-mails, fazia planilhas e relatórios, organizava meu guarda-roupa, o dela, pesquisava fornecedores, desenhava novas peças... qualquer coisa que impedisse minha mente de ouvir o vazio daquela casa.

Mas, naquele sábado, tudo já estava feito.

Não havia planilhas.

Não havia roupas para organizar.

Não havia distrações.

Só ele.

O deus grego.

Por mais que eu tentasse afastar aquela lembrança, era inútil. Bastava fechar os olhos para reviver nosso único encontro. O jeito como ele me olhou. A calma com que pronunciou meu nome. O sorriso discreto enquanto me entregava o cartão.

"Clara."

Meu Deus...

Até a voz dele parecia ecoar dentro da minha cabeça.

Desliguei a chaleira e caminhei até a mesa. Peguei o cartão já amassado e um pouco desbotado depois de ter passado pela máquina de lavar. Passei os dedos sobre os números quase apagados.

Só o último dígito permanecia um mistério.

Fiquei encarando o telefone por longos segundos.

E se...

Não.

Mas e se...

— Não. Eu não vou fazer isso.

Joguei o cartão sobre a mesa e voltei para preparar meu café.

Dei dois passos.

Parei.

Sem perceber, olhei por cima do ombro.

O cartão continuava ali.

Me esperando.

Droga.

Voltei, peguei o papel novamente e ri de mim mesma.

— Você perdeu completamente o juízo, Clara.

Havia dez possibilidades para o último número.

Resolvi fazer um acordo comigo mesma.

Tentaria apenas os números pares.

Cinco chances.

Se desse certo, era porque tinha que acontecer.

Se não...

Era um sinal para esquecer Steven Foster de uma vez.

Respirei fundo, peguei o celular e digitei todos os números legíveis. Depois acrescentei um zero no final.

Primeira tentativa.

Chamou duas vezes.

— Alô.

Meu coração simplesmente parou.

Aquela voz.

Meu Deus...

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