Havia passado uma semana que Sophia estava internada no hospital. O médico tinha me dito que ela ficaria por ali mais alguns dias até que seu corpo estivesse completamente recuperado das pancadas e queimaduras, e só então poderia levá-la para casa. Portanto eu cuidava de todos os detalhes para que ela ficasse confortável, fosse bem alimentada e se sentisse segura de todas as formas possíveis. Intercalava o meu tempo entre ela e nossa filha, tentando ao máximo dar atenção para as duas partes já que ainda não podia uni-lás.
Passava todas as noites com ela desde que a deixei para dormir sozinha quando Anabelle começou a senti-se mal e ter febre, e ela teve um ataque de pânico criado pelos pesadelos que a assolavam.
Apesar de tudo estar correndo bem durante a sua estadia no hospital, eu odiava vê-la presa á uma cama, sem poder fazer todas as coisas que ela gosta. Sophia tinha a síndrome da "barata tonta" – andava de um lado para o outro, arranjando coisas atrás de coisas para organizar e quando não havia nada, ela mesma bagunçava só para colocar no lugar – e estava espelhado no rosto dela que estava tão agoniada á ponto de explodir.
Eu tentava de todos os modos fazê-la ficar quieta para que se recuperasse logo e pudéssemos ir para casa, mas todas as vezes em que eu chegava á noite lá estava ela agachada com uma bucha na mão esfregando a pia do banheiro ou lustrando os móveis brancos do quarto. Tinha vontade de matá-la pois todo aquele esforço que ela teimava em fazer só piorava a situação do seu corpo debilitado. As dores nas costelas e nos braços, que foram brutalmente apertados e esticados, tornavam-se insuportáveis de madrugada pelos exercícios proibidos que fazia ás escondidas.
Eu sabia que não podia julgá-la por estar desesperada por alguma coisa que ocupasse seus pensamentos... Ela só estava procurando uma válvula de escape disponível já que eu neguei – com muito sofrimento – ser seu passatempo sexual por causa do seu estado físico.
Aquilo estava me deixando louco... Não poder fazer nada para que ela se recuperasse o mais rápido possível ou apenas apagar todo o acontecido. As várias opções de como eu poderia ter evitado tudo aquilo passavam pela minha cabeça á todo momento, me punindo e me culpando pelo sofrimento da mulher que eu amava.
Se eu não tivesse saído no meio da noite de seu apartamento com certeza ela teria ficado na segurança dos meus braços em vez de entrar de novo naquela espelunca maldita, ou se eu tivesse ligado logo que cheguei ao hotel, acomodei Anabelle e Ellen, eu teria percebido que ela escondia alguma coisa de mim e faria com que ela me contasse... Eu poderia ter evitado todo aquele sofrimento se não tivesse colocado o egoísmo e a ansiedade em primeiro lugar.
Eu estava com tanta raiva... Tanta raiva... De mim, da minha estupidez, da falta de confiança dela em mim... Eu me sentia tão responsável por tudo aquilo como os homens que apodreciam na cadeia.
No momento em que meu celular tocou no dia em que tudo aconteceu estava com Anabelle no colo me contando sobre o jardim enorme que tinha na sua outra casa e tive que disfarçar o quase-infarto fulminante quando a voz do oficial André tomou o lugar da de Sophia. Ele me contou com a maior calma possível tudo que tinha acontecido e disse que meu número era o primeiro e único da discagem rápida do celular. Meu corpo inteiro começou a tremer e minha aparência não tinha ficado a melhor possível já que Ellen correu para pegar uma garrafa de água no frigobar e saquinhos de açúcar.
Sai do apartamento tentando aparentar calma para não assustar ainda mais a pequena garotinha de olhos arregalados que espelhavam exatamente como eu estava imaginando estar os olhos de sua mãe. Deixei Ellen cuidando do meu pequeno teusouro loiro e com um cartão de crédito para que comprasse o que quisessem enquanto eu estivesse fora e parti para o hospital tão rápido que provavelmente receberia uma centana de multas.
Quando cheguei ao hospital e o médico não me deixou vê-la de imediato quase o espanquei todinho e passei por cima do seu corpo a passos fortes. Pobre homem... Ainda tinha medo de mim depois de uma semana inteira onde eu tentei reparar os meus erros.
Entrei no quarto de hospital depois de muita gritaria e escândalos de Catarina e a vi estirada em um colchão coberto por um lençol branco toda machucada. Seus braços, pernas e rosto estavam coloridos por grandes bolas roxas e seu corpo parecia uma massa sem vida. Entrei em pânico, meu cérebro dóia ao tentar filtrar todos os sentimentos que passavam por mim e principalmente, tentando apaziguar a raiva homicída que estava tomando todo o meu ser.
O médico entrou logo em seguida, gaguejando a situação da minha mulher e quando me disse que sua barriga estava com queimaduras de terceiro grau por que os filhos da puta a queimaram com cigarros, eu terminei de surtar por completo. Sai do quarto e do hospital sem dar explicações á ninguém e liguei para Maxuel avisando que era para ele começar a se mover por que eu estava prestes a cometer vários assassinatos. Depois telefonei para Jared, meu segurança fiel e roubado do exército americano, e mandei que ele me encontrasse na delegacia mais próxima do bar Jack's no Rio de Janeiro.
Foram horas de pressão e ameaças em cima dos policiais até que eles me permitiram visitar a cela dos malditos que atacaram Sophia. Descontei toda a minha raiva na cara e no corpo de cada um deles... Chutei e soquei sem parar, e um deles sofreu até mais. Ele estava rindo da situação, tinha um brilho nos olhos doentio e obsessivo e eu tive a certeza que fora ele que começou com tudo aquilo.
Fiz questão de deixar a minha marca no rosto dele e me certifiquei que ficaria ali para sempre, assim como as marcas dele ficariam no corpo e na alma de Sophia.
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Romeu e Julieta
RomancePassaram-se dez anos desde da tragédia que marcou para sempre a vida de Caíque e Sophia. Se apaixonaram quando eram adolescentes mas suas familias nunca aceitaram o amor dos dois, fazendo com que se rebelassem e tentassem de todas as formas ficarem...
