Pedro foi até a casa do homem misterioso que havia lhe resgatado de Sérgio. Durante o percurso, eles não conversaram nada, apenas o homem e o motorista conversaram um pouco sobre algo que Pedro não pode entender, pois estava ocupado demais tentando ganhar a atenção da garota ao seu lado. Cuja a mesma estava jogando um jogo meio entediante em seu celular.
O carro entrou em uma casa, era enorme e muito bonita. Assim que o carro parou, o homem que estava no carona desceu e seguiu em direção a casa. Já o motorista, desceu e abriu a porta para a garota, em seguida, abriu para Pedro.
Estava meio óbvio para Pedro que o homem de camisa roxa era o ricaço, a garota era a filha, e o de preto era apenas o motorista.
Pedro seguiu a garota até a entrada da casa, seu estômago ainda doía muito. Ele manteve a mão sobre a barriga para tentar amenizar a dor, mas não adiantou nem um pouco.
O primeiro cômodo da casa era a sala de estar. Enorme, com uma mesa de vidro, e um enorme espelho numa das paredes pouco acima de um móvel. A TV também era gigantesca, e a escada pela qual a garota subiu era de mármore branco, com o corrimão cromado.
O ricaço sugeriu que Pedro se sentasse, e ele se sentou. O garoto se jogou naquele confortável sofá marrom de uma forma, como se não fosse mais se levantar.
E a dois metros dali, o homem que se apresentou como Paulo, preparava uma bebida no móvel abaixo do espelho. Então, ele caminhou até Pedro com dois copos nas mãos.
- Whisky - disse Paulo, enquanto se sentava no sofá menor.
Pedro observou por um tempo o copo, e Paulo que continuava com seu sorriso no rosto, afirmou:
- Se fosse pra você morrer, você já estaria morto.
- Eu sei - disse Pedro. - Eu só… não sou… acostumado com bebidas.
- Experimente - disse Paulo -, vai fazer as dores passar. Isso eu garanto.
Pedro cheirou o copo antes de beber. O gosto era forte, e desceu queimando esôfago abaixo. Instantaneamente, ele formou uma careta, e deixou o copo na pequena mesa de centro em sua frente.
Paulo conteve o riso, e comentou que quando mais jovem, sua reação foi praticamente a mesma.
- O que fazia proximo a minha casa? - perguntou Pedro.
- Você é direto ao ponto né garoto? Gostei disso. Mostra que é determinado e tem personalidade.
- O senhor ainda não me respondeu.
Paulo deu outro riso de canto, matou o restante da bebida em seu copo, e então disse:
- Eu estava procurando pelo seu irmão.
- Que tipo de milionário se muda para um fim de mundo como Gallituba, só para encontrar um ex detento?
- Na verdade eu não me mudei, eu apenas retornei para minha cidade.
- Espere - Se espantou Pedro por um momento -, o senhor é daqui?
- Sim - respondeu Paulo -, nasci aqui, cresci aqui. A mulher da minha vida é daqui, e a minha filha maravilhosa também. Minha vida foi aqui.
- Mas sua filha sequer sabia onde ficava o cemitério central.
- Vou ser honesto com você Pedro. Ja tem um tempo que estamos tentando te sequestrar.
- Achei que estava querendo meu irmão.
- Se soubesse o quanto é difícil encontrá-lo desacompanhado daquele pessoal de verde, entenderia o porque pegamos você.
- Por que saiu da cidade?
- Por causa do seu irmão.
- Ah - resmungou Pedro -, eu já deveria ter imaginado. O que foi? Ele ficou te devendo? Drogas, dinheiro? Foi isso?
- Muito pelo contrário garoto. Seu irmão salvou a minha vida e a da minha família, se não fosse ele, eu não estaria vivo agora.
- Calma aí - disse Pedro, ele deu um riso sem graça, desacreditando da história, e então pediu para Paulo prosseguir.
- Eu era diretor do telejornal da cidade. E seu irmão apareceu um dia em meu escritório pedindo emprego. Eu vi talento nele, mas ele era impulsivo e sempre queria mais. E então, á dois anos atrás, quando houve aquele movimento da opinião pública em proteger as gangues da cidade, contra a polícia que queria eliminá-las de uma vez por todas. Ele resolveu que daria um jeito. Ele me disse que ia acabar com as gangues da cidade sozinho, e no final, ganharia uma mesa próxima a minha.
Paulo se levantou, e caminhou até o móvel das bebidas novamente.
- E aí? - questionou Pedro, intrigado, querendo saber mais.
- Eu disse que era loucura um jovem de apenas dezessete anos querer cuidar de algo tão sério. Ele venho com ideias de se infiltrar, descobrir sobre tráficos, crimes e tudo que fosse errado. A ideia era ele conseguir provas para apresentar publicamente, e aí conseguir trazer a opinião pública toda ao lado do sistema, e aí, as gangues acabariam.
Paulo retornou para o sofá com os dois copos abastecidos. Entregou um a Pedro antes de se sentar. Pedro agarrou o copo enquanto ouvia atentamente a história.
- Isso foi uma semana antes de sua prisão. Sabíamos que ele tinha conseguido um estágio como jornalista, mas não tínhamos idéia de que era algo assim. Por isso ele tava sumido. Mas e aí, o que aconteceu?
Paulo deu um bom gole antes de prosseguir.
- Ele conseguiu se infiltrar nos Vortex.
- Mentira - duvidou Pedro.
- Pode acreditar. E ninguém desconfiou de nada.
- Continue por favor - disse Pedro, quase que avançando o tempo para poder ter aquelas informações, que ele esperou durante dois anos, três meses e cinco dias.
- O problema é que a coisa era mais séria do que pensávamos.
- Séria quanto?
- Ele descobriu uma coisa.
- Que coisa?
- Alguém usava os Vortex para traficarem, e assassinarem pessoas, em outras pequenas cidades do estado.
- Assassinar?
- Isso mesmo. Ele então pesquisou a fundo, e foi aí que ele foi pego. Não pelos Vortex. Mas por essa pessoa misteriosa.
- Tem cara de Mendes - disse Pedro.
- O Mendes surgiu depois. Pegou ele com aquelas drogas, e isso foi tudo o que eu sei. A última vez que eu tive contato com seu irmão, foi no dia anterior a prisão dele. Eu juro que tentei convencê-lo a parar, mas ele era muito teimoso.
- O senhor saiu da cidade, pois se descobrissem que ele trabalhava pro senhor, o senhor e sua família seriam alvos - deduziu Pedro.
- Você pega rápido as coisas garoto. Você tem que fazer o que for preciso para proteger sua família.
- Ele não era traficante.
- Longe disso garoto. Seu irmão é um garoto bom. Eles ofereceram um acordo a ele, e ele poderia ter me entregado, e por ser menor de idade, a culpa viria só pra mim e ele seria absolvido. Mas ele não aceitou o acordo, e acabou assumindo toda a culpa, e eu nem sei exatamente o motivo.
- Mas, se ele queria acabar com as gangues, por que entrou para os Orients?
- Essa é uma pergunta que só você vai conseguir tirar dele. A verdade é que, eu só trouxe você para essa conversa, pra dizer que eu tenho uma dívida enorme com você e sua família. E quero que avise ao Alisson que se ele precisar, estarei aqui. O que vocês quiserem, eu darei um jeito.
- Obrigado senhor. E eu já sei como você poderá começar ajudar - disse Pedro com um sorriso.
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Gallituba
AdventureBem-vindos à Gallituba. Uma pequena cidade com pouco mais de dezoito mil habitantes, localizada na região sul do estado de São Paulo. E nem por isso deixa de ser bela. Com uma enorme praça no centro, decorada com belas árvores e bancos de ma...
