Park JiminAquele all star vermelho eu conhecia bem. Sempre via minha mãe usando. Inclusive foi inevitável sorrir emocionado quando o tirei daquela caixa e percebi que, além da poeira e das teias, ele continuava do mesmo jeitinho de quando ela o usava. Mas aquele coturno preto de cano alto eu nunca tinha visto. Nunca a vi usando uma bota na vida.
Mais uma das coisas daquele baú que ao invés de me esclarecer algo, me deixou intrigado.
Destrinchei aquele primeiro livro, o de "receitas", de cabo a rabo. Li todos os textos, as anotações de rodapé, as datas, os post its. A linguagem era completamente subliminar e metafórica. Me dediquei na sua interpretação. E quando terminei, só havia uma certeza rondando minha mente.
Minha mãe tinha alguém.
Certo, ela era casada com o meu pai. Mas ele nem contava como alguém. Havia uma pessoa nas entrelinhas daqueles textos e poemas que era amada por ela de uma maneira que me fez perceber que definitivamente não era Kwang. A relação que ela tinha com ele não continha amor.
E quando eu me toquei da existência desse sujeito oculto, minha cabeça explodiu.
Será que era a isso que dona Gwora se referia quando me disse aquelas coisas? Eu precisava crescer para compreender o fato de que minha traía o meu pai com alguém que amava de verdade? Era essa a Park Bada real? Uma adúltera?
Depois de um primeiro baque irracional e imaturo, quando comecei a conseguir refletir sobre todas as informações recém descobertas, o único sentimento que tomou conta de mim foi o de alívio.
Como era bom saber que minha mãe pôde amar alguém, e, pelo visto, ser amada de volta antes de partir. Como era bom saber que sua vida não se resumiu àquele homem esdrúxulo e infeliz que só lhe provia sofrimento e amarras.
Foram duas semanas inteiras chorando antes de dormir. Digerindo tudo isso. Imerso naquela viagem no tempo para uma época que, apesar de eu estar lá, não pude ter o acesso que estava tendo agora.
Conhecer minha mãe aos pouquinhos estava me abrindo o peito da exata forma que eu precisava naquele momento, mas que não conseguia sozinho.
Com o passar do tempo, senti minha sensibilidade aflorar novamente. Me sentia à flor da pele.
Conseguia tocar de novo tudo que me tocava.
Voltei a chorar observando a lua, passei a perceber mais os animais e a natureza ao meu redor ㅡ sempre aparecia uma borboleta azul quando eu menos esperava.
Aquela necessidade de dizer eu te amo a qualquer momento às minhas pessoas.
Eu estava voltando a ser quem eu era. Estava voltando para mim.
ㅡ Boa noite, coração ㅡ Taehy me cumprimentou tirando os sapatos ao chegar da faculdade.
ㅡ Boa noite, neném. Como foi a prova?
ㅡ Melhor do que eu esperava.
ㅡ Você passou dias estudando até de madrugada, o que exatamente você esperava?
Ele riu, cansado, se jogando em cima de mim no sofá. Derretemos juntos, escorrendo pelo estofado como se nossas colunas fossem de gelatina.
ㅡ Você jantou? ㅡ Perguntei enquanto distribuía cheirinhos no seu pescoço.
ㅡ Mais cedo. Tô com fome.
ㅡ Quer que eu faça alguma coisa?
ㅡ Eu aceito.
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Demasiado Humano • OT7
FanfictionEssa não é uma história de amor. É uma história sobre a condição humana a qual estamos fadados. Condição que nos faz contraditórios. Vulneráveis. Que nos limita às circunstâncias deste mundo material, mas nos permite sentir para além da nossa compre...