5: O Gaúcho

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Capítulo 5
O Gaúcho


A luz da manhã que entrava pela janela que deixara aberta na noite anterior e o cheiro do café vindo de fora do seu quarto, o acordaram. Uma voz o chamava também à porta e quase não conseguiu responder com um resmungado até que sua visão se acostumasse com o clarão do sol. A brisa leve entrava balançando as cortinas e o calor já irradiava lá fora, perceptivelmente. Percebeu que já devia ser tarde da manhã e se permitiu ignorar mais uma vez o chamado através da porta, apenas para sentar-se a cama e coçar os olhos, com um bocejar em seguida.

Os músculos magros do corpo doíam e há muito tempo não se via cansado a ponto de ter uma noite longa de sono, após um dia movimentado. A última fora quando se propôs a treinar com sua espada. Já havia até esquecido onde ela estava, desde que assumira o posto ao lado de seu tio, pouco antes de seu pai sumir.

— Joaquim! — chamou a voz novamente, com um bater na porta.

— Estou vivo, tio. — disse de volta. — Já estou indo.

Joaquim descobriu o corpo, vestido apenas pela roupa intima, dos lençóis finos e sentou-se à beira da cama espaçosa e macia, pisando no chão amadeirado de cor clara e levantou. Caminhou até a janela e observou além dela a paisagem seca, com poucos traços verdes até o horizonte que se perdia em montanhas e nuvens distantes. Havia se perdido em pensamentos ali antes de dormir. Coisas que a muito não pensara estavam voltando a mente.

Passou a mão no cabelo agora mais ondulado e bagunçado pelo sono, se distanciou e andou pelo cômodo espaçoso. Os poucos móveis eram de cor clara e as poucas tapeçarias eram escuras, em contraste, em um tom mais escuro que a madeira do chão.

Caminhou até a área de banho que consistia em um biombo escuro, com toalhas penduradas, a banheira de madeira e a água, que sempre estava limpa, além dos sais de banho que caracterizavam seu cheiro: lavanda doce e ipê-roxo.

Despiu-se da única peça que vestia e deitou-se a banheira, permitindo relaxar o corpo levemente dolorido.

O dia anterior havia sido completamente diferente do habitual. Não que seus dias fossem tão diferentes dos dias que não saía de seu quarto e lia mais uma vez, O Gaúcho, seu livro favorito, além de conversar com seu tio na varanda, o aconselhando ou observando o trabalho dos escravos sendo regido pelos guardas. Mas há três semanas, com a chegada de novos escravos e o crescimento das notícias sobre tais fugitivos que se intensificaram há um ano atrás, seu tio havia pedido para que o ajudasse com eles, já que tinha em mente a viagem para a capital em busca de ajuda para a seca.

Há algum tempo a província do Ceará não recebia mais escravos vindos de fora e os que fugiam para lá podiam ser libertos. A seca afetou até os mais ricos, que se viram sem condições de manter o alto custo de vida e os escravos em suas fazendas. Isso facilitava a fuga de muitos para outras províncias. Foi quando a capital da província, Fortaleza, não estava mais suportando todos que chegavam lá e a única saída para não deixar a capital se afogar em refugiados fora monitorar as fronteiras do estado. Fazendo acordos com outros fazendeiros próximos, iriam abrigar os povos que chegavam não como escravos, mas como trabalhadores, pagos com a comida, pelo menos até a seca acabar, gerando assim um novo tipo de economia e uma resistência a escravidão.

Joaquim não havia mentido para Victhana aquela noite em que a conheceu, mas não contou sobre o que já conhecia dela e também não era mentira que havia, de alguma forma, simpatizado com ela, mas havia mais que isso. Ela tinha se saído bem com as palavras e não usou nenhuma delas para ofendê-lo. Conversar com ela, deixar que ela vesse a lua, não fazia parte apenas da confiança que estavam gerando para com os outros escravos, mas fazia com que lembrasse de sua mãe; do quão boa ela foi para os escravos.

A Primeira ImperatrizHistórias para pegar e não largar. Descubra agora