CAPÍTULO 28| Carta

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Pietro segurava o saco de pancada enquanto eu socava. Eu estava me esforçando para bater com força, mas ainda não estava contente. Então, eu dei um soco forte no saco e Pietro foi ao chão. Ele ficou revoltado e começou a dizer que eu estava socando com muita força.

- Senhor, você está batendo com muita força - Ele disse, no chão.

- Quem mandou ser um frangote?

- Assim você fere meus sentimentos - Ele colocou as mãos no peito.

Deixei ele no chão e subi para o meu quarto. Me deitei e cochilei. Eu mal conseguia dormir à noite, só conseguia pegar no sono de dia.

Meu cochilo foi interrompido por um barulho vindo do andar de baixo. Levantei correndo e desci a escada quase tropeçando.

- O que aconteceu? - Olhei em volta - Onde você está, garoto? - O chamei.

Um gemido de dor veio da lavanderia. Entrei rápido e vi o Pietro caído no chão.

- Quem te machucou? - Olhei em volta - Me diz que eu mato agora.

- Calma, senhor - Pietro falou, gemendo.

- Me diz, garoto - Segurei seus ombros com força - Quem te feriu?

Eu sentia o pânico tomar conta de mim, meu coração estava disparado e eu suava frio.

- Eu só caí - Ele me olhou - Não precisa surtar, ninguém me bateu.

- Como assim?

- Eu fui pegar o sabão e ele caiu na minha cara, eu escorreguei no pano e caí - Ele me olhou assustado - Desculpa.

Então não era nada? Ninguém tinha batido nele? Foi só uma queda?

- Para de ser desastrado, garoto - Me levantei e estendi a mão para ele.

- Você me ajudando? Isso é novidade - Ele ironizou.

Saí da lavanderia e fui para a cozinha pegar um copo d'água. Pietro veio atrás de mim.

- Senhor - Ele falou baixinho.

- Fala.

- Posso te fazer uma pergunta?

- Você já fez uma - Eu me virei e olhei nos seus olhos acizentados.

- Promete que não vai me matar quando eu perguntar? - Ele pegou o cabo de vassoura e apontou para mim. - Eu estou armado - Ele fez uma pose de ninja.

- Para de palhaçada - Eu o repreendi.

- Onde você enterrou sua mãe?

- Para alguém que se diz meu fã, você devia saber - Me sentei.

- É que - Ele coçou a cabeça. - Nenhuma reportagem falou sobre isso, só disseram que você enterrou sua mãe em algum lugar.

- Onde você achou o radinho?

- No quintal... - Ele fez uma pausa. - Você enterrou sua mãe aqui? - Ele gritou.

- Não grita, você sabe que eu odeio gritos - Eu apoiei o rosto nas mãos.

- Eu mexi em umas coisas no quarto da sua mãe e achei uma caixa escondida debaixo da cama - Ele me olhou.

- Joga fora - Eu disse.

- Senhor, tem uma carta e um brinquedo dentro - Ele se abaixou no armário da pia e pegou uma caixa preta.

- Que brinquedo? - Eu perguntei.

- Melhor você ver - Ele empurrou a caixa para mim.

Olhei dentro da caixa e o que vi me deixou surpreso. Tinha uma foto minha com o Bento, não sei como aquela foto foi parar ali. Era a gente sentado no parque dividindo nosso lanche. O brinquedo era o aviãozinho com as peças coladas e uma carta.

- Achei que você ia querer ler - Ele pegou a carta e me entregou. - Vou te deixar um pouco sozinho.

Eu não disse nada, só peguei a carta e li.

Oi meu filho, esta é a sua mãe, estou escrevendo esta carta enquanto te vejo dormir, você parece um anjo, tão pequeno e tão forte, mais forte do que eu. Se você está lendo esta carta é porque eu não aguentei, provavelmente eu morri depois de apanhar do Ed. Antes de continuar, quero que me perdoe, eu só queria o seu bem. O Ed não é o seu pai de verdade, eu fui violentada por um namorado quando tinha dezoito anos, conheci o Ed em um banheiro de balada, eu estava com uns comprimidos na mão, eu ia abortar você, você é fruto de um estupro. O Ed não deixou eu fazer isso, ele me mostrou outro caminho, a gente começou a namorar e ele dizia que ia cuidar de você como se fosse o seu pai de verdade, mas era tudo mentira. Ed começou a beber, a se drogar, antes de você nascer eu já sofria com os abusos, você nasceu prematuro, depois de eu levar uma surra de quase uma hora a bolsa rompeu. Me perdoe por transformar a sua vida em um inferno.

Depois que o Ed quebrou o seu aviãozinho eu colei cada peça e guardei para ele não ver e jogar fora. Tirei essa foto sua com o Bento antes de você me ver chegar, eu achei que seria bom você ter uma lembrança de quando era criança, valeu a pena? Filho, me perdoe por tudo, a culpa do seu sofrimento é minha, mas o seu sorriso era tão lindo que me dava vontade de viver. Você acabou de se mexer na cama e resmungar, tão fofo. Antes que o seu pai me pegue de surpresa quero te dizer mais uma coisa.

Não deixe que as dificuldades te derrubem, não se deixe levar pela maldade, continue sendo esse menino bom que eu tanto amo. E não beba álcool, respeite as mulheres, seja gentil e amoroso. Eu te amo e sempre vou te amar.

Com amor, mamãe.

Eu não senti nada ao ler essa carta. Era tarde demais para sentir alguma coisa.

- É mãe, eu odeio álcool - Murmuro para mim mesmo - Não sou nada gentil ou amoroso.

- Como ela se chamava? - Pietro aparece atrás da porta. - Desculpe, eu não quis te deixar sozinho.

- Laura - Guardo a carta na caixa.

- Senhor, esse da foto é o Bento?

- Para de me chamar de senhor, garoto - Me levanto. - Eu só tenho vinte e quatro anos.

- Nossa, você parece mais velho.

- É que eu cresci rápido demais - Respondo.

- Eu te entendo, meus pais também me sufocam - Ele diz, olhando para o alto.

- Como assim?

- Minha mãe vive me cobrando para estudar e meu pai chega todo dia me perguntando do time de futebol - Ele reclama.

- Você vai fazer exatamente o que eles querem - Me aproximo dele.

- Mas senhor...

- Eles só querem o seu bem, eu não estou comparando dores, porque cada um sabe o que sente e o que aguenta, mas esse sufocamento que você fala - Suspiro pesado - Não é nada perto do meu pânico, então seja um bom menino, aproveite que seu pai se importa com você, aproveite que ele senta no sofá da sala e joga videogame em vez de beber e violentar sua mãe - Dou um tapa na sua cara - Aproveite que sua mãe ainda é sua mãe, ela sorri?

- Sim - Ele responde, com medo.

- Grave cada detalhe nessa sua cabeça de vento, eu mal me lembro da última vez que vi a minha sorrir.

- Desculpe, senhor.

- Vai para casa, já está na hora - Mando.

- E essa caixa, o que eu faço?

- Pode jogar tudo fora, o brinquedo, a foto e a carta.

- Tem certeza?

- Absoluta.

ManicômioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora