Capitulo 5 - Viva-Voz

784 49 2
                                        

Olhei para a tela brilhando na palma da minha mão. A foto do Dylan piscava ali, parecendo um fantasma do meu passado recente. Atendia ou não? Meu estômago deu uma volta completa. Desviei os olhos para Steven, que parecia subitamente interessado no nada, encarando a escuridão do lago para me dar privacidade.

Respirei fundo e deslizei o dedo pela tela.

[CHAMADA ON]

— Dylan? — Minha voz saiu um pouco mais trêmula do que eu gostaria. Apertei o ícone do viva-voz de imediato, querendo que o som preenchesse o espaço entre Steven e eu.

— Oi, amor! — A voz dele veio arrastada, nitidamente embriagada. O som de música abafada ecoava ao fundo.

— Onde você está? — perguntei, fingindo uma ignorância que já não me pertencia mais.

— Ah, estava com uns amigos só... Agora já estou em casa — mentiu descaradamente.
Ao meu lado, Steven revirou os olhos com uma expressão de puro tédio masculino.

— Ah, é? E foram para onde? — Uma pontada afiada de sarcasmo escapou no meu tom.

— Estávamos no Lucas, querida! — Ele soltou uma risada abafada de alguma piada interna e, logo em seguida, sussurrou um "xiu" apressado para alguém perto dele.

— Dylan, quem está aí com você? — Meu rosto começou a queimar. A raiva subia pelo meu pescoço como fogo.

Steven virou o rosto na minha direção. Seus olhos azuis me avaliaram e ele moveu os lábios, moldando em silêncio as palavras: "Precisa de ajuda?". Neguei com um aceno curto de cabeça, querendo resolver aquilo sozinha.

— Com ninguém, amor! — Dylan continuou rindo, aquela risada sonsa que eu costumava achar charmosa. Mas o som seguinte cortou o ar como uma faca: um gemido feminino, baixo, mas perfeitamente audível através do alto-falante.

— Dylan... o que foi isso? — Minhas mãos congelaram. A raiva agora era absoluta, fria e cortante.

— É... é um filme, amor! — Mais uma mentira desleixada.

Antes que eu pudesse gritar, Steven se inclinou um pouco na minha direção. Com uma voz alta, clara e perfeitamente modulada para soar íntima e possessiva, ele disparou contra o microfone do celular:
— Volta para a cama, Kat.

O silêncio do outro lado da linha foi instantâneo e ensurdecedor.

— Katherine! — A voz do Dylan mudou em um segundo. O tom embriagado sumiu, substituído por uma rigidez dura. — Katherine, o que foi isso? Quem está aí?

Steven soltou uma risada alta e deliberada, garantindo que o som viajasse direto pelo aparelho. No mesmo instante, uma voz feminina, manhosa e irritada, ecoou do lado do Dylan: "O que houve, Dy?".

— Katherine, onde você está?! — ele exigiu, e ao fundo a garota insistiu: "Está indo para onde, Dy?".

— Não foi nada, Dylan — minha voz falhou por um milésimo de segundo, enquanto a tremedeira tomava conta do meu corpo. — Dylan, eu vou desligar, tá?

— Não! Eu estou indo te v...

Não o deixei terminar. Apertei o botão vermelho com força, cortando a voz dele no meio da palavra.

[CHAMADA OFF]

O silêncio voltou a reinar à beira do lago, quebrado apenas pela minha respiração arfante.

— Ele está te traindo na sua cara — Steven quebrou o gelo, a voz agora completamente séria, sem o deboche de antes.

— O que foi isso? — Me virei para ele, o peito subindo e descendo. — Por que você falou aquela besteira no meio da minha ligação?

— Você viu como ele ficou? — Steven arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Lógico que vi! — respondi, irritada. — Ele agora está super bravo.

— Errado — ele soltou um riso curto, balançando a cabeça. — Seu namoradinho ficou com ciúmes. Enlouqueceu de ciúmes.

— Ele estava com outra garota, Steven! — A realidade do que tinha acabado de acontecer me atingiu como um soco no estômago. Desabei de volta no banco e enterrei o rosto nas mãos, sentindo as primeiras lágrimas quentes finalmente escaparem.

— Correto — a voz de Steven suavizou.
Ele se aproximou um pouco mais. Senti o peso do corpo dele deslocar o banco de madeira. Com uma lentidão cuidadosa, ele estendeu a mão e começou a acariciar meus cabelos de um modo surpreendentemente carinhoso. Não havia segundas intenções ali, nenhum toque malicioso; era apenas um conforto genuíno.
— Vocês já transaram? — ele perguntou de repente.

Ergui a cabeça num sobressalto, fitando-o com os olhos marejados e indignados.

— Que indelicado! — protestei. Mas ele não desviou o olhar, apenas esperou, com uma paciência firme. Bufei, escondendo o rosto nas mãos outra vez. — Não.

— Você é... virgem? — O tom dele mudou de novo, tornando-se mais brando, quase amigável, despido de qualquer julgamento.

— Não interessa! — bati com as palmas das mãos nas minhas próprias pernas, frustrada com a vulnerabilidade exposta.

— Você é virgem — ele afirmou, não como uma provocação, mas como quem junta as peças de um quebra-cabeça.

— E daí? — perguntei, a voz embargada, olhando para ele através do borrão das lágrimas.

— Katherine, o idiota do seu namorado quer o que você não pôde dar para ele ainda... sexo. É só isso. E por ele não poder te respeitar e esperar você estar pronta, ele é um completo idiota!

— Podemos parar de falar sobre sexo por um minuto? — pedi, minha voz saindo rouca, gasta pelo choro contido.

Steven não respondeu com palavras. Em vez disso, ele deslizou a mão pela minha perna e segurou os meus dedos trêmulos, envolvendo-os com a sua palma quente e firme. Eu apertei a mão dele de volta. Aquele toque me trouxe um conforto absurdo... muito mais do que eu jamais esperaria receber de um quase desconhecido no meio da madrugada.

De Volta ao Começo Histórias para pegar e não largar. Descubra agora