Capitulo 3 - Entre Fios e Sussurros

954 52 1
                                        

— Atende, Dylan! — sussurrei contra a tela, mas a chamada caiu na caixa-postal mais uma vez. — Que droga!

Joguei o celular em cima da cama da tia Rachel e enterrei o rosto nas mãos. A ansiedade que me fizera subir correndo as escadas agora se transformava em pura frustração.

*TOC TOC*

— Mamãe, já estou descendo! — avisei rápido, forçando a voz para parecer o menos abatida possível.

*TOC TOC*

As batidas continuaram, firmes. Será que eu não podia ter nem cinco minutos de privacidade para digerir aquele bolo na garganta?

— Já vai! — resmunguei. Ajeitei o salto nos pés e usei a ponta do dedo para limpar um leve borrão de batom no canto dos lábios.
Caminhei até a porta e a abri de uma vez, congelando no lugar. Dei de cara com Steven. Sem camisa. Uau...

— O quarto está ocupado! — protestei, sentindo minhas bochechas arderem.

— Eu derrubei vinho no meu terno — a voz dele soou grave e divertida, bem perto de mim. — Sua tia Rachel mandou eu pegar um do seu tio Rafael emprestado no closet.
Desviei o olhar estrategicamente para o cabelo dele, evitando encarar o abdômen definido bem à minha frente.

— Ok. Está ali dentro — apontei, me esquivando para deixá-lo passar.

Voltei a me sentar na cama, fingindo uma enorme concentração nas minhas unhas, como se elas fossem a coisa mais fascinante do mundo. Pelo canto do olho, porém, observei Steven vestir outra camisa social branca. Quando ele terminou de abotoá-la, finalmente me permiti encará-lo por inteiro. O terno caiu bem; meu tio Rafael era magro, mas tinha os braços largos e um pouquinho de barriga, mas até que acabou ficando bem no Steven.

— Bem melhor! — ele comentou, ajustando a camisa no espelho. Ele se virou, fixando os olhos azuis em mim. — Não vai descer?

— Vou — respondi, pegando o celular na cama e me levantando.

Steven deu um passo atrás e abriu a porta para mim, mantendo o cavalheirismo. Caminhamos pelo corredor e começamos a descer a escadaria de madeira.

— Ah... e feliz 2015! — Ele sorriu de lado, aquele sorrisinho de canto que desestabilizou um pouco o meu ritmo.
A curiosidade falou mais alto e a pergunta escapou antes que eu pudesse filtrá-la:
— Quantos anos você tem?

— Tenho vinte — ele riu, achando graça da pergunta do nada. — E você? Uns dezoito, certo?

Ele parou no final da escada e estendeu a mão, oferecendo apoio para que eu descesse o último degrau. Hesitei por uma fração de segundo antes de tocar a palma dele.

— Dezessete — corrigi, sentindo uma leve corrente elétrica quando meus dedos tocaram os dele.

— Quer andar um pouco? — perguntou, indicando a saída da frente, longe da agitação da piscina.

Apenas assenti com a cabeça. O ar abafado da festa e o sumiço do Dylan estavam me sufocando; um pouco de ar fresco era tudo o que eu precisava.

Steven abriu a imponente porta de entrada da casa e saímos para caminhar pelas ruas calmas do condomínio. A brisa da virada do ano estava agradável, purificando a tensão que eu carregava no peito. Seguimos em direção ao lago artificial, onde as luzes da decoração de Réveillon se refletiam suavemente na água escura.
De repente, a poucos passos da margem, Steven parou de andar e se virou para mim. Eu congrelei completamente.
Levantei levemente a cabeça para encará-lo, o coração dando um salto descompassado no peito. Sem pressa, ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre nós, e levou as duas mãos até os meus ombros, afastando delicadamente os fios longos e escuros do meu cabelo que caíam para a frente. O toque sutil de seus dedos na minha pele arrepiou a minha nuca.

— Me conte sobre você — ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz mansa, enquanto suas mãos ainda faziam um carinho sutil nos meus cabelos.
Certo, Katherine. Mantenha a calma. Ele só quer conversar. Pergunte o que exatamente ele quer saber, não precisa ficar nervosa.

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora