Aquela Noite - Capítulo Especial

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⚠️ Aviso: Esse capítulo é apenas uma ideia que tive e quis escrever, lembranças da Emily. Não interfere no curso da história então sinta-se à vontade se quiser pular! Alerta de referências de outra fanfic.


Distrito de Liberio, 844.

Quando minha garganta se cansa de gritar, decido aceitar a dor calada nos braços de Reiner, encarando seu rosto apreensivo e tentando me atentar aos pequenos flocos de neve que se acumulam em seu cabelo loiro, iluminado pelo brilho dourado das lâmpadas dos postes enquanto caminha o mais rápido que pode para algum lugar que não tenho a menor ideia de onde é, apenas sei que estamos indo para longe do meu pai e isso me é o suficiente.

A memória falhada dos chutes e socos que foram disferidos contra mim ainda se faz nítida em seus fragmentos tanto quanto a dor aguda que se espalha pelo meu tronco em decorrência das costelas provavelmente quebradas, assim como meu braço, que fora entortado em ângulos que com certeza não deveria e agora está pendurado debilmente ao lado do meu corpo que balança com os passos de Reiner, as pontas dos meus dedos dormentes pelo frio e também pela dor.

— Estamos chegando, tente ficar acordada. — Escuto sua voz como um aviso assim que sinto meu corpo ficar mais pesado e me mantenho consciente, mesmo que sem forças para perguntar a ele onde estamos quando Reiner sobe uma escada de madeira até uma porta simples no primeiro andar de uma casa.

As batidas que Reiner dá na porta com o pé ecoam em meus ouvidos como tambores e minha visão embaçada capta uma luz forte vinda de dentro quando uma mulher nos atende, dando espaço de imediato para que Reiner entre. O cheiro de álcool me deixa brevemente inebriada e não consigo manter meus olhos abertos quando me sinto ser colocada sobre uma maca. Ambas as vozes que falam comigo ficam cada vez mais distantes e os borrões que eu enxergava há pouco são as últimas imagens em minha mente antes de desmaiar.

Quando acordo, olho ao redor confusa para encontrar um quarto de enfermaria, simples e pequeno como um cubículo, apenas a cama no centro do cômodo, de frente para uma janela pequena com as cortinas entreabertas, me permitindo enxergar que ainda é noite lá fora. Tento erguer o tronco, voltando a me deitar ao sentir meu corpo inteiro doer e meu braço imobilizado com gesso não me ajuda em muito.

— Você acordou. — A voz de Reiner soa baixo ao meu lado e só então o vejo ali, sentado em uma cadeira que não parece ser nem um pouco confortável, tendo acabado de despertar de um cochilo. — Como se sente?

— Dolorida. E com sede. — Digo a ele, sentindo de imediato minha garganta seca, que faz minha voz sair rouca.

Reiner se coloca de pé em prontidão, ainda usa seu uniforme e a braçadeira vermelha parece brilhar em seu sobretudo enquanto ele serve para mim um copo de água da jarra acima do criado mudo. Ele apoia minhas costas com uma das mãos e ajeita um travesseiro contra a cabeceira, ajudando-me a sentar antes de entregar a mim o copo, que levo à boca imediatamente, suspirando aliviada ao sentir a água fresca descer pelo meu esôfago.

— Onde estamos? Aqui não é a enfermaria do quartel. — Pergunto a ele, encarando os olhos âmbar que me vigiam com preocupação. — O que aconteceu, Reiner?

— Escutei gritos vindos da sua casa. — O loiro suspira e desvio o olhar para dentro do meu copo, encontrando o reflexo fraco do meu rosto brevemente arranhado sobre a água que ainda está no findo do copo. — Estava muito machucada, quebrou algumas costelas e o braço... A trouxe para cá porque é uma médica de confiança. Estamos perto de Liberio, mas do lado de fora dos portões.

Por um instante, penso que vou engasgar com a água que acabo de beber e afasto o copo, olhando para Reiner com os olhos arregalados. Quero estar o mais longe possível do meu pai, mas fugir de Liberio e correr o risco de ser morta apenas por isso não me parece justo.

— Reiner! Nós podemos... Se alguém nos vir, nesse horário...

— Não se preocupe, ninguém os viu e não vou os entregar. — A voz feminina vem da porta entreaberta, que revela a figura de uma mulher mais velha que passa entre a abertura, um jaleco não muito branco cobre seu corpo e o cabelo grisalho está muito bem arrumado, apesar do horário. — Como está se sentindo.

— Estou... — Começo a responder, parando para prestar mais atenção em sua figura, não encontrando em seu rosto nenhuma cicatriz, nem sequer olheiras. Em seus braços não há nada como o tecido amarelo preso ao meu ou o vermelho na roupa de Reiner. Inclino minha cabeça para o lado. — Quem é você?

A mulher sorri fraco e caminha até próximo da cama, olhando para mim mais de perto. Reiner se senta novamente em sua cadeira e faz um gesto com a cabeça para que eu ouça o que a mulher tem a dizer quando busco seus olhos, confusa.

— Meu nome é Angela, sou médica. Cuidei de você quando seu amigo a trouxe aqui.

— Mas você é...

— Eu sei. — Ela sorri novamente, coçando a nuca em seguida. — Já faço isso há algum tempo, conheci Reiner algumas semanas atrás, disse que ele poderia me procurar se tivesse problemas. Não acho certo a forma que são tratados.

Para mim, isso não parece ser nada além de uma grande piada. Uma mulher como aquela, ajudar eldianos por acreditar em justiça? Não, não faz sentido. Enquanto a escuto dizer que devo ficar em repouso e tomar analgésicos apenas quando necessário além de me alimentar bem, penso se ela poderia ter ajudado a minha mãe e lamento por não ter a conhecido antes. Engulo a seco quando ela termina e se despede com um aceno breve de cabeça, pedindo que eu durma mais um pouco.

Me viro para encarar Reiner, que me observa atento.

— O que foi isso? — Pergunto baixo, me inclinando um pouco na direção do loiro. Reiner se senta na beirada da cama, também se aproximando.

— Angela nos ajudou com Gabi outro dia, ela também conhece Marcel. É o que ela faz, nunca nem nos questiona quando aparecemos machucados. — Ele dá uma risada fraca. — Parece surreal.

— Me pergunto se ela... Poderia ter curado a minha mãe. — Murmuro quase sem pensar. Reiner desvia os olhos dos meus imediatamente e se levanta, contornando a cama para o lado esquerdo, onde meu braço não está quebrado. — Você quer se sentar?

Mesmo sem esperar uma resposta, Reiner sorri quando me movo um pouco para o lado assim que ele se senta comigo. Suspiro alto ao encostar a cabeça em seu ombro, sendo acometida por uma vontade súbita de chorar, não resistindo e deixando as lágrimas silenciosas saírem, sem a necessidade de dizer nada a Reiner, que sabe melhor do que qualquer pessoa o motivo das minhas lágrimas. Seu braço me envolve de forma protetora e ele deixa um afago breve em meu cabelo, me fazendo sorrir fraco diante de seu gesto.

Não é um segredo para ninguém que somos próximos, não depois de tantos anos nos defendendo e nunca saindo do lado do outro. É nítido para qualquer um que há algo aqui, entretanto, me recuso a dizer em voz alta, assim como ele.

— Obrigada, Reiner. — Digo em um fio de voz sem o olhar. — Se você não tivesse aparecido eu poderia estar...

— Não diga isso. — Ele me interrompe rápido, tirando algo de seu bolso em seguida. — Se lembra desse dia?

A foto com as pontas gastas me faz sorrir de imediato, a lembrança do último festival onde fomos juntos, fotografados após trapacear em todos os jogos possíveis só para ganharmos os melhores prêmios. A lâmpada acesa atravessa o papel e consigo ver algo rabiscado no verso.

— Tem algo escrito ali, o que é? — Aponto, tentando alcançar a foto. Reiner a tira de meu alcance e guarda novamente em seu bolso no mesmo instante. — Ei!

Ele dá uma risada fraca, sabendo como posso ser curiosa.

— Vai saber o que está escrito ali no momento certo, Emily. — Reiner suspira. — Agora durma.

Surrender I Reiner BraunOnde histórias criam vida. Descubra agora