Eu não havia pregado o olho durante toda a noite.
A ansiedade, curiosidade, felicidade e os outros inúmeros sentimentos que me rondavam desde a manhã passada estavam me impedindo de ter um sono tranquilo, e era por isso que eu estava de pé em frente a janela do quarto, olhando o sol desabrochar no céu.
Os meus pensamentos estavam a mil —gravidez, casamento surpresa, saudades de Caíque, das minhas filhas e todos os acontecimentos que Catharina me relatou detalhadamente.
O primeiro deles era que Marcus Avellar estava morto. Ele mesmo tinha tirado sua vida. Tinha apertado o gatilho que, nos nossos desejos mais secretos, sempre sonhávamos em apertar. Finalmente, ele não estava mais nesse mundo para atrapalhar a felicidade dos seus filhos e daqueles que o rodeavam. Finalmente, nós estávamos livres.
Uma pontada de felicidade me cutucou o coração.
Era errado, eu sabia. Estar feliz por alguém ter tido uma morte tão trágica era um pecado sem tamanho, mas eu não poderia deixar de me permitir aquela transgressão.
Todo o meu corpo estava marcado por Marcus e suas maldades. Por toda a minha alma tinha cicatrizes que ele deixou. Era mais do que justificável que eu sentisse o que estava sentindo, e eu não iria me culpar por aquilo. Eu merecia aquela felicidade pequena por ele não estar mais aqui. Eu merecia aquele sentimento de paz, depois de tudo.
O segundo era que Pedro e Dâmia estavam presos pela metade de suas vidas. Não haviam mais chances para se safarem. Dessa vez, eles pagariam por todos os seus pecados. Pecados esses que se tornaram pesados e escandalosos demais para continuarem sendo carregados e escondidos em bolsos.
A justiça tinha tardado, mas não falhou em nenhum momento quando chegou, e mesmo que eu estivesse aliviada por não ter mais guerras para travar contra os meus monstros, eu não podia me sentir feliz com aquilo.
Pedro era meu pai, e mesmo que minha memória só o tenha registrado sendo agressivo, cruel e malicioso, eu não podia me sentir bem sabendo que a vida dele estava condenada a uma cela na prisão. Ele me deu a vida, mesmo que, por muitas vezes, tenha tentado tirá-la.
E Dâmia... Eu não podia impedir que cada fibra do meu corpo gritasse em êxtase por ter a a confirmação de que eu estava certa o tempo todo e ela, era sim, uma pessoa má e sem escrúpulos, mas também não podia impedir que a realidade batesse á minha porta. A verdade era que a culpa de Dâmia ter enlouquecido era minha. Ela era uma garota perfeitamente normal antes que eu aparecesse em sua vida e destruísse o seu castelo de sonhos.
Fui eu quem tirei Caíque dela e fui eu quem mostrei que o amor que todos acreditavam que ele sentia por ela nunca existiu. Eu acabei com seu namoro de conto de fadas e de bandeja com a sua sanidade.
Aquela mulher preenchida pela loucura e crueldade era uma culpa que eu ia carregar pro resto da minha vida.
Fechei os olhos com força, tentando afastar todos aqueles fantasmas de perto de mim. — Eu não queria mais pensar neles. Aquilo exigia toda a minha força interior e ela estava guardada para outras situações que apareceriam ao longo da minha vida, e que mereciam o meu tempo.
Dâmia, Pedro e Marcus eram um passado que eu não queria mais remexer. Ambos e todo o sofrimento que suas figuras representavam eram um capítulo finalizado da minha vida. Era hora de, não só virar a página, mas sim, começar um livro novo.
Um livro que começava com Caíque e nossa família de volta, e se Deus permitisse, com mais um integrante que chegaria em nove meses para completar o nosso ciclo.
Um sorriso brotou naturalmente nos meus lábios ao pensar naquela possibilidade — nesse exato momento, eu poderia estar gerando mais uma sementinha de Caíque. Mais um fruto do nosso amor.
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Romeu e Julieta
RomantizmPassaram-se dez anos desde da tragédia que marcou para sempre a vida de Caíque e Sophia. Se apaixonaram quando eram adolescentes mas suas familias nunca aceitaram o amor dos dois, fazendo com que se rebelassem e tentassem de todas as formas ficarem...
