Capitulo 17 - Passado e Presente

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Chego em casa toda desgrenhada, com o cabelo bagunçado e as roupas amassadas. Assim que coloco os pés no hall de entrada, mamãe me para no meio do caminho e dá um gritinho assustado, levando a mão ao peito.

— Você está péssima! — Ela estreita os olhos, me avaliando com uma mistura de choque e desconfiança. — A senhorita passou a noite com quem? — mamãe pergunta, colocando a mão na cintura, esperando uma justificativa imediata.
Meu cérebro trabalha rápido, apesar da ressaca e do turbilhão de emoções.

— Saí com o Matt e passei a noite em um hotel, não queria incomodar o Ag aquela hora da madrugada — minto sem piscar.

O Agnaldo sempre confirma minhas mentirinhas quando o assunto é me livrar dos interrogatórios da minha família, então eu estava segura. Ao ouvir o nome do Matt, o semblante de mamãe muda instantaneamente. Ela sorri, aliviada, e dá um leve tapinha em meus ombros.

— Tome um banho e durma um pouco. Vou passar meu creme em você, suas olheiras estão muito profundas!

Assinto com a cabeça, fingindo concordar com a preocupação estética dela, e dou as costas. No mesmo segundo, meu celular apita na minha mão, quebrando o silêncio do corredor.

"Matt lhe mandou uma mensagem"

Um frio bizarro corre pelo meu estômago. Desbloqueio o celular enquanto subo as escadas lentamente, o coração acelerando a cada degrau, revivendo os borrões da noite passada. Matt era meu amigo, alguém em quem eu confiava, e ele tinha tentado se aproveitar de mim quando me viu vulnerável e bêbada na balada. Se o Steven não tivesse aparecido...

[WHATSAPP ON]

Matheus: Está melhor? Você ficou bem bêbada ontem... Mal conseguia parar em pé. Fiquei preocupado.

Olho para a mensagem, completamente em choque. Bêbada? Ele estava realmente tentando reescrever o que tinha acontecido? Estava agindo como se o erro fosse meu, jogando a culpa na bebida para mascarar o fato de que tentou passar dos limites comigo. Sinto minhas mãos tremerem levemente sobre o teclado. O cinismo dele me dá náuseas, mas eu não posso confrontá-lo por texto. Preciso ver a cara dele. Preciso olhar nos olhos dele quando eu falar do Steven.

Katherine: Ah sim, estou ótima. Só com um pouco de dor de cabeça.

A resposta dele vem quase instantaneamente.

Matheus: Que bom, linda. Fiquei mal por como a nossa noite terminou. Aquele cara, o Steven, apareceu do nada e causou uma confusão tremenda. Mas não quero que aquilo estrague a gente. Vamos sair hoje pra resolver as coisas?

Ele estava jogando toda a culpa no Steven, tentando pintar o cara que me salvou como o único vilão da história. Respiro fundo, engolindo o nó na garganta. Preciso parecer normal. Se ele desconfiar que eu lembro de tudo e, pior, que passei a noite na casa do rival dele, o mundo desaba antes que eu possa confrontá-lo.

Katherine: Claro, só dizer o lugar e a hora...

Matheus: Que tal o Gero às 21h? Quero te dar um abraço de verdade e poder conversar sem aquela música estrondosa.

Katherine: Ótimo, estarei lá.

[WHATSAPP OFF]

Meus pensamentos são um caos completo. O Matt está agindo de forma mansa demais, estranho... O que ele está planejando para esse encontro? Ele quer testar a minha memória? Ele sabe que o Steven me levou embora?

Olho para o relógio. São 14:00, eu realmente acordei bem tarde.

Entro no meu banheiro e começo a tirar a roupa às pressas, querendo arrancar o cheiro daquela noite da minha pele — e, secretamente, afastar o perfume do Steven que ainda insiste em rodear minhas roupas e bagunçar minhas emoções. Ótimo, eu precisava de um banho imediatamente para clarear os pensamentos e tirar a sensação sufocante do beijo do Matt.

Termino o banho após alguns minutos, sentindo a água quente relaxar meus músculos tensos. Coloco um pijama de frio bem grosso e vou direto para a cama. Estou congelando, mas mamãe odeia calor, então deixa o ar-condicionado de quase todos os cômodos ligado no 16º o dia inteiro, transformando a casa numa verdadeira geladeira.

Fico encarando o teto, me revirando nos lençóis. A imagem do descontrole do Matt se mistura com a lembrança do olhar protetor do Steven. Entre o nojo por um e a paixão confusa pelo outro, sinto minhas pálpebras pesarem.

— Querida!!! — Mamãe bate na porta repentinamente, me dando um susto e me tirando do meu transe.

— Entra — respondo, puxando a coberta até o queixo.

— O creme, amor! — Mamãe entra no quarto a passos rápidos e me entrega um frasco cinza bem pequeno. — Passe para descansar, beijinhos.

Ela sai tão rápido quanto entrou. Me levanto arrastando os pés e corro os olhos pelo espelho do closet. Minha expressão está nitidamente abatida, carregando o peso de segredos demais para um dia só. Espalho o creme cinza no rosto com movimentos circulares e, quando termino, pulo na cama de novo. Me aconchego debaixo dos cobertores e, finalmente, o cansaço vence e dou mais uma descansadinha.

[...]

Acordo sobressaltada com o som estridente do despertador marcando 19h. O peso do encontro que me espera cai sobre meus ombros como uma tonelada de chumbo. Levanto da cama com determinação e tomo outro banho, tentando usar a água para me blindar psicologicamente para o que está por vir.

Vou até o guarda-roupa e escolho uma calça de couro estruturado, uma blusinha azul da lacoste e um saltinho escuro e bem baixinho, pra dar uma elegância ao look. Faço minha clássica maquiagem e uma escova bem feita no cabelo. Passo meu perfume English Pear e olho para o meu reflexo. Eu pareço perfeitamente normal. Ninguém diria que acordei na cama de outro homem hoje cedo, e ninguém diria que estou prestes a jantar com um amigo que traiu totalmente minha confiança.

Pego meu celular e desço os degraus da escada até a sala de estar. O som de vozes masculinas me faz desacelerar o passo. Meu primo, Max, está sem camisa, jogado no sofá com aquela sua postura folgada de sempre. Ele está conversando com outra pessoa que está de pé, de costas para mim e... segurando um enorme buquê de rosas vermelhas. Super normal para uma noite caótica. Max faz algumas piadas, gesticulando com as mãos, visivelmente achando graça da situação daquele rapaz ali no meio da nossa sala.

— Max? — O chamo da escada, interrompendo a conversa.

No mesmo segundo, a figura de costas se vira de frente para mim, exibindo um sorriso ensaiado e perfeito no rosto.

Meu estômago despenca. Droga! É o Dylan. Meu ex-namorado abusivo, o cara que transformou minha vida em um inferno psicológico por meses e que eu lutei tanto para afastar. Ele está parado ali, me encarando como se tivesse o direito de aparecer na minha casa, segurando aquelas flores patéticas.

Olho para o Dylan, sinto o celular vibrar na minha mão com uma notificação do Matt, e minha mente ainda viaja no perfume do Steven. Parece que o passado e o presente resolveram se aliar hoje para testar o limite da minha sanidade.

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