Capitulo 25 - Olhares e Outras Fórmulas

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Hoje, dia 23 de fevereiro, minhas aulas finalmente começam. Estou sentindo aquela mistura clássica de euforia e frio na barriga, tudo junto e misturado.

Quando o relógio apitou exatamente às 06:00, quase pulei da cama de ansiedade. O primeiro dia de aula tem sempre aquela energia diferente, um aroma de recomeço no ar.

Tomei um banho rápido para me despertar de vez e fiz minha higiene matinal. Vesti a tradicional camiseta do colégio — com as iniciais ORD, de Ordonezzi, estampadas no peito —, combinei com uma calça jeans wide leg clara, meus tênis Adidas brancos , uma make básica e, aproveitando o frescor da manhã, meu perfume Chanel Chance.

Desci a imponente escadaria até a cozinha e vi a Jubi dando os últimos toques no café da manhã. Comi um cookie integral, tomei um café bem quente e belisquei algumas frutinhas picadas. Lavei as mãos, escovei os dentes e fui direto para a garagem. Se eu não acelerasse, conseguiria a proeza de chegar atrasada logo no primeiro dia.

Agnaldo me levou e ao cruzar os portões do Ordonezzi, senti os olhares. Algumas amigas me olharam de relance, me cumprimentando com acenos tímidos e sorrisos de canto de boca. Depois dos últimos acontecimentos e do meu término turbulento com o Dylan, eu sabia que o meu nome ainda devia estar circulando em algumas conversas no corredor.

Fui direto para o meu armário. Deixei o excesso de material na prateleira e me encostei na porta metálica. Não deu nem dois segundos e o Peter se aproximou, me engatando em uma conversa sem fim sobre suas férias em Malibu. Ele falava tão rápido sobre festas na praia e surfistas que eu já estava quase implorando internamente por um milagre para fazê-lo parar, quando a Celeste apareceu do nada. Ela me envolveu em um abraço de urso tão apertado que quase me tirou o ar.

— Que saudades, que saudades! — Cel exclamou, me esmagando.

— Eu também estava morrendo de saudades, Cel! — murmurei, rindo e tentando recuperar o fôlego.

— Eu tenho muitos babados para te contar! — Cel dava pequenos pulos de empolgação, com o sorriso abrindo de orelha a orelha.

— Qual é a sua primeira aula? — perguntei, tentando frear-lá antes que ela engatasse a primeira fofoca.

Ela consultou a folha amassada com a grade de horários:
— Biologia. E a sua?

— Sociologia — olhei meu papel e soltei um suspiro aliviado. — Pelo menos começo leve.

— Que sorte a sua! Mas pera... você viu como o professor novo é gato? — Cel me deu um leve empurrãozinho com o ombro, piscando cúmplice.

— Ainda não... mas peraí, qual deles? O de sociologia ou o de biologia? — perguntei, confusa.

— O de biologia, óbvio! Ele é ma-ra-vi-lho-so, um verdadeiro arraso! — Ela ajeitou uma mecha do cabelo, colocando o queixo entre os dedos com um ar pensativo e um brilho audacioso nos olhos. — Decidi. Vou fazer ele se apaixonar por mim.

— Aposto que nem vai precisar de esforço — brinquei, rindo da cara de pau dela, torcendo por dentro para que ela não arranjasse uma confusão épica tentando flertar com um funcionário do colégio.

O sinal estridente tocou, cortando o falatório no corredor, e cada um seguiu para a sua respectiva sala.

Acomodei-me em uma das primeiras carteiras de Sociologia. Aos poucos, os alunos foram entrando e ocupando as cadeiras vagas. Pouco depois, o professor caminhou até a mesa principal. Ele parecia ter por volta de trinta anos, ostentava uma barba bem cuidada e uma vibe meio roqueira que prendeu a atenção de todo mundo instantaneamente. A aula fluiu de forma leve e interessante...

Até que o sinal para a penúltima aula tocou. Química.

Entrei no laboratório e, por falta de opção e acasos do destino, acabei sentando ao lado da Vanessa. Nosso histórico nunca tinha sido fácil. No passado, quando comecei a namorar o Dylan, a Vanessa me encarava como uma inimiga e tentou de tudo para nos afastar. Na época, eu achava que era implicância gratuita ou pura rivalidade. Mas, hoje, enxergando tudo o que passei e conhecendo o Dylan de verdade, minha visão sobre ela mudou completamente.

A verdade é que a Vanessa perdeu sua virgindade com Dylan achando que significava algo sério, sonhando com planos de futuro e casório. O Dylan simplesmente congelou com a pressão, surtou e sumiu do mapa, deixando ela sem chão. O Dylan sempre usou e descartou as pessoas quando elas deixavam de ser convenientes. A mágoa da Vanessa nunca foi sobre mim; era sobre o rastro de irresponsabilidade emocional que ele deixou.

Sentada ao lado dela, senti aquele clima pesado. De cinco em cinco minutos, ela jogava o cabelo loiro para o lado com certa afetação, soltando suspiros tensos. Eu entendia o incômodo dela, mas não guardava rancor algum. Se dependesse de mim, aquela rivalidade era ultrapassada e que nunca existiu da minha parte.

Quando o sinal para a saída finalmente tocou, arrumei minhas coisas com calma. O clima tinha sido desconfortável, mas me senti em paz.

Ajeitei a mochila nas costas e caminhei em direção aos portões do Ordonezzi, pronta para ir embora. Porém, ao passar pelo pátio principal, desacelerei os passos. Encostado em um dos pilares, conversando distraidamente com o inspetor, estava o tal homem comentado da Biologia.

E no segundo em que passei por ele, seus olhos cruzaram com os meus. Não era um olhar comum de professor para aluna. Era um olhar atento, analítico... e perigosamente intenso

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora