Capitulo 1 - Notificação Misteriosa

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— Katherine, já tá pronta, filha? — O grito da minha mãe ecoou do andar de baixo.

Tirei o excesso do liptint com um lenço de papel e peguei meu iPhone, que estava carregando. No mesmo segundo, a tela acendeu com uma notificação.

Celeste enviou uma mídia.

Deslizei para desbloquear, mas antes que eu pudesse digitar a senha, meu pai brotou na porta do quarto balançando as chaves do carro.

— Vamos? — perguntou ele, naquele tom calmo de sempre.

— Já tô descendo!

Bloqueei a tela e joguei o celular na bolsa. O que será que a Celeste tinha mandado? Pelo que eu saiba, ela devia estar no meio do fervo da festa de Ano-Novo que nosso amigo Lucas estava dando na casa dele.

Lá embaixo, minha mãe terminava de ajeitar o vestido branco de renda.

— Pegou os presentes, querido?

— Estão todos no porta-malas — respondeu meu pai.

Entramos no carro e, como manda a tradição, minha mãe sintonizou sua playlist de música clássica que dominou o ambiente até o condomínio da minha tia Rachel.

O porteiro já nos conhece e liberou a passagem — Feliz Ano-Novo, senhor William!

Meu pai acenou de volta e seguimos. Olhando pela janela, o condomínio parecia o cenário de um filme de Natal americano brega, daqueles da Netflix: pinheiros pisca-pisca, telhados iluminados e decorações exageradas nos jardins.

Finalmente estacionamos. Desci primeiro levando os pacotes menores e toquei a campainha. O som das risadas e do falatório lá dentro dava para ouvir da calçada. A festa estava rendendo.

A porta se abriu e meu rosto se iluminou.
— Que saudade, vovô Richard! — Larguei os presentes no chão e me joguei nos braços dele.

Como ele mora em Nova York e quase nunca vem ao Brasil, nosso contato físico se resume à virada do ano ou quando a gente viaja para lá.

— Eu também estava morrendo de saudades, minha querida — ele disse, me apertando no abraço.

Quando me afastei, vi que ele continuava exatamente igual: o mesmo cabelo grisalho, os olhos cinzentos acolhedores e as rugas de expressão que só mostravam o quanto ele sorria.

— Entrem, entrem! — O vovô olhou por cima do meu ombro para os meus pais, que vinham quase sumindo atrás de uma pilha gigante de caixas. — Precisam de ajuda com isso aí?

— Não, tá sob controle — meu pai riu. Ele se virou para mim e estendeu as chaves: — Kath, pegamos quase tudo, mas ainda faltam quatro presentes no porta-malas. Consegue trazer?

— Claro.

Fui até o carro. Para economizar viagem, decidi pegar os quatro pacotes de uma vez. Péssima ideia. Entrei na casa equilibrando a pilha de presentes enquanto tentava, milagrosamente, não quebrar o tornozelo em cima do salto alto.

Depois de uma pequena batalha contra a gravidade, consegui descarregar tudo ao lado da lareira, onde já tinha uma montanha de embrulhos.

— Ufa... — Respirei aliviada e comecei o circuito de cumprimentos aos parentes.

Deixei a dona da casa por último.
— Oi, tia Rachel!

— Katherine! Finalmente! — Como sempre, a conversa dela comigo mudou em dois segundos para o combo: marcas de grife, fofocas e viagens internacionais.

Enquanto ela falava sem parar, a minha mente deu um estalo. A notificação da Celeste. A foto. Eu ainda não tinha visto.

Precisei inventar uma desculpa rápida:
— Tia, vou só dar um pulo no banheiro para retocar a maquiagem, tá?
— Claro, querida! Ah, e passa um pouco mais de iluminador nas maçãs do rosto. Acho que você esqueceu esse detalhe, tá muito apagadinha. — ela disparou, antes de voltar a tomar seu champanhe.

Subi as escadas correndo em direção ao lavabo do segundo andar. A porta estava trancada. Ótimo. Eu não precisava do banheiro de verdade mesmo. Fiquei ali no corredor, fingindo ajeitar meus cachos no espelho gigante da parede, só para ter privacidade.

Abri a bolsa, puxei o celular e desbloqueuei a tela.

Meu mundo caiu.

Era uma foto.

O Dylan.

Beijando outra garota na festa do Lucas.

O meu Dylan.

— Não... — o sussurro saiu engasgado.

Meus olhos encheram de lágrimas instantaneamente. O ar sumiu dos meus pulmões. Num impulso de puro ódio e dor, fechei o punho e dei um soco na parede. A dor física na mão estalou, mas eu mal consegui ligar para ela.

— Droga, droga, droga...

De repente, o clique da fechadura. A porta do lavabo abriu.

Tentei disfarçar rápido e olhei para o lado. Um garoto acabou de sair do banheiro. Alto, forte, cabelo loiro meio bagunçado, olhos azuis marcantes e um maxilar travado. Ele cravou o olhar em mim.

Fiquei estática. Eu tinha a nítida sensação de já ter visto aquele rosto em algum lugar. Mas de onde?

Antes que minha mente processasse, ele deu um passo na minha direção com um sorriso meio de lado, bem convencido.
— Oi — ele disse, passando por mim e ajeitando o cabelo.

Eu não consegui formular uma frase. Só consegui esboçar um sorriso amarelo, totalmente forçado pela etiqueta social. Ele continuou andando pelo corredor, mas deu uma última olhada para trás com aquele sorrisinho provocador antes de sumir na escada.

Esqueci o garoto misterioso no mesmo segundo. Minha prioridade era outra. Abri o WhatsApp com os dedos tremendo.

[Chat: Celeste]

Celeste: Katherine, você viu isso???

Katherine: Cel, pelo amor de Deus. Você tem certeza absoluta de que é o Dylan?

A resposta dela veio na velocidade da luz, o status mudando para "digitando..." imediatamente.

Celeste: Amiga, se eu não tivesse certeza, nunca faria a crueldade de te mandar isso. Eu sempre te avisei que esse garoto não era o príncipe que você achava. Todo mundo tentou te dar um toque, mas você sempre passava pano para ele.

Fechei o aplicativo. Uma pressão absurda esmagou meu peito.

Eu me sentia a pessoa mais otária do mundo. O Dylan tinha mesmo coragem de fazer isso comigo? Logo eu, que passei meses defendendo ele de tudo e de todos? Como eu fui tão ingênua?

Respirei fundo, engolindo o choro que queria sair. Agora não. Agora não. Minha família inteira estava lá embaixo e a última coisa que eu queria era o olhar de pena de todo mundo ou ter que explicar o par de chifres que acabei de ganhar em plena véspera de Ano-Novo.

Limpei o borrão de rímel com a ponta do dedo, retoquei o iluminador, passei uma camada de gloss e forcei o meu melhor sorriso falso no espelho.

Fiz uma pose. Ninguém ia notar nada.

CAPA: STEVEN

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora