***STEVEN***
Sai da casa da Katherine com uma calma estudada, mas, no segundo em que coloquei os pés no asfalto, o sangue subiu à minha cabeça com a força de um soco.
Por fora, um cavalheiro inabalável; por dentro, eu estava possesso de pura raiva contida.
Um garoto de dezessete anos, abusivo e medíocre que se acha o dono do mundo, achou mesmo que tinha o direito de tentar me enfrentar? De marcar território tentando me diminuir? Nem no seu melhor dia, garoto. Nem no seu melhor dia!
Entrei no carro, liguei o motor e arranquei a toda velocidade. Saindo do condomínio, cortei o trânsito do Rio de Janeiro como se estivesse fugindo de mim mesmo. Eu não podia voltar para a minha mansão naquele estado. Precisava de barulho, de fumaça, de álcool e de qualquer distração que limpasse a imagem da Katherine me olhando com aqueles olhos assustados.
Fui direto para o bar de um hotel de luxo na Zona Sul. O tipo de lugar com iluminação penumbra, jazz ao fundo e bebidas a preços obscenos. Atravessei o lounge e me sentei na bancada, exatamente ao lado de uma ruiva deslumbrante que bebia algo num copo baixo.
— Noite bonita hoje, não acha? — soltei, com o tom macio e confiante que sempre funcionava.
Ela me olhou devagar, me desnudando de baixo para cima com os olhos, antes de morder o lábio inferior com um sorriso predador.
— Poderia ficar mais bonita ainda — respondeu.
— Posso te pagar um drinque?
Ela assentiu. Chamei o bartender com um gesto e pedi duas Margaritas. Quando os copos bateram na madeira polida, peguei o meu e virei metade em um único gole. A tequila desceu queimando a garganta, mas não foi o suficiente para apagar o gosto amargo do que tinha acontecido na casa da Katherine.
— Como é o seu nome? — a ruiva perguntou, apoiando o queixo na mão, me encarando cheia de segundas intenções.
Não encarei de volta. Fiquei apenas olhando para o copo dela. Eu não queria saber o nome dela e muito menos dizer o meu. Depois do nome vem o número de telefone, depois vêm as mensagens no dia seguinte...
Então só aproximei meu rosto do dela em um clima intenso que eu sabia fazer muito bem.
Puxei a ruiva pela cintura e e coloquei meus lábios no pescoço dela. O cheiro do perfume dela era bom, mas não era o dela. Mesmo assim, não me importei. A puxei pela mão, paguei a conta sem olhar o valor e a levei direto para o carro. Fomos para a minha casa e... bom, você já deve imaginar exatamente o que rolou até de madrugada.
[...]
Acordei na manhã seguinte com o peso de duas pernas jogadas sobre as minhas e um corpo nu ao meu lado.
Tirei os lençóis de cima de mim com cuidado, passando a mão pelo rosto. Céus, essa mulher ainda não foi embora?
Eu tinha reuniões importantes e não tinha o menor tempo — nem paciência — para conversinhas após aquela noite. Dei uma olhada rápida na cômoda, peguei um bloco de notas com caneta e tentei puxar pela memória. A tal ruiva tinha dito o nome em algum momento da noite... acho que era Jéssica. Ou Jacqueline. Só lembrava que começava com J.
Rabisquei no papel:
Querida J.,
Surgiu um compromisso de última hora na empresa e não quis acordá-la. Adorei a noite. Fique a vontade para tomar um banho e tomar um café da manhã. A Valda, minha diarista, chamará um táxi para você por minha conta! Tenha um bom dia.
Deixei o bilhete ao lado da bolsa dela, tomei um banho frio para tirar a névoa de bebida do corpo e me vesti com um terno sob medida impecável.
Desci as escadas cheirando meu perfume assinatura: Clive Christian X e fui direto para a cozinha, onde a dona Valda já estava preparando o café, como fazia todos os dias. Ela é praticamente da família, cuida de mim desde sempre e tem aquele carinho materno que quase ninguém consegue me tirar.
— Bom dia, menino Steven! — ela disse assim que me viu, abrindo um sorriso enorme e radiante. — Já ia preparar o seu omelete.
— Bom dia, Valda — sorri de volta, me aproximando e dando um beijo no topo da cabeça dela. — Hoje preciso voar para a empresa, então passo o café. Mas preciso de um favorzinho seu.
Ela colocou as mãos nas cadeiras e me olhou com aquele ar cúmplice de quem já conhece todas as minhas aprontações.
— Hum, lá vem... O que foi que você aprontou dessa vez, meu filho?
— Tem uma garota dormindo lá no meu quarto — comecei, abrindo a carteira e tirando cinco notas de cem reais. — Prepara um café da manhã caso ela queira comer algo quando acordar, e depois chama um táxi para despachar ela, por favor?
Coloquei os R$500 sobre o balcão de mármore e dei um tapinha na mesa.
— Bom, acho que isso dá — conclui com um meio sorriso.
Valda olhou para o dinheiro, depois para mim, e balançou a cabeça rindo com aquele carinho de sempre.
— Ah, Steven... Você não crie vergonha nessa cara, não? Um dia uma dessas garotas ainda te prende de jeito!
— Vamos ver, Valdinha. — pisquei para ela, pegando a chave do carro. — Te vejo mais tarde!
Saí da cozinha ouvindo a risada abafada dela ao fundo. Entrei no carro e acelerei rumo à empresa, mas, por mais que a Valda achasse que eu era o mesmo libertino de sempre, a verdade era que meu pensamento continuava preso em uma única pessoa.
E ela definitivamente não era a garota que estava no meu quarto.
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De Volta ao Começo
RomancePara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
