Capitulo 9 - O Jogo da Culpa

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Caminhei em direção ao carro do Dylan com o coração batendo na garganta. Ele me esperava com a expressão completamente fechada, os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar o volante.

Entrei no banco do carona, depositando um selinho rápido e mecânico em seus lábios, apenas por hábito. Ele mal correspondeu. Assim que bati a porta, ele arrancou com o carro, os pneus cantando de leve no asfalto. Puxei o cinto de segurança, sentindo a atmosfera sufocante dentro daquele veículo.

— Pode começar a me explicar o que foi aquilo no Réveillon! — a voz dele veio carregada de um ódio frio, cortante.

— Não foi nada, Dylan! Já te falei — bufei, tentando manter o tom firme, embora minhas mãos estivessem geladas. Será que era tão difícil acreditar na verdade?

— Não foi nada? — Ele soltou uma risada sarcástica, daquelas que me davam um frio ruim na espinha. — Você estava na cama com outro cara, acha que eu não sei? Eu não nasci ontem, Katherine! — ele gritou de repente, batendo a mão no painel.

Instintivamente, me encolhi no banco, assustada com a explosão. Dylan continuou gritando, descarregando uma enxurrada de acusações infundadas. Mas, à medida que as palavras dele ecoavam, a minha linha de defesa mudou. Uma onda de indignação subiu pelo meu peito. Eu não ia ficar ali, acuada, sendo humilhada por algo que eu não tinha feito — e pior, vindo do cara que realmente estava com outra na noite anterior.

— CHEGA! — gritei de volta, interrompendo o fluxo dele. — Chega, por favor! — Diminuí o tom, respirando fundo para não perder o controle. — A gente conversa com calma em um lugar aberto. E, por favor, não me faça passar vergonha.

Sustentei o olhar até que ele desviou os olhos para o caminho, bufando, mas permanecendo em silêncio pelo resto do trajeto.

Estacionamos em frente ao Gajos D'ouro, um dos melhores restaurantes do Rio. Descemos do carro sem trocar uma única palavra ou olhar. Dylan entregou as chaves do carro ao manobrista, enquanto a recepcionista do restaurante me encaminhava até uma mesa. Dylan seguiu logo atrás, sentando-se à minha frente.

Logo já fizemos o pedido para o garçom e ficamos aguardando. Eu não estava me sentindo nada confortável com ele me olhando com aquela cara emburrada enquanto eu tentava desviar o olhar e me distrair com a arquitetura portuguesa linda que o restaurante tem. Mas refletindo sobre ele ali todo bravo, uma ironia amarga me atingiu: não era para eu ser a pessoa brava daquela relação? Ele me devia explicações reais sobre a garota na linha, mas ali estava ele, tentando inverter o jogo para me colocar como a culpada.

— Eu ouvi a voz de um cara com você... — ele quebrou o silêncio, a voz oscilando. — Quando eu te liguei de madrugada.

— Era o filho de um amigo do meu pai. Ele percebeu que eu estava tensa e só estava brincando, tentando provocar — expliquei, tentando ser o mais convincente possível. E embora fosse a mais pura verdade, dita em voz alta, parecia uma desculpa esfarrapada.

— Conta outra, Katherine — ele desdenhou, soltando mais um riso debochado.

— Dylan, você me conhece! Sabe muito bem que eu não iria perder a minha virgindade com qualquer um, no quarto da minha tia, no meio de uma festa de família! — minha voz saiu firme, cortante. — Você realmente não confia em mim?

— Eu... Kat... — Ele gaguejou, as palavras travando na garganta enquanto ele tentava sustentar a pose de namorado traído.

Olhando para a hesitação dele, uma clareza dolorosa me atingiu. Um relacionamento sem o mínimo de confiança não tinha futuro. Com todas as mancadas que ele já tinha dado, com todos os boatos que eu engoli em seco para proteger o que sentia... eu deveria ter feito aquilo há muito tempo. O egoísmo dele havia esgotado o meu estoque de desculpas.

— Dylan, não dá mais — disparei.

Ele se espantou na hora, me encarando com os olhos arregalados, como se estivesse processando um idioma estrangeiro.
— O quê?

— Desculpa. Acabou — completei.

Fiquei de pé, pegando minha bolsa. Mas, antes que eu pudesse dar o primeiro passo em direção à saída, senti um aperto brusco e firme no meu braço. Dylan me puxou de volta com força.

— Espera aí! — ele sibilou, os olhos injetados. — Você não pode terminar comigo assim.

O movimento abrupto chamou a atenção das poucas pessoas nas mesas vizinhas. Senti os olhares julgadores queimando em minhas costas e congrelei por um segundo, odiando a exposição.

— Não faça isso! — Puxei meu braço com um solavanco brusco, desvencilhando-me do aperto dele, e saí andando em direção à calçada sem olhar para trás.

O ar quente da rua bateu no meu rosto. Peguei o celular na bolsa com os dedos trêmulos e liguei para o Agnaldo.

— Ag, me busca no Gajos, por favor. — Pedi em um fio de voz e desliguei.

Cerca de cinco minutos depois, após pagar a conta do restaurante que nem sequer deu tempo de comer por conta do clima tenso que estávamos. A porta de vidro do estabelecimento se abriu e Dylan cruzou a calçada, caminhando a passos largos na minha direção. Mas a raiva dele tinha sumido. Sua expressão agora era de puro desespero.

— Por quê? — ele perguntou, parando bem na minha frente. — Você vai estragar tudo o que a gente construiu por causa de um mal-entendido?

Ele estendeu a mão, tentando tocá-la na minha nuca, naquele gesto familiar de carinho, mas eu recuei e o empurrei de leve pelo peito, estabelecendo uma barreira.

— Kat, não faz isso comigo, por favor! — Lágrimas reais começaram a transbordar dos olhos dele, escorrendo pelo seu rosto.

Meu coração fraquejou por um segundo. Não posso ficar com dó. Não posso ceder agora, repeti mentalmente, travando uma batalha interna contra os meus próprios sentimentos.

— Katherine? — A voz dele falhou, saindo completamente rouca, um sussurro quebrado.

Antes que eu pudesse processar, ele deu um passo à frente e me envolveu em um abraço desesperado. Dylan enterrou o rosto na curva do meu pescoço, e os seus ombros começaram a tremer pelo choro pesado. Instintivamente, quebrando minha própria armadura, meus braços subiram e eu comecei a acariciar os cabelos dele, sentindo o cheiro do seu perfume, que eu amava e conhecia tão bem.

— Não faz isso comigo... — ele soluçou contra a minha pele, me apertando com tanta força que quase me faltou o ar. — Não termina, por favor! Eu te amo, Kat... Eu te amo! — ele sussurrou, destruído.

Fechei os olhos com força, sentindo uma lágrima solitária escapar dos meus. Aquelas palavras, vindas dele naquele momento, estilhaçaram o resto da minha estabilidade. Eu não sabia o que fazer, não sabia como reagir àquela vulnerabilidade tão crua.

— Shhh... — foi a única coisa que consegui pronunciar, tentando acalmá-lo, até que os faróis do carro do Agnaldo iluminaram a calçada, parando junto ao meio-fio.

O sinal de resgate havia chegado.

— Tenho que ir, Dylan — murmurei, reunindo cada gota de firmeza que me restava.

Afastei-me gentilmente do abraço, quebrando o contato físico. Inclinei-me e depositei um último beijo, demorado e triste, na bochecha dele, sentindo o rastro salgado de suas lágrimas.

— Tchau... — sussurrei, dando as costas e caminhando a passos rápidos até o carro antes que eu mudasse de ideia.

Abri a porta e me joguei no banco de trás. Agnaldo deu a partida imediatamente, afastando-se da guia. Olhei pelo vidro traseiro e vi a silhueta do Dylan diminuir na calçada, ainda parado no mesmo lugar, chorando sob a luz dos postes.

Encostei a cabeça no banco e limpei o rosto. Seja forte, Katherine. Ele vai superar. E você também.

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora