Capítulo 8 - A Calmaria Antes da Tempestade

963 47 4
                                        

O despertador tocou pontualmente às 10h00, lembrando-me implacavelmente do treino da manhã. Academia em pleno dia primeiro de janeiro parecia um castigo. Rolei de um lado para o outro na cama por uns dez minutos, lutando contra a preguiça, mas finalmente criei coragem. Tomei um banho gelado para espantar o resto do cansaço e vesti minha roupa fitness preta, que contrastava com a minha pele clara.

Desci os degraus da escada em direção à cozinha. No caminho, notei a porta do escritório do meu pai entreaberta. Ele já estava de pé, imerso em papéis e telas, provavelmente resolvendo alguma pendência urgente da empresa. O Ano-Novo havia começado, mas os negócios não paravam.

Na cozinha, o ambiente era bem mais leve. Jubi, nossa cozinheira de anos, praticamente rodopiava pelo espaço enquanto cantarolava uma melodia qualquer e organizava o café da manhã.

— Bom dia, Jubi. O Agnaldo já chegou? — perguntei, pegando minha garrafinha de água na geladeira.

— Bom dia, menina Kath! Já sim, está aguardando lá na frente — ela respondeu com um sorriso caloroso.

Me despedi com um aceno e saí. Do lado de fora da casa, o calor do Rio de Janeiro já estava de lascar, um mormaço pesado que parecia derreter o asfalto. E lá estava o Agnaldo, impecável, vestindo um terno completo ao lado do carro. Eu realmente não sei como ele aguentava aquela vestimenta naquele clima.

— Bom dia, Senhorita Katherine — ele sorriu cordialmente e abriu a porta traseira do carro blindado.

— Bom dia, Agnaldo! — Retribui o sorriso e entrei, deixando-me guiar pelo ar-condicionado gelado. Ele deu a volta e assumiu o volante.

— Academia, senhorita? — perguntou, ajustando o retrovisor interno para me encarar.

— Sim! podemos ir.

Assim que o motor arrancou, desbloqueei a tela do celular. Como esperado, havia três novas mensagens do Dylan, enviadas logo no início da manhã:

— Querida, você está brava? (08:22)
— Quero te ver, meu amor! (08:45)
— Me liga quando ver as mensagens. (09:15)

O cinismo dele me impressionava. Respirei fundo.

— Chegamos, senhorita — o motorista anunciou ao parar na entrada do estabelecimento.

Desci do carro sabendo que, como de costume, Agnaldo ficaria me esperando na sala de recepção. Caminhei direto para o banheiro feminino, que por sorte estava vazio àquela hora. Respirei fundo, busquei o nome do Dylan nos contatos e liguei. Ele atendeu quase no primeiro toque, como se estivesse com o aparelho colado na mão.

[CHAMADA ON]

— Katherine? — A voz dele veio carregada de uma ansiedade nítida, quase sem fôlego.

— Oi, Dylan.

— Por que você não me atendeu ontem? — ele disparou, atropelando as palavras, o tom misturando cobrança e nervosismo.

— Ah, a bateria do meu celular acabou — expliquei, mantendo a voz o mais neutra e fria possível, guardando a munição para o momento certo.

Houve uma breve pausa do outro lado da linha, como se ele estivesse tentando adivinhar se eu sabia de algo ou não.

— Entendi... Olha, vou passar aí para te pegar às 20h00, ok? — ele sugeriu. Eu sabia que ele queria aquela conversa para tentar se justificar e testar o terreno.

— Ok. Te espero às 20h00 então... — concluí, sem dar corda.

— Tá bem amor. — A voz dele caiu para aquele tom rouco e sussurrado que ele sempre usava para tentar me amansar.

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora