Finalmente me entendi com a Vanessa. Depois de tantos altos e baixos, trocas de acusações e um clima insuportável entre nós, a sensação de ter baixado a guarda era de um alívio absurdo.
Estávamos sentadas na cozinha, dividindo uma travessa de docinhos fit que preparamos juntas, rindo de besteiras e conversando como duas garotas normais — sem julgamentos, sem veneno e sem defesas erguidas. Era estranho ver como tudo parecia mais leve agora, como se o passado tivesse ficado, finalmente, no lugar dele.
Quando eu estava prestes a pegar mais um docinho, três batidas firmes na porta da frente ecoaram pela casa, quebrando a calma do momento. Troquei um olhar curioso com a Vanessa, limpei as mãos no guardanapo e caminhei até a sala. Abri a porta sem pensar muito, mas travei no segundo seguinte.
— Dylan? — pergunto, surpresa, dando de cara com ele parado no portal.
— Oi, Kath — ele diz, com um sorriso calmo e desarmado. — Eu vim te ver... queria saber como você tá. Posso entrar?
— Ah... pode, entra... — Dou espaço para ele passar, ainda tentando entender a visita inesperada.
Dylan dá dois passos para dentro da sala, mas para de repente. A postura dele trava por um segundo quando seus olhos encontram os da Vanessa, que vinha caminhando da cozinha para a sala.
O ar na sala ganha um peso diferente, mas não um peso ruim. Apenas a gravidade inevitável de dois passados que se chocam. Vanessa cruza os braços, surpresa por vê-lo ali, embora ainda com um pouco de raiva defensiva no olhar.
— Vanessa... — Ele engole em seco, e posso ver as engrenagens da cabeça dele trabalhando. Dava para notar que aquele não era mais o Dylan de meses atrás; parecia mais pé no chão, mais consciente dos próprios atos. Dava para ver que ele vinha refletindo bastante sobre a própria vida há um bom tempo, e ter a Vanessa ali, na sua frente, parecia um sinal do destino cobrando uma conta que ele já sabia que devia.
— Oi, Dylan — ela responde, com a voz neutra.
Dylan solta o ar devagar, passa a mão pelo cabelo e olha para mim rapidinho antes de voltar a atenção para ela. O olhar dele não era de provocação, mas de um garoto que finalmente entendeu o peso de tudo que fez.
— Sabe... — Dylan começa, com a voz mais baixa e sincera. — Eu vim aqui para conversar com a Kath, mas ver você aqui... acho que é o momento certo. Eu venho pensando em muita coisa ultimamente. Sobre quem eu fui, sobre as merdas que fiz... e, principalmente, sobre como eu te tratei.
Vanessa descruza os braços devagar, um pouco chocada com a vulnerabilidade dele.
— Eu fui idiota com você — Dylan continua, encarando-a nos olhos, sem fugir. — Não vou dar desculpas e nem dizer que era 'só imaturidade'. Eu te magoei e fui irresponsável com os seus sentimentos, e sei que pedir desculpas não apaga o passado, mas eu precisava que você soubesse que eu me arrependo. De verdade.
O silêncio que se segue é denso, mas libertador. Vanessa pisca algumas vezes, visivelmente tocada pela honestidade dele. A guarda dela se desfaz por completo.
— Dylan... — ela respira fundo, e um sorriso fraco, porém genuíno, surge em seus lábios. — Obrigada por dizer isso. De verdade. Guardei mágoa de você por tanto tempo que eu nem lembrava mais como era olhar para você sem raiva. Fico feliz de ver que mudou.
Dylan solta um sorriso de alívio, visivelmente mais leve, como se tivesse tirado uma tonelada das costas.
— Que legal ver todo mundo finalmente se entendendo, sério! Acho que finalmente estamos mesmo crescendo e amadurecendo. — Digo, com brilho nos olhos. — Então para selarmos essa paz e aproveitar também que tá um calor absurdo... o que acham da gente ir lá fora tomar um ar na beira da piscina? — Sugiro, feliz e aliviada com esse clima de paz que se estabeleceu.
— Eu topo — Vanessa responde de imediato, e eu concordo com a cabeça, ainda surpresa com tudo.
— Eu também — Dylan diz em seguida.
Nós três caminhamos para a área externa e sentamos na beira da piscina, deixando as pernas mergulhadas na água. Conforme os minutos passam, observo uma química e uma sintonia entre os dois que eu jamais imaginei ver. A conversa flui de um jeito tão maduro, amigável e leve que custo a acreditar no milagre que estou presenciando. Olhando para eles ali, rindo de piadas bobas e se encarando de um jeito novo, percebo o quanto eles realmente combinam, por mais que o passado tenha sido conturbado.
Olho no relógio do celular e tomo um susto com a hora.
— Gente, o papo tá ótimo, mas preciso voar! — digo, me levantando rapidamente.
— Onde você vai com essa pressa? — Vanessa pergunta.
— Belmonte! Tenho um encontro às 21:00 e já são 20:00. Vou me arrumar correndo lá em cima. Fiquem à vontade!
Subo para o meu quarto, tomo um banho rápido e faço minha maquiagem assinatura. Coloco minha saia plissada cinza com um cinto preto, uma blusinha preta de botões, minha bota da Gucci e borrifo o body splash da Sol de Janeiro. Quero estar bonita, mas parecendo a Katherine de verdade.
Assim que termino de me arrumar e pego minha bolsa, meu celular toca na penteadeira. O nome do Dean brilha na tela.
[CHAMADA ON]
— Oi! — atendo.
— Oi, Katherine. Já estou aqui na frente da sua casa.
— Estou saindo! — aviso e desligo.
[CHAMADA OFF]
Desço as escadas rapidamente e aviso ao pessoal na sala:
— Gente, já estou indo! Vocês vão ficar bem por aqui ou já vão sair?
— Eu vou dar uma carona para a Vanessa — Dylan responde, olhando para ela com um tom carinhoso que me faz sorrir.
— Perfeito! Divirtam-se.
Saio de casa e vou caminhando pela calçada. De repente, paro no meio do caminho, de queixo caído: estacionado bem na minha porta está um reluzente Porsche 911 Carrera Cabriolet branco.
Fico intrigada por um segundo: como um atendente de livraria tem um carro desses?
De repente, a porta do motorista se abre e o Dean sai do veículo. Ele vem caminhando na minha direção segurando uma rosa vermelha perfeita. Confesso que não consigo segurar o sorriso.
— Isso é para você — ele diz, com aquele sorriso de lado marcante, e me dá um beijo carinhoso na bochecha que faz meu rosto esquentar na hora.
— Obrigada! — pego a flor, sentindo um friozinho gostoso na barriga.
Dean abre a porta do passageiro para mim de forma gentil e cavalheira. Assim que entro no banco de couro, ele dá a volta, assume o volante e damos partida rumo ao Belmonte.
VOCÊ ESTÁ LENDO
De Volta ao Começo
RomansaPara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
