Capitulo 30 - Poeira Baixada

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Sair de lá às quatro da manhã parecia um desfecho quase irreal para uma noite que começou sob tanta tensão. Mas, à medida que as horas passavam, o peso sufocante do salão foi se dissolvendo. Ver o olhar do meu avô — uma vivacidade que há anos não habitava seu rosto — acabou desarmando as nossas defesas. A felicidade dele era tão genuína e radiante que acabou infectando o ar ao redor. Meu pai, que horas antes parecia prestes a explodir, finalmente relaxou.

No fim das contas, não se tratava de uma traição à memória da minha avó, mas do choque de encarar o inesperado. Superado o baque inicial, percebemos que o que realmente importava era ver meu avô vivo e sorrindo de verdade outra vez.

Durante toda a reta final da festa, meus olhos buscavam Steven. Ele havia desaparecido cerca de uma hora depois que descemos do quarto e não voltou mais. Não deixei que a ausência dele estragasse o clima, mas uma ponta de curiosidade permaneceu pairando.

Como meus pais haviam bebido, acharam mais prudente não arriscar a volta. Ligamos para o Agnaldo nos buscar e deixamos o carro na garagem do condomínio do meu avô. A travessia até a nossa casa no Rio, na madrugada de um sábado, exigia cautela.

Cheguei em casa em um estado de exaustão absoluta. Arrastando os pés até o quarto, me desfiz do vestido pesado ali mesmo e me joguei na cama só de lingerie. Sem paciência para rotinas, sem pijama, sem escovar os dentes — apenas o desespero por descanso. Enrosquei-me sob as cobertas para escapar do frio congelante do ar-condicionado e, em questão de segundos, o mundo se apagou.

[...]

Acordei com uma claridade implacável que invadia a sacada cortava meus olhos. Lutei contra a gravidade para me levantar e rebocar as cortinas pesadas, mergulhando o quarto no escuro absoluto que eu tanto precisava. No caminho de volta, tateei o ar no breu até desabar novamente no colchão.

Puxei o celular da escrivaninha. A luz da tela pareceu perfurar meu cérebro. Reduzi a luminosidade ao mínimo. A bateria marcava 13%. Conectei o aparelho ao carregador e, ao desbloquear a tela, deparei-me com uma fileira de notificações acumuladas.

Celeste enviou uma mensagem.
Dylan enviou uma mensagem.
Dean enviou uma mensagem.
Matt enviou uma mensagem.

Um amargor subiu pela minha garganta ao ver o nome de Matt entre os avisos. Então respirei fundo e abri a conversa com Dean, o atendente da livraria.

[WHATSAPP ON]

Dean: Oi, Katherine. É o Dean, da livraria... lembra de mim? Está livre hoje?

Katherine: Oi, Dean! Claro que lembro! Estou livre sim, podemos combinar algo.

[WHATSAPP OFF]

Depois, passei para a de Celeste. O tom era nitidamente alarmado.

[WHATSAPP ON]

Celeste: Katherine, preciso te encontrar imediatamente!

Katherine: Oi, Cel! O que aconteceu?

Celeste: Tem que ser pessoalmente. Pode me encontrar daqui a pouco?

Katherine: Nossa... é tão urgente assim? Acabei de acordar...

Celeste: É super urgente! Você tem algum compromisso mais importante agora?

Katherine: Não, Cel. Pode falar o horário e o lugar que eu vou.

Celeste: Barra Shopping, 16:00, no Starbucks. Não se atrase. Beijos!

Katherine: Tudo bem. Nos vemos lá.

[WHATSAPP OFF]

Fiquei encarando o teto por alguns segundos, tentando adivinhar o tamanho do incêndio que Celeste queria apagar.
Em seguida, meus olhos retornaram involuntariamente para o texto de Matt. Um arrepio frio percorreu minha espinha ao me lembrar daquela noite terrível no restaurante — o mal-estar repentino, a sensação de encurralamento e o choro desesperado ao telefone enquanto pedia para o Agnaldo me resgatar. Minha primeira reação foi apagar a conversa sem ler, mas a insistência incansável das chamadas perdidas me fez abrir o chat.

[WHATSAPP ON]

Matt: Katherine, por favor, me responde. Estou te ligando há dias e você não atende. Me desculpa por ter forçado a barra aquele dia, eu estava fora de mim. Te juro por tudo que nunca mais vou agir daquele jeito. Podemos nos encontrar? Você é minha amiga, não vamos jogar tudo fora. Não vou fazer nada que você não queira, só me responde, por favor...

Katherine: Oi, Matt. Hoje é impossível. Talvez amanha...

[WHATSAPP OFF]

Apertei o celular contra o peito, o coração acelerado. Havia uma história longa entre nós, mas o desconforto e o trauma daquele limite cruzado ainda pesavam como uma sombra. Eu sabia que encarar aquela conversa seria inevitável, mas o processo de metabolizar tudo aquilo ainda era doloroso.

Por fim, abri a mensagem de Dylan. A expectativa era baixa, mas o conteúdo me pegou totalmente de surpresa.

[WHATSAPP ON]

Dylan: Katherine, queria me acertar com você. Nosso envolvimento romântico não deu certo, mas percebi que não quero perder você da minha vida. Quero que sejamos apenas amigos. Me responde quando der, beijão!

Katherine: Oi, Dylan! Fiquei muito feliz que você finalmente aceitou nosso término. Com certeza seremos ótimos amigos.

[WHATSAPP OFF]

Um suspiro longo de alívio escapou pelos meus lábios. Era a primeira notícia genuinamente leve do dia. O peso de uma tensão mal resolvida com Dylan finalmente se desfazia, deixando em seu lugar uma sensação reconfortante de encerramento e maturidade.

Coloquei o celular de lado, encarei a escuridão do quarto e percebi que aquele sábado estaria longe de ser tranquilo.

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