Capitulo XIV - Sophia

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"A confiança que temos em nós mesmos, reflete-se em grande parte, na confiança que temos nos outros."  – François La Rochefoucauld 


Mãos me agarrando, dor para todos os lados, medo, desespero, agonia... 
Acordei sobressaltada, sentando-me tão rápido que a tontura me atingiu em cheio. Minha respiração estava ofegante, meu corpo estava suado, mas eu não o sentia quente, ao contrário, ele estava completamente gelado. 
Foi um pesadelo, disse a mim mesma. Apenas um pesadelo... 
Um pesadelo que há pouco tempo era real...

- Amor... – aquela voz que era música para os meus ouvidos ecoou pelo quarto, me fazendo vasculhar toda a extensão á procura do amor da minha vida. Ele estava parado perto da grande janela de vidro do que eu pude perceber ser um quarto de hospital com o rosto contorcido de dor. Fechei e abri os olhos, testando se aquilo era real ou apenas mais um pesadelo que a qualquer momento poderia transformar o homem que eu mais amava no mundo em um dos monstros que me destroçaram. 
– Caíque, – minha voz saiu áspera, minha boca parecia estar cheia de serragem, tão seca quanto um deserto. – preciso de água. 
Ele moveu-se com cuidado para perto de mim e agachou-se, abrindo uma pequena porta que revelou-se ser a de um frigobar. Tirou uma garrafa de água e me estendeu, ainda mantendo distância. 
Olhei-o confusa, tentando compreender o por que dele estar tão longe quando eu precisava dele perto. Será que eu estava tão feia á ponto de provocar nojo? Meu rosto estava desfigurado? Ele estaria tão bravo comigo que não poderia chegar perto? Ele teria razão sobre isso. Eu merecia um sermão daqueles por ter escondido dele aonde trabalhava e por ter permanecido naquele emprego mesmo sabendo dos riscos. 

Não era de hoje que eu sentia os olhares dos homens do bar mais aguçados sobre mim, mas ignorei todos os meus sinais de alerta. Intimamente eu sabia que aquilo iria acontecer algum dia... As cantadas tornaram-se cada vez mais frequentes, as tentativas de me agarrar seguiam o curso e eu podia sentir o desejo deles. Eu deveria ter sido mais esperta, deveria ter tentado arrumar outro emprego ou conseguido alguns bicos por fora até que eu me estabilizasse em outro lugar, mas como sempre o meu orgulho falou mais alto e dessa vez tinha ido longe demais. 
Longe o suficiente para eu estar deitada em uma cama de hospital com dores em todas as partes do meu corpo e com a minha barriga latejando. 

Puxei o ar com força para dentro dos pulmões quando senti que ia começar a me desfazer em mil e um pedaços pequenos. 

- Por favor, me abrace – senti meus olhos marejarem ao olhar para o seu rosto lindo carregado de agonia e desespero. Ele me encarou por mais alguns segundos e caminhou até a mim, sentando ao meu lado na cama e me envolvendo cuidadosamente em seus braços. Todo o seu cuidado para não me machucar não surtiu muito efeito... Meu corpo protestou ao seu aperto leve e um gemido de dor escapou pelos meus lábios. 
- Desculpe. – sussurrou, me libertando dos seus braços e passando uma das mãos pelos cabelos, bagunçando-os. Ele tinha aquela mania desde jovem... Quando estava nervoso, triste, magoado, confuso, quando sentia algo que o incomodava ele passava as mãos pelos cabelos com força e aquilo denunciava para quem o conhecia bem que ele estava sofrendo.
- Não, me desculpe você – eu sussurrei, meus lábios colando um ao outro, minha boca cada vez mais seca. Tentei abrir a garrafa, mas minhas mãos pareciam duas massas moles sem vida. Tentei mais algumas vezes, a frustração de toda uma vida me assolando cada vez mais, trazendo á tona lágrimas e mais lágrimas que escorriam pelo meu rosto desesperadamente. 
- Deixe que eu abro pra você – ele retirou a garrafa da minha mão e com um movimento único abriu a tampa azul, me entregando logo depois o líquido que eu mais desejava no mundo no momento. 
Bebi a água sofregamente em apenas três goles. Respirei fundo, apreciando a sensação de estar bem hidratada e tentando controlar todos os sentimentos que explodiam dentro de mim, me carregando para baixo. Eu precisa pedir desculpas para ele por tudo isso, precisava amenizar, nem que fosse apenas um pouco, a dor que estava espelhada nele. 

Romeu e JulietaOnde histórias criam vida. Descubra agora