Capitulo 36 - Entrelinhas e Fogo

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Alcanço o carro a tempo e, mesmo com o olhar nublado por uma tristeza velada, ele destrava a porta. Entro sem pensar duas vezes.

— Me explica. Por favor — Exijo, enquanto ele sai com o carro. Minha voz sai mais como um apelo do que eu gostaria.

— Quando chegarmos. Tudo bem? — Responde, sem alterar o tom. Calmo.

Como eu já previa, o destino é o condomínio dele. O silêncio dentro do carro durante o trajeto é denso, quase palpável. Assim que ele estaciona no subsolo, nem espero. Desço imediatamente e tomo a dianteira subindo as escadas. Paro em frente à porta de acesso à casa, ouvindo o eco dos passos dele atrás de mim. Com as mãos levemente trêmulas, Steven abre a porta com uma facilidade treinada.

Passo por ele, vou direto para o sofá e me sento. Minha paciência evaporou já. — E então? — Cruzo os braços, exigindo o que me é devido.

Ele se senta na minha frente, inclina os cotovelos sobre as joelhos e passa as mãos pelo rosto. A ansiedade dele é visível em cada gesto.

— É o seguinte... — ele começa, a voz falhando de leve. — O Dean... como você já deve saber, é meu primo. Eu cometi o erro de falar de você para ele. Mostrei até uma foto sua. Tivemos uma discussão feia depois disso e... parece que ele usou isso para se vingar de mim. Eu nem sei como vocês se conheceram, mas eu nunca, em hipótese alguma, quis que vocês se cruzassem. Não dessa forma.

— Eu o conheci na livraria — interrompo, cortando o ar pesado que se formou entre nós. Não quero saber do Dean agora. — O que você falou sobre mim pra ele, Steven? — Ele me encara. Aqueles olhos verdes congelam o tempo por um segundo, anulando qualquer ruído ao redor.

— É complicado... — ele murmura, a voz descendo um tom, ficando mais grave. — Você é uma garota surpreendente, Katherine. Eu sei que é clichê, mas você é totalmente diferente de qualquer outra pessoa que já conheci. Passei a vida tentando encontrar uma Katherine em cada mulher com quem me envolvi, mas você é única. — Ele abaixa a cabeça por um instante, deixando as palavras ecoarem e me atingirem em cheio. O ar foge dos meus pulmões. — Eu gosto de você, Katherine. — Ele volta a me olhar, se aproximando passo a passo, como um predador cediço. — E não importa o quanto eu tente lutar contra isso ou esconder... eu não quero mais esconder.

Em um piscar de olhos, ele elimina a distância entre nós. Seus braços fortes me puxam para cima com uma facilidade absurda, suspendendo meu corpo contra o dele. Envolvo sua nuca com força, puxando-o para mim enquanto seus lábios tomam os meus em um beijo urgente, faminto, acumulado por dias de contenção. Razão e lógica simplesmente deixam de existir. Tudo o que sei é que não quero parar. Chega de me segurar, chega de hesitar. Eu quero o Steven.

O trajeto até o quarto dele é um borrão de passos desajeitados e beijos ferozes. O clima não está apenas quente; está em chamas.

Steven me joga na cama e, em um movimento fluido, puxa a camisa pela cabeça. Fico paralisada por um segundo diante daquela visão. Ele é esculpido, uma obra de arte viva onde cada detalhe do corpo parece ter sido desenhado. O som do metal do cinto fivelado sendo desfeito ecoa pelo quarto antes de ele se deitar sobre mim, voltando a me devorar com a boca.
O ar me falta, mas a sensação de sufoco é deliciosa. Ele dá uma breve pausa, puxando minha blusa para cima. Eu me entrego, erguendo os braços e mantendo o contato visual intenso, entregando tudo o que tenho a ele.

E é exatamente esse olhar que quebra o feitiço.

De repente, a expressão de Steven muda. O desejo desaparece. É como se ele estivesse encarando um fantasma sobre a cama. Ele se afasta de mim. — Espera... o que eu tô fazendo?! — Ele esfrega as mãos no rosto com força, trincando a mandíbula. Ele respira fundo, descontrolado.

— Steven! — Saio da cama num pulo e vou atrás dele. — Para! — Consigo encurtar a distância e espalmo as mãos em seu peito nu, descendo até sua cintura, abraçando-o. É um abraço visceral, daqueles que parecem colar duas almas despedaçadas. — Eu gosto de você de verdade! — Sinto a quentura das lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Odeio chorar, mas não consigo segurar. — Eu realmente quero muito tentar.

Devagar, ergo o rosto. Seus olhos verdes estão marejados, brilhando com uma mistura dolorosa de afeto, culpa e algo que se parece muito com alívio. Me afasto apenas alguns centímetros para tentar ler o que se passa naquela cabeça, esperando por uma reação, um gesto, qualquer coisa.
Mas ele não faz nada.

Ele apenas continua ali, parado, me encarando em um silêncio ensurdecedor, enquanto nossas respirações descompassadas preenchem o espaço entre nós.

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