Dedicado a Bianca, por ter feito todos da minha casa surtarem de felicidade pela sua pequena e linda descrição de Romeu e Julieta no seu blog. Obrigada, de coração. Eu poderia te amassar em um abraço de urso por isso. ♥
O cheiro podre de mais um dia de trabalho servindo mesas de bêbados e drogados, suados e fedidos, estava impregnado nos meus cabelos. Respirei profundamente o ar que soprava ao lado de fora, tentando puxar para dentro dos pulmões o máximo de oxigênio puro que conseguia.
O meu expediente tinha acabado há dez minutos e eu nunca fiquei tão feliz em sair de um lugar quanto como ficava quando o dia dentro daquele bar acabava. Não via a hora de finalmente conseguir um trabalho e ir embora sem nem olhar para trás.
Por mais que amasse Jack e sentisse pena pelo seu estado, o asco que sentia por aquele lugar era maior e desesperador.
Ajeitei a bolsa no meu ombro e comecei a andar para o ponto de ônibus mais próximo. Meus pés estavam amassados e magoados, implorando por socorro dentro da sapatilha que há muito tempo estava pequena, mas que era uma das únicas opções que tinha. O salário do bar e dos "bicos" que fazia por fora mal davam para pagar o aluguel e para comida, quanto mais para comprar sapatos novos.
Suspirei pesarosa, ao pensar que toda essa dificuldade poderia ter sido evitada se eu não tivesse me rendido as chantagens e ameaças do meu pai. Eu tinha passado para três faculdades muito boas e hoje, estaria formada em medicina e com certeza trabalhando em algum hospital, ajudando muitas pessoas e com um salário muito, muito bom.
Meu pai foi egoísta e possessivo comigo a minha vida inteira, e eu nunca entendi o que era tudo aquilo. Eu sempre fui uma boa filha, obediente e educada, nunca dando motivos para desconfiar de mim, mas nada daquilo parecia ter algum valor para ele.
Lembro-me bem quando contei para todos, em um dos nossos jantares aos domingos com nossa avó materna, que tinha passado nas provas das faculdades com ótimas notas e ganhado bolsas de cem por cento em cada uma. Minha mãe me parabenizou, assim como todos, me abraçaram e me beijaram, todos orgulhosos, menos o meu pai. Nunca o vi com tanto ódio e tão descontrolado. Em um acesso de fúria, ele derrubou a pequena mesa de jantar que tínhamos e quebrou alguns enfeites de vidro que ficavam na mureta que dividia a cozinha da sala.
Aquele dia apanhei tanto que tive que usar roupas compridas por duas semanas para cobrir as marcas roxas que insistiam em permanecer grudadas ao meu corpo.
Encostei em um poste de luz desgastado com o tempo, onde havia uma placa avisando que era proibido estacionar ali, esperando o ônibus. Fechei olhos, agradecendo a Deus baixinho pela milésima vez por, mesmo que a vida sozinha não seja fácil, ele tenha me dado o mais importante: liberdade.
Os minutos se passaram e a inconsciência começou a me tomar, me levando para a escuridão tão desejada durante todo o dia. Eu precisava tanto daquilo, daquele descanso que mal tive forças pra lutar quando o sono me embalou, com a ajuda da guizalha leve dos grilos e das cigarras que estavam ali por perto.
Olhos firmes e verdes se abriram na escuridão, fazendo todo o meu corpo tremer com as chamas que habitavam ali e sua força vital inabalável. Entrei em confusão repentina com todos os sentimentos e perguntas que, de novo, se soltaram e me afogaram como uma onda enorme no mar. Uma vontade enorme de me jogar nos braços fortes e quentes que eu sabia que estavam ali, em algum lugar, na escuridão me dominou fazendo com que minhas pernas criassem vida própria e avançasse em sua direção.
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Romeu e Julieta
RomancePassaram-se dez anos desde da tragédia que marcou para sempre a vida de Caíque e Sophia. Se apaixonaram quando eram adolescentes mas suas familias nunca aceitaram o amor dos dois, fazendo com que se rebelassem e tentassem de todas as formas ficarem...
