No dia seguinte àquela tragédia, eu estava muito mal, passei um dia inteiro sem comer, sem vontade de fazer nada, só tinha vontade de ficar na cama. Somado a isso, minha mãe não entendia meu sofrimento e eu não podia explicar, ela achava que eu estava fazendo drama para não ir ao colégio e me ameaçou com uma pisa de pau.
Chegando à escola, a primeira cara que vejo foi a de Rute, ela nem se importou muito com a minha cara, estava muito séria e disse que queria conversar comigo em um lugar mais reservado. Assim, fomos conversar nas arquibancadas da quadra. Encostada à parede, fiquei escutando o que ela tinha a me dizer.
-Larissa, ontem eu estava conversando com o Jefferson e ele me contou que no dia que você foi fazer o trabalho na minha casa, enquanto eu tomava banho, você deu em cima dele, sentou no colo dele e fez outras coisas mais
-O quê? Eu tô péssima porque o Henrique foi embora ontem e você vem me falar que eu dei em cima do seu namorado!
-Só me responde, você deu ou não?
-Claro que não, foi justamente o contrário, ele deu em cima de mim, disse umas besteiras lá, mas foi ele, não eu
-Foi ele? Então, por que não me contou?
-Eu deveria ter contado, mas com essa história do Henrique indo embora, acabei me esquecendo
-Pois é, você não me fala nada, eu fico até pensando mal de você
-Não, Rute, você sabe que eu jamais faria isso com você, você é única amiga que eu tenho, eu jamais faria algo para te perder. Por favor, acredita em mim, foi aquele canalha do Jefferson que deu em cima de mim
-Tudo bem, Larissa, dessa vez eu vou fazer vista grossa, mas se outra vez acontece alguma coisa, você vai me conhecer. Por isso, fica bem longe dele enquanto eu não estiver por perto
-Ai, Rute, desse jeito parece até que você tá acreditando que eu possa ter feito algo realmente-falei triste
-Não, amiga, que é isso, claro que não, isso é só um conselho para não acontecer outro mal entendido desses, tá? Fica tranquila-ela fala me abraçando
Havia passado mais ou menos 1 mês e meio que Henrique foi embora de Massapê e eu sofri muito com a sua ausência, comi pouco, mas, mesmo assim, não sei como acabei engordando 2 kg. Entretanto, minha mãe tentou me aconselhar a comer, mas não se preocupou tanto, achou que era coisa de adolescente para ficar magérrima, igual às modelos. Ela, diferente de mim, estava feliz porque estava chegando minha formatura do ensino médio e ela queria caprichar no meu vestido e usar o melhor tecido pela primeira vez, porque ela não pôde ter a formatura dela, visto que, no dia, ela estava com 8 meses grávida de mim e os pais dela achavam que era uma vergonha ela ir à formatura, gestante.
Nesse momento, percebi o quanto ela me amava, apesar do jeito bruto dela, a intenção dela era só me proteger das coisas ruins.
Naquele dia, eu tinha acordado meio enjoada e tinha ido no banheiro vomitar, isso já estava acontecendo há alguns dias e minha mãe acreditava ser alguma coisa que eu estava comendo. Aproveitei que já estava ali e tomei um banho. Quando desnuidei-me, me olhei no espelho e percebi que meu corpo estava diferente, a diferença gritante era nos seios, ele estavam muito, muito maiores do que eram antes, minha barriga parecia um pouco inchada, mas não era muito preocupante. Entretanto, minhas canelas pareciam ainda mais finas do que elas já eram! Eu estava horrível! Preocupada, logo me lembrei das aulas do Henrique, quando ele me dizia que um atraso maior que 2 semanas poderia ser um indício de gravidez e já fazia 1 mês que meu endométrio não descamava!
Comecei a ficar desesperada!
"Meu Deus! Eu não quero ser mãe agora, eu vou morrer, minha vida acabou, minha mãe vai me esquartejar e o pior é que é bem provável que eu esteja, eu sinto e isso está refletido no meu corpo", pensei enquanto tocava minha barriga.
Terminei o banho, me vesti, pensando no futuro que me restava, sendo mãe solteira e vivendo, como a minha mãe, uma vida amarga e estressante em função do meu filho.
Por impulso, decidi atentar contra minha vida, fui no quarto, peguei a farmacinha de remédios da minha mãe, fui na geladeira pegar uma garrafa d'água e comecei a abrir todos os comprimidos que via pela frente e a tomar com água. Quando eu estava no 3º comprimido de Tylenol, minha mãe chegou e entrou no quarto.
-Larissa, menina, o que tu tá fazendo?-ela fala tomando os remédios da minha mãe
-Mãe, eu quero morrer-falei chorando
-Mas por quê?
-Eu não sei, mas eu quero morrer
-Deixa de drama, Larissa, o que houve?
-Eu não sei, mãe, eu não sei-falei chorando compulsivamente
De repente, alguém bate na porta, interrompendo nossa conversa.
-Larissa, vai atender
-Mãe; eu...não, p...-balbuciei algo
-Não discuta, vai atender-ela fala um pouco doce
Indo atender, vejo que era Gustavo, ele fica com o coração partido ao me ver chorando.
-Larissa, filha, o que houve?
-Ai, Gustavo, eu não sei-falei com a voz embargada pelas lágrimas
-Gustavo, ainda bem que tu chegou-diz minha mãe
-Tem algo em que eu possa ajudar, Virgínia?
-Fica com a Larissa enquanto eu costuro, ela não tá se sentindo muito bem
-Vamos dar um passeio, Larissinha?
-Não tô muito animada
-Vem, Larissa, vai ser divertido
-É, Larissa, vai que eu tenho que trabalhar
Depois de muita relutância, eles acabam me convencendo e Gustavo me leva para tomar sorvete.
-Então, me fala o que tá te afligindo?
-Prefiro não falar-respondi chorando
-Se você não me falar, eu não vou poder te ajudar
-Você realmente não pode me ajudar, a única solução para o meu problema é a morte
-Larissa, não fala assim, eu vou sofrer muito se isso acontecer, eu te amo como se você fosse minha filha
-Desculpa, Gustavo, eu não tenho mais vontade de viver
Como reação, noto que ele fica desconcertado, sem saber o que dizer, ele procurava palavras para me consolar.
-Não diga isso, Larissa, o quer que seja esse problema, vai passar, tudo vai ficar bem
-Não vai não, eu vou ter que carregar esse problema pelo resto da minha vida
-Ave Maria, mulher, você não acha que tá exagerando um pouco? Se você me falasse o que se passa...
De repente, Pedro passando em frente à sorveteria e Gustavo decide cumprimentá-lo:
-E aí, Pedrão, como é que tá?
-Oi, Gusta-ele fala e com uma certa tristeza, me cumprimenta-Oi, Larissa
-Oi-respondi secamente
-Vocês estão brigados?-Gustavo pergunta
-A gente terminou-comentou Pedro
-Meu Deus, que pena! Vocês formavam um casal tão bonito. Então, é por isso que você tá assim, Larissa?
-Hein? Claro que não, não tem nada a ver com isso-falei me levantando para ir lavar minhas após terminar de comer o sorvete
Quando me levantei, depois de dar alguns passos, comecei a sentir uma tontura, tanto que minha vista escureceu e eu apaguei.
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Não quebre meu coração!
RomanceClarisse é uma mulher de meia-idade que tem um passado sofrido por ter sido abandonada pelo pai aos 5 anos, tendo que conviver com a mãe sempre falando mal dele. Somado a isso, ela foi deixada pelo grande amor de sua vida, relação que lhe rendeu mág...