Fechei a pesada porta de entrada da minha casa e encostei as costas na madeira lisa, deslizando lentamente até o chão. O sorriso bobo ainda teimava em curvar meus lábios, e o lugar onde os lábios de Steven haviam tocado a minha bochecha parecia ainda emanar calor. Eu não conseguia decifrar exatamente o que estava sentindo. Era uma mistura confusa de alívio por ter desabafado, uma pontada de culpa e um frio na barriga totalmente inesperado pelo que acabei sentindo. Mas, apesar de toda a bagunça mental, os últimos momentos daquela noite tinham sido puramente adoráveis.
Forcei minhas pernas exaustas a se moverem. Subi a escadaria em silêncio, entrei no meu quarto e a primeira coisa que fiz foi conectar o iPhone ao carregador na tomada ao lado da cama. A tela permaneceu preta, precisando de alguns minutos de energia para ressuscitar.
Enquanto isso, comecei a me despir. Deixei o vestido branco de Réveillon cair pelo chão do closet e entrei no banheiro. Assim que liguei o registro, a água quente começou a escorrer pelo meu corpo, relaxando os músculos tensos. Fechei os olhos sob o chuveiro, deixando que o vapor preenchesse o ambiente, enquanto rebobinava cada segundo daquela madrugada: as mentiras descaradas do Dylan no viva-voz, a intervenção ousada do Steven e, depois, a vulnerabilidade dele no banco de madeira diante do lago.
Certo, Katherine. Saia do banho, vista um pijama e durma. Amanhã será um longo dia. O conselho do meu subconsciente ecoou firme, e eu decidi obedecer.
Saí do box, me sequei rapidamente, fiz todo meu skincare e vesti um short curto e uma regata leve de algodão. Praticamente me espatifei na cama de casal, afundando a cabeça no travesseiro macio. Estiquei o braço e puxei o celular do criado-mudo. A luz forte da tela me fez piscar os olhos várias vezes até que eles se ajustassem.
Steven estava coberto de razão. O aparelho parecia uma bomba-relógio prestes a explodir com a quantidade de notificações acumuladas.
Dezenove ligações perdidas. Um recorde absoluto, até para os padrões controladores do Dylan. E quatorze mensagens de texto que pintavam perfeitamente o arco do desespero e da hipocrisia dele. Abri a conversa e comecei a rolar a tela, sentindo meu estômago revirar a cada linha.
— Katherine, me atende! (01:04)
— Onde você está? (01:07)
— Que saco! (01:12)
— Katherine! (02:15)
— Você estava com outro? É isso? (02:22)
— Ótimo! Que se dane. (02:30)
— Eu realmente não esperava isso de você. (03:33)
— É sério, Katherine? (03:40)
— Meu amor... (04:45)
— Me responde, por favor. (04:48)
— Kat? (04:52)
— Por que você está fazendo isso comigo? (04:58)
Dei uma risada seca, encarando o teto escuro do quarto. Ele tinha a audácia de se fazer de vítima. O mesmo cara que estava com outra garota gemendo ao fundo na ligação agora tentava me culpar por eu estar acompanhada. Ele realmente pensou que eu estava na cama com outro? Idiota. A projeção da própria culpa dele era quase patética.
Meus dedos flutuaram sobre o teclado por alguns segundos. A vontade de despejar todo o meu ódio em uma mensagem de texto era grande, mas eu conhecia o Dylan. Pelo telefone, ele usaria sua voz mansa e manipuladora para tentar reverter a situação, inventar uma desculpa esfarrapada e me fazer duvidar dos meus próprios ouvidos. Na melhor das hipóteses, assuntos que definem o fim de um relacionamento precisam ser tratados cara a cara.
Olhando para aquelas mensagens, tomei minha decisão. Não responderia nada agora. Amanhã eu ligaria apenas para marcar um encontro em um lugar público e colocar um ponto final definitivo naquilo.
Coloquei o celular de volta no criado-mudo, virei-me de lado e puxei as cobertas até o queixo. Deixei que o cansaço físico finalmente vencesse a turbulência da minha mente. Fechei os olhos e, poucos minutos depois, caí em um sono profundo, sabendo que o primeiro dia de 2026 seria o início de uma grande mudança.
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De Volta ao Começo
RomantikPara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
