A primeira semana de aula passou voando, como um sopro atordoante. Na quarta-feira, a ironia do destino fez questão de me dar um tapa: o Dylan tem exatamente a mesma grade de horários que a minha. Puro azar.
Antes, quando namorávamos, eu acharia isso a maior sorte do mundo. Agora? Cada segundo no mesmo ambiente que ele parece uma eternidade arrastada e claustrofóbica. Mas ainda bem que é só um dia na semana.
Hoje, pelo menos, o dia promete um respiro: vou a um jantar na casa do meu avô materno. Estou genuinamente animada. Fazia tempo que não nos víamos, e o abraço dele é sempre um refúgio.
Antes disso, aceitei o convite da Samanta, uma amiga do colégio completamente apaixonada por literatura e cinema. Ela me chamou para ir ao shopping assistir à adaptação de Cinquenta Tons de Cinza. Eu cheguei a hesitar, mas a Sam garantiu que a mãe dela já tinha comprado os ingressos. Como eu precisava desesperadamente distrair a cabeça, acabei cedendo.
Escolhi algo leve: uma regata rosa, um shorts jeans e meu dunk rosa. Prendi o cabelo em um coque frouxo, peguei minha bolsa YSL preta, passei um body splash VS e desci até a área da piscina. Minha mãe estava lá e avisei que já estava saindo e que provavelmente voltaria em três ou quatro horas.
O Agnaldo me deixou na entrada do Barra Shopping. Apenas pisando fora do carro, avistei a Sam perto das portas de vidro, dando pulinhos frenéticos e acenando no ar como se fosse impossível enxergá-la.
— Oi, Sam! — dei um abraço apertado nela, que imediatamente entrelaçou o braço no meu, me puxando para dentro.
— Kath, eu sei que esse filme não é exatamente sutil, mas eu não tô nem aí! Li e reli aquele livro umas mil vezes. Eu sou obcecada pelo Christian Grey, meu Deus, que homem é aquele?! — Dou uma risada fraca, lembrando como a energia da Sam é assustadoramente parecida com a da Celeste.
Entregamos os bilhetes na entrada do cinema e entramos na sala escura. Sam falou que era pra eu ir sentando que ela pegaria as pipocas. Os créditos iniciais já estampavam a tela gigantesca quando vi a Sam subindo os degraus equilibrando uma montanha de coisas nos braços.
— Quanta coisa, Sam! — ri, ajudando a organizar os copos e os pacotes.
Como manda a tradição de qualquer sessão movimentada, tinha uma cabeça gigante exatamente na minha linha de visão. É incrível, parece um ímã: só acontece comigo. Durante o filme, a cada cena mais provocante ou tensa, a platéia prendia a respiração ou soltava murmúrios abafados. A Sam se divertia horrores, jogando pipoca para o alto e rindo da reação das pessoas.
Apesar de todas as críticas clichês que o filme costuma receber, gostei da experiência. A fotografia era bonita, a trilha sonora envolvente e a atmosfera cumpriu o papel de me fazer esquecer a realidade por duas horas.
Na saída da sala, fomos até um café, sentamos e a conversa naturalmente derivou para o Peter. A Sam é completamente apaixonada por ele. Como o Peter me tem como melhor amiga, sei exatamente o que passa pela cabeça dele — o que me obriga a guardar segredo, já que ele vive repetindo que acha a Sam "uma ruiva maravilhosa" e que está só esperando uma brecha para chegar junto, mas não acho que seja de um jeito muito inocente.
Saímos do café e enquanto a Sam engatava um papo com um conhecido que a parou no meio do corredor, decidi entrar numa livraria. O cheiro de papel novo e o silêncio respeitoso dos corredores sempre me acalmam. Eu estava precisando de uma leitura densa, algo que me prendesse de verdade.
Passei os dedos pelas lombadas da seção de clássicos até que uma voz masculina, calma e pausada, soou logo ao meu lado:
— Procurando algo que realmente valha o tempo?
Virei o rosto e dei de cara com um homem de mais ou menos 25 anos, de cabelos escuros alinhados, um charme despretensioso e par de olhos azuis-cristalinos. Ele me encarava com um sorriso de canto de boca sutil, quase debochado, ostentando aquela aura intensa e perigosamente serena que fazia qualquer um ao redor congelar por um segundo.
— Ah... — me enrolei por um segundo, pega de surpresa, e decidi fechar a boca antes que saísse algum som desajeitado.
Ele deu um meio sorriso e se inclinou para puxar um exemplar de capa dura e elegante da prateleira superior.
— O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë — ele disse, estendendo o livro para mim. — É uma obra-prima sobre obsessão, raiva e paixões que destroem tudo ao redor. Se você busca algo visceral, que não pede licença para doer, este é o livro.
Peguei o volume, sentindo o peso da edição em minhas mãos, e encarei a capa antes de levantar os olhos para ele.
— Eu já li — respondi, abrindo um sorriso sutil. — E concordo plenamente sobre o Heathcliff ser uma força da natureza destrutiva... Mas, se estamos falando de paixão e destruição, eu pessoalmente prefiro Anna Karênina. Tolstoy consegue dissecar a alma humana de um jeito que assusta. O final de O Morro dos Ventos Uivantes tenta te dar uma paz que a história inteira recusa, enquanto Tolstoy te entrega o peso exato das escolhas.
O rapaz ergueu as sobrancelhas, surpreso, e um sorriso genuíno e intrigado surgiu em seus lábios.
Deslizei a mão pela prateleira ao lado e puxei outro clássico, entregando a ele:
— O Sol é para Todos, de Harper Lee. Se ainda não leu, deveria. É sobre integridade quando o mundo inteiro está caindo aos pedaços.
— Um clássico irretocável — ele sussurrou, olhando para o livro nas mãos dele e depois para mim, claramente impressionado.
— Exatamente — dei uma piscadinha, me despedindo com o olhar, e caminhei em direção ao caixa.
Quando terminei de passar a compra e caminhava em direção à saída da livraria, senti um toque firme e delicado no meu ombro. Parei e me virei, encontrando novamente o mesmo rapaz.
— Eu sei que pode parecer precipitado... mas posso te chamar para tomar um café qualquer dia destes? — ele perguntou, direto.
Senti minhas mãos tremerem levemente sobre a sacola de papel da livraria. Depois de tantas decepções com garotos imaturos, ver alguém articulado e com gostos similares aos meus me pegou desprevenida.
— Claro — sorri, tentando parecer confiante.
Ele tirou o celular do bolso e digitei meu número. A despedida foi rápida e elegante.
Assim que dei alguns passos pelo corredor do shopping em direção à Sam, o telefone no meu bolso vibrou com uma notificação.
[WHATSAPP - Número Desconhecido]
"A propósito... me chamo Dean."
Olhei para a tela, ajustei os dedos no teclado e respondi no mesmo instante:
"O meu é Katherine... foi um prazer!"
Guardei o aparelho no bolso com um suspiro discreto. Um novo nome, uma nova conversa e um universo literário em comum.
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De Volta ao Começo
RomancePara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
